Bons Ares

Tem dia que só amanhã!

Finados de rolê 9 Novembro 2009

Nunca escondi de ninguém que não sabia andar de bicicleta.

Quando criança, lá pelos 6, tive uma bicicross (se é que assim se chamava) azul, com pneus para o barro, um pouco grande para o meu tamanho. Como não sabia andar, meu pai pôs rodinhas nela, para que me ajudassem no equilíbrio. Se eram úteis, não sei dizer. Fato é que não me ajudaram a aprender. Talvez, mas só talvez, tenham me atrapalhado.

A minha era azul e tinha rodinhas

A minha era azul e tinha rodinhas

Fui então uma criança parcialmente motorizada. Não sabia andar de bicicleta e tive que dar meus pulos para encontrar uma solução para esse impasse na hora das brincadeiras. Inventávamos corrida de tudo, menos de bicicleta: carrinho de mão, carrinho de rolimã, patinete, etc.

A infância se passou e consegui sobreviver ao não-pedalismo.

Já tinha até esquecido que não sabia andar de bicicleta quando entrei na adolescência. A patota toda, e sobretudo o Zunga (meu amigo mais próximo), andava, menos eu. Mais que na infância, não ter uma magrela começou a me incomodar. No entanto, ao invés de arranjar uma e aprender, enveredei para outro “brinquedo” de rodinhas: o patim. Com o mesmo Zunga, que hoje se chama Brahmarsi Das, nos embrenhamos pelas ruas de Curitiba de patins. Até tivemos um time de hóquei.

Jogávamos mais ou menos assim

Ficamos anos andando de patins para lá e para cá, até que eles chegaram a um ponto em que se destruíram e não podiam mais ser usados.

Mais ou menos na mesma época, começou a fase de namoricos sérios, e o patim, e por conseguinte a ainda não bicicleta, foi deixado para trás.

Vem a época de faculdade e a locomoção massiva de ônibus tem lugar. Biarticulado, Ligeirinho… De ônibus, porém, não quero falar. Novidades não há.

Em seguida, a longa fase do automóvel movido a combustível não humano, que dura até hoje: tive meu primeiro carro. É carro para cá, é carro para lá, é viagem para a praia… O carro vira o centro das atenções. Tudo se faz para ele e com ele.

Car way of life

Vou para a Europa e, em Amsterdam, influenciado pelo clima da cidade e querendo fugir do friaca dos demônios (não sei mais quantos graus estava; prefiro não chutar, porque desconfio que cada vez que conto essa história modifico detalhes como esse), aprender a me equilibrar sobre a bike. Seria, a meu ver, o primeiro estágio, simbólico, do aprendizado. Isso não quer dizer, porém, que eu fosse capaz de desviar de obstáculos tais como um árvore ou uma pessoa caminhando. Preferi, naquele entonce, me ater àquela experiência noturna

Aprendendo em Amsterdam

Outros anos se passam e, já de volta ao Brasil e novamente com carro, a comodidade se instala completamente. Aonde podia ia com ele, mesmo que seja até a padaria, que ficava a três quadras de casa. Junta-se a isso o fato de começar a trabalhar no melhor estilo “bater cartão & pensar em férias & bater cartão & fazer hora extra & economizar para viajar & bater cartão & ter dores por todo o corpo de passar o dia sentado & etc”.

Ninguém merece

Não se preocupem, já vamos chegando aos dias de hoje.

Até que, levado por todo um contexto muito particular, decido por A mais B que ia, de uma vez por todas, domar aquele maldito animal chamado camelo. Ia acrescentar mais essa habilidade ao meu currículo: a de saber andar de bicicleta.

É claro que para muitos isso parece besteira, pois é coisa de a se aprender quando se é criança. Mas, como essa lacuna não foi preenchida na minha infância, ela foi virando uma bola de neve depois de adulto. Não posso dizer que foi difícil aprender, mas também não posso dizer que foi fácil. Houve dificuldades (de vergonha, por exemplo) a serem contornadas.

Uma vez decidido a aprender e ciente dos meus limites físicos, fui aprendendo aos poucos. Primeiro fiquei tentando relembrar o que aprendi em Amsterdam, no Vondelpark, em espaços abertos e livres de obstáculos. Depois, fui dar umas voltas acompanhado de amigos pela ciclovia. Em seguida, comecei a ir sozinho diariamente à ciclovia, em horários pouco movimentados, para treinar. Em seguida, quando já dominava mais o animal antes indomável, ia nos horários de pico. Só foi então e há poucos dias que comecei a incursionar pela rua, respeitando as seguintes fases: ruas inóspitas e mortas; ruas pouquíssimo movimentadas; ruas pouco movimentadas; ruas movimentadas; e caos. Já até o nível das ruas movimentadas, mas ainda não enfrentei o caos. Pretendo logo fazê-lo.

Os rolês do feriado do Dia de Finados foi a corroboração e concretização das minhas novas habilidades como ciclista, ser com quem já começo a me identificar.

Na sexta já fui dar uma volta pela ciclovia com o Piper. Nos encontramos no Bosque do Papa, fomos ao Parque São Lourenço, Barreirinha e seguimos até o “Pólo-Xopim”. Para o dia seguinte, marcamos com o Cabrito de fazer o famigerado Clube do Bolinha em algum parque da cidade. O ponto de encontro foi o Eppinghaus. Caloreira beirando os 30°. Subimos até o Bosque da Língua Portuguesa. Sentados à sombra de uma árvore, discutimos parte do que tínhamos que discutir e fomos comer na Fagundes Varela. De lá fomos tomar um cafezinho decente lá do lado do quartel e descemos até a praça da Suíça, onde terminamos as discussões, também jogados na grama.

Cabra então se separou, mas Piper e eu viemos até em casa. Estivemos por aqui até umas 21h, quando fomos ao mercado, compramos o de-beber e fomos à festinha de um amigo nosso. Tudo isso de bike.

Às 2h, com o bucho cheio de carne e contentes, viemos cantando “menos carros, mais bicicletas” pelas ruas desertas.

No domingo, outro rolê de bike por aí com Camilo.

E à noite, quando estávamos todos aqui em casa já meio bundeando, bradamos: rolê noturno! Piper prepara-se. João Arthur prepara-se. Eu me preparo. Investidos cada um de suas bikes e outros apetrechos, saímos à rua. Rolezaço gigante à vista. De casa vamos até o Largo da Ordem, Rua XV, Praça Osório, Batel, Praça da Espanha, Parque Barigui, Rua 24 Horas, Praça Santos Andrade, e Praça 29 de Dezembro. Guiados por nosso amigo Jean Valjean, vamos conhecendo as árvores da cidade. Tipuanas, tamareiras, paus-brasis, etc.

Tamareira

Chegamos em casa às 3h30, com direito à passada na padoca 24 horas para comer um queijo quente.

Acho que já posso dizer que sei andar de bicicleta. Falta agora virar um ciclista…

… e dar sorte de cruzar com a Liz Hatch por aí…

 

Trem e outros amores VII 7 Agosto 2008

Arquivado em: Amsterdam, Causo — Maikon Augusto Delgado @ 14:58
Tags: ,

[...], [...], [...], [...], [...] e [...]

No terceiro ou quarto degrau, depois de ela ter fechado a porta, pensei: “Puta merda! Não posso ir embora assim! Muito provavelmente será a última vez que verei ao vivo a mulher da minha vida.”

Voltei e, já quase batendo na porta, ela abriu. Não foi preciso dizer mais nada: nos beijamos.

No entanto, eu ainda tinha que ir.

Lis, je voudrais juste te dire que je t’aime fort bien, que j’irais n’importe où avec toi…

Uma lágrima escorreu pelo seu rosto.

Je… Je suis tellement désolée… Je peux pas. Je te le jure. Moi je t’aime bien aussi, mais je peux pas maintenant…

Por mais que estivesse doendo, eu sabia. Não era nossa hora (se é que um dia ainda teremos uma hora).

Ela me beijou novamente, me abraçou junto do seu peito e me pediu que partisse.

Repars, je t’en pris. J’en pourrai plus.

Fui, também com lágrimas nos olhos. Eu estava me despedindo da mulher.

Quando cheguei ao pátio interno do prédio, ela saiu na janela e gritou:

Hey, guapo.

Olhei para cima.

Sepa que te quiero mucho. Perdóname, ¿sí?

Eu não tinha muito que dizer: también te quiero. Que te vaya bien…

Creio que não é preciso dizer o quão mal fiquei nos dias seguintes. Estava completamente desolado. Mas a vida é assim. Ela não pára.

Fui para Clermont, onde tinha que me apresentar dias depois.

Mais ou menos dois meses após ter me instalado, o telefone tocou de noite.

Oie.

Oi?

Sou eu!

Você?

Sim, eu.

Nossa.

Então… queria só ouvir a tua voz…

Que bom que você ligou. Como está tudo por aí?

Lis me contou como estava indo tudo. A gravação do novo CD, os músicos que estavam colaborando, as pessoas que estava conhecendo. No final, soltou:

Tu me manques!

Moi aussi.

Tenho que ir, tá? Não fique pensando que não te gosto…

Naquele momento, eu entendi tudo. Não só a minha relação e história com ela, mas o amor em geral: o gostar pertence àquele que gosta, não àquele que é amado.

Desliguei o telefone triste e feliz. Triste por estar intuindo que nunca mais ia falar com ela, e feliz por ter entendido um pouco mais do amor.

Desde então, nos falamos com pouca assiduidade, mas nos falamos. Às vezes distantes, às vezes mais próximos, sempre por e-mail. No último, há não mais de um mês, ela me disse:

É impressionante como você nunca esquece de mim…

A minha resposta, que ainda não enviei, será este texto. Às vezes a verdade é longa demais para ser dita em poucas palavras…

fim.

Para encerrar com chave de ouro, porque sei que muitos já não suportavam mais essa novelinha mexicana, que ainda por cima terminou “mal”, deixo vocês com um vídeo que meu amigo Guillaume Alix, do Histoires de Voyageurs, me passou. É justamente sobre esses encontros e desencontros em trens.

 

Trem e outros amores VI 2 Agosto 2008

Arquivado em: Amsterdam, Causo — Maikon Augusto Delgado @ 22:24

[...], [...], [...], [...] e [...]

Quando a vi se distanciando, me senti praticamente destroçado. No entanto, ainda com o intuito de entender o que tinha acontecido, pensei que também havia amor nisso que estava acontecendo entre nós. Foi então que pensei no Grande Sertão: Veredas. A vida é um estradar, são veredas. Nessa hora, ao pensar isso, eu soube que tinha que dar a ela esse livro, custasse o que custasse.

Saí, então, como um louco à procura do livro. Procurei por todas as grandes livrarias que conhecia por Paris, mas nada de encontrar. A tradução do livro existia, mas estava esgotada, dizia um dos atendentes. Foi quando, já sem esperança, caminhando pelo Quartier Latin, passei na frente de uma livraria lusófona. Entrei, perguntei sem muito ânimo e recebi uma resposta que me desconcertou.

Sim, tenho um exemplar. O último, aliás.

Quanto?

Oito euros.

Perfeito. Dessa vez não titubeei. Comprei o livro e corri para casa. Já tinha em mente toda uma carta para escrever para ela.

De 15 páginas! E em francês!

No dia seguinte, liguei para ela.

Oi, tudo bem com você?

Oi, bom dia. Tudo sim. E com você?

Bem… Então, queria te ver.

Eu também.

Comprei um presente para ti.

Sério?

Sim. Passei o dia todo ontem procurando, até que achei.

Ai, então vem aqui me entregar ele.

A que horas?

Olha, eu estou superatarefada hoje. Preparando tudo para ir para Londres, mas lá pelas 17h poderia te receber. Tomaríamos um café ou chá ou o que você quisesse.

Ótimo. Às 17h em ponto estarei aí. Um beijo.

Outro para você.

Às 17h em ponto eu estava lá. Também não poderia ser diferente. Do momento da ligação até a hora de tocar na sua porta, eu não tinha conseguido fazer outra coisa que pensar nela, no seu cheiro, na sua boca, na sua pele. Eu tinha certeza de que ela era a mulher da minha vida.

Antes mesmo de ela abrir a porta eu já estava suando frio, com as palmas das mãos úmidas, nervosíssimo à espera da sua reação.

Entrei. A porta de entrada dava direto para a cozinha. A casa estava toda revirada, nitidamente em sinal de alguém estar fazendo mudança.

Você quer sentar?

Hum… na verdade não sei.

Por que você está tão nervoso?

Não sei.

Menti, é óbvio. Eu sabia perfeitamente por que estava com os nervos à flor da pele.

Quer um chá?

Quero sim, obrigado.

Eu não podia esperar mais. Precisava entregar-lhe o presente que havia comprado.

Então, eu queria te entregar um presente. Sei que é bem possível que você nunca venha a lê-lo ou que o perca em meio a tantas idas, vindas e mudanças que tem na tua vida, mas mesmo assim eu queria te dar ele. É de um autor que gosto muito. Para mim, é um dos melhores livros jamais escritos. E acho que fala um pouco da nossa história…

… ai, muito obrigada. Assim que der vou ler, te prometo.

E…

Ela abriu o livro e viu que havia uma carta dentro.

Você escreveu uma carta para mim?

… escrevi.

Dizendo?

Leia você que vai descobrir.

Ela se pôs a ler a carta.

Não. Não leia agora. Leia quando estiver no trem ou em qualquer outro momento em que tiver um tempo livre. Além disso, não gostaria que você lesse na minha presença.

Por quê? O que diz na carta?

Se você ler, vai descobrir.

Vou ler. Hoje mesmo.

Bom, então acho que vou indo. Vi que você está abarrotada de coisas por fazer e não quero te atrapalhar.

Ai… se eu não tivesse que ir amanhã, eu ia adorar que você ficasse um pouco mais.

Eu entendo. Não tem importância.

Bom… desculpa.

Desculpa eu. (disse isso pensando na vez em que não fui encontrá-la em Amstelveen.

Vou indo então.

Nos demos um abraço forte, longo e demorado, e começamos a nos separar. Ambos não queríamos, mas era sabido que uma hora ou outra eu ia ter que ir embora. Ela ia embora.

Tomei coragem e fui.

continua….

 

Trem e outros amores V 28 Julho 2008

Arquivado em: Amsterdam, Causo — Maikon Augusto Delgado @ 21:28

[...], [...], [...] e [...]

Já na cidade-luz, chegando ao apartamento em que estava me hospedando, em Belleville, a primeira coisa que fiz foi telefonar para ela.

Oi, sou eu.

Oi, você veio!

Sim. Você acha que não viria?

Não sei…

Quero te ver.

Também quero te ver, mas o único problema é que os meus horários estão complicados por conta da mudança.

Me diga hora e lugar que vou estar lá.

Olha, eu posso hoje à tarde, lá por uma 16h, naquela pracinha em Châtelet. Sabe qual?

Sei.

Ótimo.

Nos encontramos lá então.

Nos encontramos…

Antes mesmo das 16h eu já estava lá esperando. Vi-a chegando de longe. Coincidentemente o mesmo jeans do outro dia, mas outra blusa. Para dizer pouco, ela estava deslumbrante. Foi vê-la para ter certeza, novamente, que ela era a mulher da minha vida.

Oiê.

Me deu um beijo carinhoso no rosto e um abraço.

Oi.

Eu sorrindo que nem um bobo por estar ao lado dela de volta.

Ela pegou na minha mão e me puxou.

Conheço um cantinho lindo por aqui. Lá a gente vai poder conversar em paz.

De fato era um cantinho muito calmo em meio à muvuca de Châtelet. Deitamos os dois sobre a grama, tiramos os sapatos e ficamos conversando durante horas. Às vezes ela deitava no meu colo e eu lhe fazia cafuné, às vezes era eu quem ganhava um carinho.

Lis estava toda esfuziante. Empolgadíssima com a perspectiva de ir para Londres gravar seu primeiro CD solo. O seu sorriso ia de um lado a outro do rosto.

A essa altura, o meu coração já estava quase saltando pela garganta. Eu queria muito dizer a ela o que estava sentindo (que era ela!), mas ora não via coragem, ora não via oportunidade. Até que, idéia dela, levantamos e fomos tomar um café. Sentados um de frente para o outro, de maneira que eu não a sufocasse e lhe desse espaço para correr se quisesse, me declarei. Sincera e abertamente. Não guardei nada e disse tudo o que estava sentindo. Que eu não tinha podido parar de pensar nela, que estava apaixonado/amando, que sabia que ela era a mulher, que eu podia acompanhá-la aonde quer que ela fosse.

Ela ouviu calada tudo o que eu tinha a dizer, silêncio o qual, devo dizer, foi me deixando mais e mais apreensivo. Quando terminei, disse-lhe que se quisesse podia simplesmente ir embora sem dizer palavra. Eu ia entender. Lis, então, se levantou e entrou no bar. Acho que foi ao banheiro. Três minutos depois, contados no relógio em estado extremo de aflição, voltou, se sentou, olhou bem nos meus olhos e disse.

Eu não quero ir embora (je veux pas partir).

Tive que abrir um sorriso maroto. Ela encetou.

Mas vou confessar para você que eu quase fui embora. Foi por isso que fui ao banheiro, para ver se espairecia um pouco. Não é que quisesse ir embora porque não tenha gostado do que você disse. Pelo contrário. Pensei em ir embora porque tenho medo, e ir embora sempre é a maneira com que acabo lidando com essas situações. Eu vou ser bem sincera com você: eu tenho medo de me envolver. Já tentei uma vez, anos atrás, não deu certo e me machuquei muito. Desde então, vivo me esquivando das pessoas que mais gosto e ficando com as que não querem nada de mim. Eu gostei muito de você, desde o primeiro momento em que te vi chegando na estação. Mas tenho medo, muito medo de me envolver contigo, justamente porque você parece ser a pessoa perfeita para se envolver comigo. Acho que tudo seria perfeito entre a gente. Não só acho como tenho certeza. No entanto, e sei que vou me arrepender disso, não consigo enfrentar esse meu medo. Fora que eu me jogaria muito de cabeça em um relacionamento com uma pessoa como você, é do meu métier, e não posso fazer isso agora. Estou num momento determinante da minha carreira, e ela, de certa maneira, é a única coisa que realmente tenho. Não sei se posso pedir isso, mas gostaria que você entendesse.

Eu, ao contrário do que poderia imaginar, tive uma epifania no momento. É como se tudo, de repente, fizesse sentido e entrasse nos eixos. São raros os momentos em que acontece isso comigo. Esse foi um deles.

Eu te entendo. De verdade. Acho que você tem que correr atrás do que você quer, pular de cabeça nisso. Pode parecer loucura, mas sei que ainda vamos ficar juntos, cedo ou tarde.

Ela sorriu. Eu também, ainda mais porque, no momento, tinha certeza absoluta de que um dia ainda íamos nos encontrar (aliás, quem disse que isso ainda não pode acontecer?). Ela pegou na minha mão, fez um carinho no meu rosto, quase me beijou.

O que eu mais queria agora é te beijar, mas não posso. Não posso porque se fizer isso não vou conseguir ir adiante, porque só vou pensar no gosto da tua boca. Não me entenda mal. O que eu mais quero é te beijar, mas não posso.

Te entendo, apesar de te querer muito.

Ela me abraçou, aproximou o seu rosto do meu, quase lábio com lábio (eu quase a ataquei nesse momento), encostou a testa com a minha e soltou uma lágrima.

Agora eu preciso ir.

Queria te ver mais uma vez.

Será que vai ser bom para nós dois?

Não sei, mas quero te ver.

Passa lá em casa amanhã então. Me liga antes para ver como vou estar com a mudança.

Ok.

continua…

 

Trem e outros amores IV 23 Julho 2008

Arquivado em: Amsterdam, Causo — Maikon Augusto Delgado @ 00:15

[...], [...] e [...]

A Amstelveen, pois, ela foi, enquanto eu me dirigi ao hostel, imaginando que o meu amigo já tinha pegado todas as minhas coisas no parque. Quando cheguei ao hostel, meu amigo não estava. Perguntei à recepcionista se ele já tinha dado check-in e ela me disse que sim. Completou informando que eu, em tese, também já tinha feito. Quarto n° 203, cama 8. Subi ao quarto, encontrei a minha cama sem nada das minhas coisas. Desci na recepção, perguntei qual era a cama do meu amigo e subi para ver se as minhas coisas estavam debaixo da cama dele ou no seu armário. Tampouco. Pensei: “Caralho, vai ver ele não pegou as minhas coisas pensando que eu ia passar por lá para ir a algum lugar com a Lis”. Na hora, foi o que pensei. No entanto, o idiota aqui não conseguiu pensar nisso duas horas antes!

Fui correndo ao parque (já era mais de 0h) com um medo danado de ter sido roubado e perdido todas as poucas roupas que tinha. Desesperado, não consegui encontrar a minha mochila e entrei em desespero. Sorte minha que consegui me acalmar e me dar conta que não estava procurando no lugar certo. Quando encontrei o arbusto que tinha servido de esconderijo, vi que, embora eu tivesse agido errado em ter titubeado (coisa que eu só descobriria depois), aquele 9 de setembro de 2004 era, sem sombras de dúvidas, o meu dia de sorte por excelência: minhas coisas estavam todas lá, do mesmo jeito que tinha deixado.

Aliviado, voltei ao hostel e tomei um banho. Estava mesmo precisando. Saí para encontrar o meu amigo, que, durante a minha ida ao parque, tinha deixado um bilhete dizendo onde estava. Depois de encontrá-lo, voltei para casa e dormi pensando que ia encontrar a Lis no dia seguinte, já logo cedo. A minha idéia era acordar umas 7h, tomar café, preparar as minhas coisas, ir à estação e lá por umas 9h ligar dizendo a que horas eu chegava.

Já com a passagem em mãos, liguei para ela. O telefone tocou e ela não atendeu. Tocou outra vez e ela não atendeu. Liguei umas quatro ou cinco vezes e ninguém atendeu. Automaticamente passou pela minha cabeça que ela desistiu de mim e da nossa história. Merde! Merde! Impropérios era a única coisa que eu conseguia dizer no momento.

Depois de mais de uma hora ligando para ela, tendo já perdido o meu trem (embora houvesse trens para lá de meia em meia hora), desisti. Podia ir na louca atrás dela, mas sabia que não ia encontrar. Voltei para o hostel, acordei o meu amigo e fomos para Rotterdam.

A minha frustração era incomensurável, inenarrável e sem tamanho. Arhhhh!

Já em Rotterdam, segundo dia na cidade, resolvo ligar novamente para ela por desencargo de consciência. E não é que ela atende?

Alô?

Alô.

Oi, é você?

Tentei te…

Nossa, ainda bem que você ligou!

É?

Eu estava esperando você ligar.

É?

Sim, nossa, desculpa. O meu celular ficou fora do ar durante dois dias. Problemas com a operadora. Você tentou ligar para mim?

Sim, várias vezes.

Ai, mil desculpas. Queria muito que você tivesse vindo. Aliás, ainda quero!

Tive que amansar.

Eu também.

Eu ia te convidar para vir para cá, mas uma ótima coisa aconteceu e eu tenho que voltar para Paris hoje mesmo.

O que aconteceu?

Vou fechar contrato com uma gravadora e preciso me mudar o mais rápido possível para Londres.

Sério?

Maravilhoso, né?

É!

Então, eu vou estar em Paris a partir de hoje à noite. Devo ficar uns três dias, que é o tempo de empacar tudo e resolver a minha vida lá.

Nossa, que bom!

Então, se você puder, venha me ver antes de eu ir embora.

O que mais dizer? É óbvio que ajeitei tudo para em dois dias estar de volta a Paris. Eu precisava vê-la novamente.

continua…

 

Trem e outros amores III 14 Julho 2008

Arquivado em: Amsterdam, Causo — Maikon Augusto Delgado @ 01:11

[...] e [...]

Só nessa altura do campeonato que eu lembrei que estava com um amigo, que tinha ido comigo à praia e estava voltando de lá sempre ao meu lado. Confesso que ele tinha sido ofuscado por ela.

Foi quando ele chegou, boquiaberto e completamente surpreso por eu de fato ter falado com ela e ainda não ter levado um tapa ou supetão na orelha.

Cara, então…

Mal precisei começar a falar, ele já tinha entendido tudo.

Relaxa. Vai com fé, papai, que depois nos encontramos no hostel.

Sim, ele é baiano. E se distanciou.

Ela, que vou chamar daqui em diante de Lis, estranhou ele ter ido, mas logo em seguida abriu um sorriso e disse.

Eu também prefiro assim.

Pasme.

Olha, eu conheço pouquíssimo Amsterdam, mas vi uma série de cafés nessa direção.

Não se preocupe, eu conheço mais ou menos. Conheço um bem legal perto daqui. Se você não se incomodar em irmos caminhando…

No caminho, a conversa fluiu como nunca. Eu, na minha parca experiência amorosa, sei que é quando a conversa flui que você tem que se preocupar. Mais um motivo para eu ter achado que ela era/é a mulher da minha vida.

Antes mesmo de chegarmos ao café, ela já sabia algumas coisas interessantes da minha vida, dentre as quais que eu estava fazendo aniversário naquele dia.

Então eu vou te dar um presente que você nunca vai esquecer.

E nunca esqueci, ainda mais porque ela me fisgou no meu ponto mais fraco: a comida (eu digo e sempre repito isso: o meu pecado preferido é a gula). Me deu o meu primeiro pote de Häagen Dazs. Chocolate suíço com almendras e pedaços inteiros de trufa… Manjar dos deuses. Eu, naquele momento, senti-me com um pé no paraíso.

Mas o presente só foi dado depois.

Ainda no café, ambiente bem reservado, sentamos num canto, distante de todos. Ao contrário do que sempre faço, sentei do seu lado. Na primeira vez, sempre sento de frente por inúmeros motivos particulares. Sentar do lado, para mim, demanda uma confiança, coisa que só se adquire depois de ter havido uma boa conversa. Com ela, porém, eu já tinha certeza.

Se a conversa, na ida ao café, já tinha fluído bem, sentados então foi muito melhor. Me contou toda a sua vida. De pais cubanos, nasceu em Havana, de onde fugiram quando ela era ainda nova por seus pais serem anticastristas. Pegaram dois caiaques abertos, um para a família e outro para os poucos pertences que levaram, e rumaram para os Estados Unidos. Desembarcaram na Flórida e acabaram se instalando em Miami, onde, por sinal, ela está neste exato momento.

Cresceu lá e, aos 16 ou 17, foi morar em Nova York por estudo. Entrou no conservatório de música da cidade (cujo nome não lembro mais). Com alguns colegas, montou uma banda, que aos poucos foi fazendo sucesso. Fizeram alguns shows por Nova York e cidades importantes da região até assinarem contrato com uma gravadora holandesa (eis aí que a Holanda começa a se explicar). Foram para a Europa, fizeram alguns shows por lá e, para gravarem o CD, acabaram se mudando para Amsterdam. Lis morou lá por mais de dois anos.

Gravaram CD, continuaram a fazer sucesso e, por motivo de desacordo entre os integrantes da banda, ela saiu. Foi morar em Paris, aonde foi tentar a vida como cantora solo. Foi então que, por conta de um encontro dos amigos das antigas, resolveu visitá-los em Amstelveen. No dia 9 de setembro de 2004, quando eu completava 23 anos, ela decidiu passar o dia sozinha na praia para pensar. Muitas coisas estavam acontecendo na sua vida, coisas as quais vão acabar influenciando, mais além, na minha história com ela.

Os dois, pois, tínhamos ido à Zandevoort aan Zee para pensar. Ela por esses motivos todos; eu porque estava completamente 23 anos, estava morando fora do Brasil pela primeira vez e estava decidindo, como faço quase todo dia, o que fazer da minha vida.

Ainda no café, o tempo passou com um piscar de olhos. De repente, já eram 20h (não nos esqueçamos que na Europa, no verão, o dia escurece às 22h).

Vamos pagar e aproveitar que ainda é dia para dar uma volta?

Claro.

Ela pegou na minha mão e me levou para fora do café. Achei que fôssemos nos beijar, mas era nítido que ela ainda estava receosa. Talvez estivesse com medo, talvez estivesse machucada por alguma história anterior. Procurei não forçar.

Ela me levou pelas ruas de Amsterdam, mostrando-me os seus lugares favoritos, contando-me histórias. Nossa conversa parecia nunca ter fim, o que, para mim, era perfeito. Ainda hoje, a menina não ser boa de papo é quesito excludente na hora de eu querer algo mais.

Quando passamos em frente a um supermercado, ela me puxou pela mão e entramos.

É aqui que vou comprar aquele presente que você nunca vai esquecer.

Häagen Dazs. Sem mais comentários.

Nos sentamos na escadaria da praça em frente e, com duas colherinhas de plástico presenteadas pela caixa do mercado, devoramos o pote todo. Preciso dizer que o Häagen Dazs acabou sendo vencido pelo Persicco, da Argentina, mas isso não fez com que aquele primeiro pote, aos 23 anos, perdesse todo o simbolismo que tem para mim. Aliás, muito pelo contrário.

Nossas mãos se roçaram inúmeras vezes, nossos olhares se entrecruzaram e se congelaram um no outro diversas vezes, mas ainda assim senti que ela estava com medo. Continuei procurando não forçar. Por outro lado, perdi a conta do número de vezes que ela passou a mão no meu rosto como gesto de carinho.

Por volta das 23h, justamente quando estávamos diante da catedral de Amsterdam, com os sinos dando as onze badaladas, soubemos que algo tinha que acontecer. Fez-se, pela primeira vez desde que trocamos as primeiras palavras, um silêncio entre nós. Nos olhamos fundo, nos aproximamos e evitamos ter que decidir.

Vem comigo até a estação comprar a minha passagem?

Claro, com certeza.

Cada minuto a mais com ela era, para mim, um prazer.

Ainda tinha muitos lugares no trem. Ela comprou a passagem dela, pagou e, me puxando para o lado, perguntou:

Por que você não vem comigo para Amstelveen? Você podia ficar na casa dos meus amigos sem nenhum problema…

Quê? Quê? Quê? Eu não conseguia acreditar no que tinha ouvido. No entanto, ao mesmo tempo, um turbilhão de pensamentos, que vinham elencando um empecilho atrás do outro, começou a passar pela minha cabeça. Dinheiro: tinha dois euros; ia ter que pedir emprestado a ela para a passagem. Roupa: a do corpo, que estava suja. Roupa: minhas coisas tinham ficado escondidas no Vondelpark, no meio de uns arbustos, onde tinha dormido na noite anterior por não ter/querer economizar dinheiro. Passaporte: no armário do hostel onde dormiria essa noite, já que tinha feito reserva no dia anterior. Amstelveen: onde exatamente fica isso? Amigos: quem eram? Meu amigo: como ia avisá-lo? Será que não ficaria preocupado? Titubeei mesmo.

Por um lado, minha vontade de ir era muito, mas muito grande…

Por outro lado, eu só conseguia ver empecilhos para ir.

Titubeei. Titubeei… E ela notou que eu titubeei.

Ai, não sei. Estou sem dinheiro, todas as minhas coisas estão aqui, o meu amigo vai ficar que nem um louco atrás de mim…

Olha, não tem importância. Se você acha que hoje fica ruim, você pode ir amanhã. Vou te dar o meu número de celular e você me liga.

Sério?

Claro.

Então ela me deu os telefones dela e eu decidi melhor ir no dia seguinte.

Minha felicidade foi sem fim. Mal sabia eu que ter titubeado e não ter ido foi a segunda pior besteira amorosa que eu fiz em toda a minha vida, uma das quais mais me arrependo.

No entanto, do futuro eu não sabia nada de fato. Para mim, iríamos nos ver no dia seguinte e, quem sabe, aquela nossa paixão em espera iria efervescer finalmente.

Nos abraçamos forte, nos afagamos, mas não nos beijamos. Não ainda. O seu olhar, durante a despedida, só certificou mais ainda a certeza de que era ela. Por mais que não tivéssemos nos beijado (eu sentia que ela queria, mas não queria), ficamos roçando as nossas mãos uma na outra até ela subir no trem.

continua…

 

Trem e outros amores II 8 Julho 2008

Arquivado em: Amsterdam, Causo — Maikon Augusto Delgado @ 13:03

[...]

Excuse me. Sorry if  I’m bothering you…

O meu inglês era horrível.

I don’t know. I saw you in the train and I really need talk to you.

Hi!

Hi!

I… just don’t know what to say. I need say I wanted talk to you.

Sorry, I didn’t ask if you speak English. Do you speak English? Are you understanding me?

I do speak.

Fuck, because I don’t. But I want talk to you so much. Neither Dutch I speak.

Me neither.

Really? You are not from here?

Nop. I’m Cuban.

Wow. So you speak Spanish.

Yep.

Fuck, I don’t speak Spanish very well. Mas quiero mucho hablar contigo. Hablo serio.

Nesse momento, quando notou que eu estava fazendo todo o esforço do mundo para falar com ela, abriu um sorriso para mim.

¿Y qué hablas tú?

Hablo portugués.

¿Eres de Portugal?

No, brasileño.

Qué bueno, tío. ¿Y qué haces en Holanda? ¿Estás de vacaciones en Europa?

¡Qué no! Quiero decir: sí, estoy de vacaciones, pero moro en Francia.

O meu espanhol, nessa época, era deplorável e macarrônico.

¿Enserio?

Yo también.

¿De verdad? Así que tú hablas francés…

Mais oui, monsieur.

Super, quoi. Voilà une façon de te parler comme il faut.

Daí em diante, já aliviado, senti que as minhas chances com a mulher da minha vida não eram mais nulas. Havia esperança no fim do túnel.

Nossa, que alívio poder falar com você direito.

Ela riu. Sorriu.

Então, estava te dizendo que queria muito poder conversar com você. Vim te olhando, no trem, desde Zandvoort aan Zee. Não consegui não…

Eu também.

… Sério?

Claro.

Você tem um olhar que…

… que me deixou indefesa e ao mesmo tempo fascinada.

Impossível não ficar encabulado. Era o amor da minha vida me dizendo isso.

Sei que é meio estranho o que vou dizer, tendo em vista que você não me conhece, nunca me viu em outro lugar que naquele trem, mas mesmo assim eu queria muito conversar mais com você, queria muito te conhecer.

Vamos tomar um café então!

Pour de vrai?

Tout à fait! Pourquoi pas? Só preciso saber que horas são.

Hum… são 15h20.

Hum… porque o meu trem saí às 15h30.

Hum…

Minha decepção deve ter sido nítida.

Mas a gente podia ir ali no guichê ver os outros horários de trens para Amstelveen.

Sorri. Ela foi, perguntou e descobriu que havia trens até às 23h. Perfeito.

Então vamos tomar esse tal café.

continua…

 

Trem e outros amores I 2 Julho 2008

Arquivado em: Amsterdam, Causo — Maikon Augusto Delgado @ 23:32

Antes de mais nada, é preciso dizer que ela é o amor da minha vida.

A primeira vez que a vi foi de relance entrando num trem. Estávamos em Zandvoort aan Zee. Eu vinha da praia, todo sujo de areia, onde tinha dormido boa parte do dia. Era meu aniversário.

Ela, solitária, caminhava de jeans, botas altas de camurça marrom e óculos escuros em direção à plataforma. Enquanto eu entrava no vagão, virei a cabeça para me despedir daquela praia aonde muito provavelmente nunca mais voltaria. Embora “solitário”, tinha sido o meu melhor aniversário.

Percebi-a de canto de olho entrando pela porta à minha direita. Bonita, charmosa, maravilhosa, pensei.

Logo à minha frente havia um lugar vago. Sentei. No outro canto do vagão estava ela sentada, de pernas cruzadas, olhando para mim. Olhar dentro de olhar. Olho com olho. Mais nada.

Num primeiro momento não pude acreditar que era comigo. Olhei ao redor, à procura de algum outro homem, e nada. Aquele mulherão estava olhando para mim? Podia ser? Meio encabulado, desviei o olhar. A tentação e curiosidade, no entanto, eram mais fortes. Quando virei novamente o rosto, estava ela lá me cuidando. Sem preconceito, sem nada. Só me observando. A essa altura eu já estava fascinado e apaixonado. Coup de foudre absoluto. Amor à primeira vista. Em uma fração de segundos me imaginei com ela, viajando mundo afora, vivendo juntos.

Nosso trem partiu de Zandvoort aan Zee rumo a Haarlem. Durante o trajeto, de não mais de 40 minutos, não despegamos o olhar um do outro. E foi nessa quase uma hora que soube que ela era a mulher da minha vida. Se ela também tinha se dado conta disso, não sei. O fato é que eu tinha certeza.

Chegando à estação de Haarlem, desci do trem para pegar outro. Era a minha conexão para Amsterdam. Os poucos passos que tive que dar foram terríveis. Na minha cabeça, eu não conseguia pensar em outra coisa que na perspectiva de não a ver nunca mais. Mas o mundo, naquele dia, estava do meu lado. Ela também ia para Amsterdam. E no mesmo trem, mesmo vagão e mesma disposição de lugares. Nossos olhares, como antes, encontraram-se e não se desgrudaram mais.

Durante o percurso para a capital holandesa, saboreei-a ao máximo. Morena, cabelos lisos e brilhantes, olhos verdes-claros, boca carnuda, sorriso perfeito, cerca de 1,70m, lindos seios, lindas pernas, coxas fabulosas e um charme simplesmente irresistível. Além do jeans e das botas, vestia uma blusa vermelha. Suas mãos, algo em que sempre presto atenção, eram fortes e de dedos longos. Unhas bem desenhadas, sem cútis. Na mão direita, no dedo anular, um anel prateado e grande.

Simplesmente perfeita.

O amor faz dessas coisas.

Antes mesmo de chegar à estação de Amsterdam, meu coração já estava batendo a mil por hora, desesperado por não saber se a veria novamente. Eu precisava muito falar com ela. Custasse o que custasse. Minha mão suava. Eu gaguejava até em meus pensamentos.

Quando o trem começou a frear, entrei em estado de desespero total. Uma dor enorme no peito. Eu não podia perder aquela chance. Não podia! Ela era a mulher da minha vida. É.

Uma vez parado o trem, saíram todos. Menos eu. Fiquei vendo ela se distanciar. Milhões de coisas passaram pela minha cabeça. Devia falar com ela ou não? Nem holandês eu sabia. O que diria? Pouco me importava. O fato é que eu precisava falar com ela. Tomei coragem e fui atrás. Ao sair do vagão, já quase a tinha perdido de vista. Sentindo-me um bobo, corri.

Sujo, suado, descabelado e ofegante, toquei no seu ombro esquerdo. Ela se virou sem medo. Aqueles seus olhos verdes me despiram e me paralisaram…

continua…