Archive for Setembro, 2008
Como não celebrar um aniversário em 10 passos (back to the past!)
Fiz o contrário neste ano. Avisei os seletos.
Segundo: não faça festa e, óbvio, não fique triste com isso.
Também fiz o contrário neste ano: pequena festinha privada e seleta.
Terceiro: não espere presentes (oras bolas, se você não avisou ninguém, como podem te dar presente).
Também o contrário: avisei e acabei ganhando vários presentes.
Quarto: saia para almoçar ou jantar no restaurante que você quiser; dê-se esse presente.
Juntei os amigos para comer pizza. Acho que conta como sair para jantar. Ainda mais porque eu paguei.
Quinto: compre um bom vinho e tome-o escutando jazz.
Sim, tinha vinho. Aliás, a maioria dos meus presentes foram bebidos.
Sexto: evite pensar que você está ficando mais velho (isso pode te deprimir).
Isso foi inevitável.
Sétimo: quando atender o telefone, não espere que seja para te darem os parabéns; a lo mejor querem te pedir alguma coisa.
No comments. O telefone quase nunca tocava em BsAs.
Oitavo: assista Simpsons (sempre te fará bem).
Algumas sabedorias são eternas.
Nono: se você tiver algum amigo que faça aniversário em alguma data próxima do seu, vá à festa dele, coma e tome de graça e comemore consigo mesmo.
Não tive essa sorte neste ano. No ano passado sim: fui à festa venezuelana do Juan e me diverti horrores.
Décimo: durma pensando que no ano que vem tem mais!
De fato teve!
1 comment 23 Setembro 2008
Um mesmo celular, duas pessoas, muitas histórias…
Ele é simplório. À exceção do despertador, que é insuportável e gera(va) diariamente desejos profundos de defenestração, e do joguinho de boliche, ele não tem nenhuma função que preste. É azul, pequeno, de origem holandesa (foi o que me disseram quando o comprei) e cuja marca é completamente desconhecida. Nunca na minha vida cruzei com alguém que ao menos tivesse sabido da existência da empresa que o fabrica.
Possui um carregador muito estranho, que por sorte até hoje nunca deu pane. A entrada do plug do carregador é dessas minientradas de áudio dos fones de ouvido dos celulares atuais. Estranhíssimo.
Em resumo, não se dá nada pelo conjunto, mas mesmo assim o bichim funciona e dá alegrias.
Alegrias?
Sim, alegrias.
A mim quando morava na França e o usava pela Europa inteira (foi através desse celular que não consegui falar com a mulher da minha vida em Amsterdam, naquela fatídica manhã, e com o qual depois, por sorte e por desencargo de consciência, consegui contatá-la, adiantando assim a minha volta para Paris), e a um amigo, cujo nome não revelarei, que também está por aquelas bandas.
Winter is cold when you have no warm memories, recebido já dentro do trem, indo embora para Paris pegar o meu avião de volta para o Brasil, logo após ter passado a minha última noite em Clermont com a Tiff.
Ela foi a namoradinha-namorada-mais-séria que tive lá. Nos conhecemos no encontro regional dos assistants langue étrangère em Clermont-Ferrand. Dos quase 500 professores assistentes que foram ao encontro, alguns poucos se destacaram. Ela por ser uma das três pessoas que estavam participando do programa pela segunda vez, e eu por ser o único brasileiro de todo o encontro.
Como um bom brazuca e viajante conversador que sou, já fui puxando papo e me apresentando para todo mundo. Calhou que no almoço comemorativo sentamos eu, Tiff e as meninas que iam morar em Moulins (a haitiana Carine, a espanhola Mercedes e a alemã Anke).
Essa mesa teve um grande papel na minha estadia na França. Já ali descobri que a Tiff tinha um noivo esperando-a nos Estados Unidos, mas de quem não estava sentindo saudades, que a Carine tinha recém-saído de um relacionamento longo e que a Anke e a Mercedes estavam solteiríssimas!
Naquele dia, trocando números de celulares (daquele telefonezinho azul citado acima!) para faire n’importe quoi pour bouger un peu, descobri que a Tiff morava ao lado de casa. Literalmente: o prédio dela dividia parede com o meu. Foi inevitável que começássemos a nos ver direto, além do mais porque ela era amiga da Annie, com quem eu dividia um studio de 15m² com mais um italiano.
Sendo assim, já naquela semana combinamos de tomarmos todos umazinha no L’Appart, espécie de Central Perk (café onde os “Friends” se encontravam) da minha galera de lá. Reunimos uma penca de gente. Tomando demi pêche (chope com groselha de pêssego), fui dando uma de metidinho e flertando, no melhor estilo brasileiro “malandro mas não sei de nada”, com as meninas da “mesa”. Madrugada adentro, quando já tinham ido todos embora, acabamos ficando só eu, a Tiff e mais um par de amigos de St. Étienne no bar. Tomando, é claro.
Fim de noite, éramos os dois bourrés retornando para casa. Na hora da despedida, em frente das nossas casas, acabamos ficando…
Minha história com ela começou aí. E terminou meses depois com a mensagem que ela me mandou na manhã da minha ida para Paris.
A história com as meninas de Moulins teve início no fim de semana seguinte à bebedeira do L’Appart. Elas iam fazer uma festinha na casa delas e me convidaram. Obviamente fui.
Para ser mais preciso, era mais um ‘tit appéro que uma festinha. Não era o que eu esperava, mas não podia ter sido melhor. De-beber, de-comer e gente para conhecer. E bebi e comi e conheci gente. Acabei ficando pela primeira vez com a Carine lá, mas antes tinha flertado descompromissadamente com a Anke e com a Mercedes. No dia seguinte, quando a Carine e eu as encontramos no petit déjeuner, tudo ficou claro: a Mercedes não ia relevar a minha atitude da noite passada nem me perdoaria, sobretudo porque a Carine era a sua melhor amiga; já a Anke, por outro lado, pareceu se interessar ainda mais por mim!
O fato é que dois dias depois, quando a alemã foi a Clermont para resolver umas burocracias referentes à sua estadia, ela me ligou no celular e fomos tomar um café…
O fenômeno “eu tenho um amante latino” (no caso, eu) durou ainda uns dois meses. Para felicidade de todos: minha por motivos óbvios; delas porque estavam tendo um affaire com um latino (muito embora eu não seja nenhum exemplar digno de Ricky Martin) e matando a tal da curiosidade. Saímos todos ganhando.
Naturalmente, porque só de affaire não se vive, os relacionamentos mais representativos foram tomando lugar e fomos todos nos “vendo” menos. A haitiana começou a namorar um marroquino, a alemã continuou solteira, a espanhola virou minha amiga (independente das histórias, éramos amigos os quatro e nos víamos sempre que podíamos). Quanto a mim, acabei me envolvendo mais com a Tiff. Por literalmente ser minha vizinha, nos víamos e dormíamos juntos todos os dias e aos poucos fomos pegando carinho um pelo outro.
Não era raro, porém, receber no mesmo dia mensagens como estas:
Hey, darling, I fell you yet next to me. How about some of both of us together again tonight?
Boulu-boulu! Sak pasé? Nap boulé? Biju mú amu. (sim, com a haitiana às vezes trocávamos mensagens em crioulo, o pouco que ela tinha me ensinado e que já esqueci quase tudo.
Com a alemã trocávamos somente mensagens em francês. O escasso Ich liebe dich que eu tinha de vocabulário não convinha à situação.
Anos depois, com a França longe de mim milhares de quilômetros e agora sob os pés desse meu amigo, o meu celular holandês de marca desconhecida voltou a ter sua função mais nobre, nunca especificada em seu manual de instruções: a de juntar as pessoas.
Que palavras estará ele recebendo agora?
RDV Rivoli 17h.
G vu. Merci. T m manks !
Maussi. Bs.
Um mesmo objeto, aparentemente sem muita utilidade, envolvendo tanta gente de tantos lugares e suscitando des ‘tites et grosses joies para duas pessoas no mesmo lugar mas em épocas diferentes. O mundo todo dentro de um aparelhinho de nada. É por isso que não só as ações engendram reações. A mera existência de um objeto também.
2 comments 16 Setembro 2008
¼ de século + 2 = 30 – 3
Senhores, aproximei-me mais um pouco dos trinta. Dos 30! Ca-ra-lho! E senti o peso dos anos, das expectativas (da sociedade e minhas) e do corpo já não agüentando mais o tranco.
Diz o meu amigo J. A. que quanto mais perto você está da terceira dezena mais você vai sentindo o passar dos anos através dos sinais que o teu corpo vai dando. Na hora de correr, as pernas não respondem mais como antes. O pulmão, esse parece que está menor. Os cabelos já vão agrisalhando (sim, tenho uns cabelos brancos já aparecendo e não me incomodo nem um pouco com isso). Nem falar então da barriga, que nem mais teima em diminuir. Como diriam os portugueses, “está a estar e quem sabe a crescer, tão-só”.
Mas não só de corpo se fazem os 27. Também de reflexões. Sendo ou não sendo o momento apropriado, fiz eu as minhas. O que alcancei ao longo destes 30 – 3 anos? Não publiquei um livro, não plantei uma árvore nem tive um filho (ainda bem!), bem como não corri na São Silvestre nem dei entrada em um apartamento pela Caixa (novas condições, estabelecidas pelas Jacquenilda) para se viver à completude.
Tampouco viajei o tanto que queria ter viajado, não dei ainda a volta ao mundo, não visitei todos os países que gostaria nem morei na metade das cidades que me fascinam, que são muitas e onde ainda vou amarrar o meu burrinho dia ou outro (Santiago, Bogotá, Cochabamba, Cidade do México, Nova York, Montreal, Amsterdam, Dublin, Estocolmo, Reykjavik, Zanzibar, Shangai e Tóquio).
Não casei (quase), não passei um mês meditando nos Himalaias nem comi todas as iguarias bizarras que quero comer. Não publiquei nenhum grande tratado de física que mudaria o mundo, não me destaquei em nenhum ramo nem fui tomado como gênio.
Fiquei me perguntando então o que é que eu fiz nestes anos? Em um primeiro momento, confesso, entré en desesperación e quase fiquei deprimido. Mas logo comecei a fazer o pensamento reverso e me dei conta de que já sei o que fazer no resto dos anos que me aguardam. De tédio não morro, espero eu.
Quando estudava filosofia e depois clássicos da literatura, vivia pensando em todos os cabeções que admiro (Aristóteles, Kirkegaard, Thomas Mann, Balzac, Guimarães Rosa, etc.) e me comparava constantemente a eles. Pensava: “Olha só, ele fez tal coisa quando tinha só 23 anos. O que é que você conseguiu fazer até agora?”. É óbvio que entrava em uma nóia intensa.
Hoje, já prezo mais a mortalidade. Nos dois sentidos: no de saber que vou morrer (é a morte que faz com que haja a noção de tempo, dando valor às coisas) e no de saber que sou um mero ser humano com capacidades físicas e intelectuais medianas. A-ê!
Sendo assim, já sei o que tenho que fazer daqui para frente: publicar um livro, plantar uma árvore (de preferência um baobá), ter um filho (espero, sinceramente, que isso demore ainda muito), correr na São Silvestre e dar entrada em um apê pela Caixa, além, é claro, de dar a volta ao mundo e aprender a falar aluguel em islandês.
Mas tudo isso, se for pensar, não deve ser feito com pressa. Quanto antes der cabo de tudo isso, antes ficarei sem motivos para viver e sem perspectiva. O que é que vou fazer depois? É por isso que a arte de postergar é algo que só se aprende com o decorrer dos anos.
Em outras palavras, cheguei aos 27 e me aproximei mais um pouquinho dos 30, mas nem por isso estou triste por não ser um gênio da matemática ou por ainda morar de aluguel!
Parabéns então para mim, para quem comer pizza com os amigos e falar besteira já é maneira digna de passar o aniversário.
2 comments 11 Setembro 2008
A mexerica
Dentre todas as coisas que faço nesta minha humilde vida, uma delas é me dar o direito de encontrar os erros dos outros. Erros de escrita, deixe-se claro. Sim, além de animador de torcida de Winning Eleven, futuro aspirante a açougueiro e repositor de galão de água, também sou revisor. Aliás, minha profissão atual.
Mas o que faz, mais especificamente falando, um revisor? Ora, corrige ortografia, concordância, sintaxe e estrutura do texto/frase, mantendo tudo dentro de um padrão previamente determinado. Em linhas gerais, é isso que faz um revisor.
E para aqueles que trabalham comigo, que imagem fazem da minha função? Além de te verem como o fiscal da concordância das boas maneiras gramaticais, você também serve como dicionário ambulante.
Ô, revisor, mexerica é com “me” ou com “mi”? – Com “me”, minha flor.
Ô, revisor, “à vista” vai com crase ou não? – Vai sim, sô.
Ô, revisor, se “à vista” vai com crase, “a prazo” não devia ir também? – Não, pequeno panda.
Ô, revisor, “chuncho” é com “ch” ou com “x”? - Cê agá!
Ou como o “cara chato dos pontos finais”.
Veja bem, aqui, em tese, deveria ir dois-pontos, não um hífen.
Ou como um cara “inteligentchi”.
Ô, revisor, você que é um cara inteligente, me diga aí o que você acha de…
O que dizer? São os oços do ofíssio.
1 comment 4 Setembro 2008



