Bons Ares

Tem dia que só amanhã!

Paquita em Punta del Este 24 Agosto 2009

Arquivado em: Causo, Lugar, Pensação, Uruguai — Maikon Augusto Delgado @ 12:38
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Camilo (também conhecido como Paquita) está praticamente morando no Uruguai nos últimos tempos, por conta de seu trabalho. Na semana passada mandou um mail para os amigos contando suas desventuras e dando suas impressões de viajante. Com sua autorização, recrio seu post na íntegra (sem nem correções de português, porque faço questão que ele seja sempre visto como o chatonildo que escreve com minúsculas).

NOTA: ESSE MAIL FOI ESBOÇADO HÁ UMA SEMANA E PEDRADINHA.
POR FALTA DE TEMPO E EXCESSO DE PREGUIÇA SÓ FOI TERMINADO AGORA.
PRA QUEM CHEGAR ATÉ O FINAL, ANTECIPO DIZENDO QUE CHRIS NAMÚS REAPARECEU, DISSE QUE TEVE UNA MALA NOCHE E QUE VAI VOLTAR! PREPAREM-SE

Queridos botijas

para aqueles que não sabem, estou no Uruguay há umas tres semanas
Fazem, alías, uns dois meses que passo mais tempo nas terras charruas do que na das araucarias tupiniquins. E, suspeito, tenho ainda outros dois pela frente. Enfim, bastante tempo para aqueles que tiverem previsto vir para o país aproveitarem para fazer uma visita.

Passo a maior parte dos dias no departamento de Maldonado que, pese a ser desconhecido pela maioria, abriga a famosa Punta de Este e seus menos famosos, porém mais bonitos, balneários – como Punta Ballena, Punta Colorada y Playa Verde, entre outras.

A Paquita está virando uruguaia

A Paquita está virando uruguaia

Punta del Este no inverno é beeeemm tranquila. Totalmente diferente do verão. A excessao de um par de comercios na internacional calle Gorlero, nada mais esta aberto. Da para dormir uma siesta no meio da rua ao meio dia e as casas ja vão criando algumas teias de aranha de tão fechadas – o que não deixa de ser uma boa noticia na hora de colocar um conteiner de lixo na frente de uma residencia qualquer (parte das minhas atividades). Se Punta que é Punta fica desse jeito, os balnearios da regiao parecem cidades fantasmas. Nem cachorro abandonado circula por ali.

Perto da costa tem uma cidade chamada Maldonado (capital do departamento e não-litorânea). Lá tem vida. Pessoal no ponto de onibus indo pro trabalho de manha, quatro e as vezes cinco carros em fila num sinal fechado, crianças e sentadas nas praças com seus laptops verdes (há um projeto de inclusão digital nas escolas fantastico) e, eventualmente, até umas filas nos Abitabs (especie de pague-tudo).
Mesmo assim, considernado as pujantes temporadas de cada ano, a impressão é que o pessoal tá meio de férias. E mesmo em Maldonado é comum ver hoteis, restaurantes, lojas e (mais) casas fechadas. Em sintese, a região vive para e graças ao verão – apesar de ser uma das regiões que mais atraem uruguayos para viver.

O hotel que fico é um bom exemplo. Na verdade ele deveria estar fechado. Mas como nós (o grupo de trabalho) estamos e estaremos durante quase toda a não-temporada, fez-se um acordo e eles resolveram abrir. É um hotelzinho familia simpatico, com a vantagem de estar a uns 50m do mar e que, pelo baixo movimento, temos quartos fixos (ou seja, mesmo quando estamos uns dias fora, dá pra deixar as coisas numa boa). De vez em quando algum outro hospede aparece, mas é raro.

Geralmente somos dez os habitantes: Marcelo, Raul, eventualmente algum técnico chileno e frequentemente este que vos escreve (hóspedes), e seguinte time local (staff permanente): a gallega (dona), seus dois filhos, um cubano sobrinho dela (que ta tentando visto pros EUA, dá uma mão com a manutenção dos canos e é particularmente chato), uma ajudante da limpeza (que vai nas segundas, quartas e sextas até onde entendi e, mesmo quando eu deixo o banheiro meio molhado, sempre da bom dia) e Gladys, uma Sra de uns 60 encarregada das ajudantes de limpeza no verão (quando há mais do que uma) e que adora esportes, especialmente futebol – ela sabia até que o glorioso Milan Brasileiro (Atlético/PR) jogou quatro vezes contra o Nacional, ganhando tres.

A conversa com eles e a propria vida no hotel ajudam a confirmar essa impressão de que o movimento fora de temporada é beeeem pouco. Um dos filhos da gallega disse a seguinte frase que resume bem a situação e a vida da galera: “acá, en invierno, no tenemos nada que hacer. Entonces la gente hace pavadas”. Depois seguiu um ejemplo ilustrativo do amigo do frentista que arrebentou a cebeça tentando andar de motoca nova em cima de um murinho.

Os jornais televisivos ajudam a aumentar a sencação de tranquilidade e monotonia. As noticias referentes ao país se dividem basicamente em dois blocos: politico e esportivo. O primeiro vive dias um pouco mais agitados desde que cheguei, antes pelas previas partidarias para eleição e agora pelos comícios dos candidatos favoritos: Pepe Mujica, do governista e popular Frente Amplio (conhecido como FÁ!) e Antonio LaCalle, ex-presidente privatista do partido Blanco.

Já nos esportes…. nos esportes a coisa é brava.
Nos ultimos cinco dias as noticias, imagens, reporgagens e debates giram em torno de dois fatos. Primeiro da pancadaria que aconteceu no amistoso Peñarol x Newell´sOld Boys, da Argentina (tambem conhecido como Ñuls). O embate dos times da capital e de Rosario transcorria tranquilamente no estadio de Maldonado! (vejam voces) quando a muchacha se esquentou e tudo virou piñas (pancadaria). Agora, passado quase uma semana, com o Ñuls de volta na argentina, o Peñarol treinando em Montevideo e o jogador que levou a primeira bofetada sem nenhuma marca, ainda se fala nisso….

A outra metade é dedicada a Chris Namus. Todo mundo quer saber “qué le pasó a Chris Namús”. A historia resumida e por itens é a seguinte: a) a muchacha é uma popular boxeadora uruguaya, campeã mundial superligero juvenil e conhecida pelo simpatico apelido de bombom asesino (hehe); b) foi disputar a final do campeonato mundial super ligero interino em Montevideo e convocou o pais inteiro para ver.
A luta aconteceu e, depois disso, o bombom asesino sumiu do mapa. Desapareceu.
Já entrevistaram amigos, amigas, treinador, representante, namorado, pais, comentaristas, espectadores, …. Todo mundo tem alguma coisa a dizer sobre a fatidica luta. A Gladys, por exemplo, acha que a muchacha se lleno la camisa de viento.
Enfim, todo mundo opina algo. Menos, claro, a propria Chris Namus.
E todo mundo quer saber qué (diabos) le pasó a Chris Namús

Vendo de fora e sem muitos sentimentos patrioticos de por medio, não é muito dificil entender a situação. É mais ou menos assim: c) o país inteiro atendeu a convocatoria, ligou as televisoes e lotou o estadio; d) a muchacha entrou no ring saltitante e feliz da vida, dando sorrisinhos e mandando bjs p galera. e) a adversaria colombiana não tava num dia muito legal e, sem muita consideração por ela, pelo publico presente e por todos os uruguayos que tomando mate viam o duelo pela telinha, desceu o braço e em menos de 2min acabou a brincadeira.
Resultado: bombom asesino levou um cacete sensacional e saiu pela porta dos fundos meio bamba direto p hospital fazer uns exames. Felizmente o resultado foi positivo e ela poderá voltar a lutar sem problemas (ufa!). Só que, enquanto isso, ta sumidaça e os uruguayos tão loucos da vida com essa bomba (ou bombom) mediática.
(pra quem quiser ver os socos da morena e o tombo da branquela:

Se por acaso não conseguir visualizar o vídeo aqui pelo blog, clique AQUI

Enfim… esseá um resumo dos dias em Punta del Este e região, trabalho aparte – que, acreditem, de monotonia e tranquilidade nao tem nada (serve pra contrabalançar).

Pra terminar, compartilho com voces alguns dichos populares uruguayos que escuto diariamente de um compañero de laburo e resolvi começar a anotar. Muito boa gente que sou, pensando em evitar que voces os mal usem e se coloquem em uma situação delicada (como já fiz), dividi eles em duas “categorias”

1. politicamente corretos

se peló como un ajo (foi rápido)
sucio como toalla de cantina (lugar sujo)
caen pinguinos de punta (chove muito)
a papa mono con banana de goma…. (algo como não tente me enganar ou não diga coisas obvias)
más desubicado que Adán en dia de la madre (fulano perdido)
el que nace para pito nunca llega a corneta (sobre o conflito entre as capacidades e aspirações de um cidadão)

2. não tão politicamente corretos
le arde la cara de fea (sabe aquela amiga simpatica?)
dá mas vueltas que pedo de caracol (neste caso, pedo = peido)
se va para arriba como pedo de buzo (o pedo continua com o mesmo significado, buzo = mergulhador)
se te cae el culo de bueno (referente a comida, seria algo como: cai a bunda de tão bom – ainda não imagino como isso pode acontecer)
más blanca que teta de monja (autoexplicativo)
más caliente que tu novia conmigo (usado para dizer que a comida esta quente)
caen soretes de punta (relativo a chuva, mas com outro objeto ilustrativo – cuidado com esse, não confundir com o anterior)

Praqueles que pensam aplicar in situ os dichos e o fizerem nos proximos meses, fica meu convite para uma tipica uruguayan food como a da foto!

É por isso que a Paquita está engordando a olhos vistos...

É por isso que a Paquita está engordando a olhos vistos...

Bjs

Camilo

ps. quem quiser ter uma opinião sobre Punta e o Uruguay n´outra época do ano, vá em http://bonsares.wordpress.com/bsasuytrip/

 

A história do trovador húngaro Eruk Zjarm Fanalau 27 Julho 2009

Arquivado em: Causo, Pensação, Texto, Uruguai — Maikon Augusto Delgado @ 01:37
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Desde meus 13, 14 anos eu escrevo. No começo, ousava fazer umas rimas péssimas que, em conjunto, chamava poesia. Algum tempo depois, dando-me conta de que eu era uma negação completa como poeta (não tenho tino nem alma para isso), comecei a me dedicar mais à prosa. Mantinha uns diários (devo ter mais de 15 cadernos guardados, todos escritos à mão), onde tomava gosto pela escrita. Diário, porém, nunca foi muito um formato do meu agrado. Além de me ver como tema recorrente, o que é um enfado, ainda acabava me repetindo nas análises (chega uma hora em que você já se disse tudo).

Parti, então, para a ficção. Não sei se posso dizer que me encontrei nela, mas foi o formato em que fui me adequando mais. Com uns 17 anos, escrevi uma coletânea de minicontos ultrarrevolucionários juvenil (no sentido de romper com a gramática), que intitulei de Pequeno Livro do Mundo. Ficou banhado daquela juventude reacionária.

Dei início então a uma novela intimista intitulada Confissões de Nemo. Dei o nome de Nemo antes mesmo de sair o filme da Disney. Talvez hoje em dia eu devesse mudar o título para Confissões de um peixe.

Terminado, comecei uma história infantil. O projeto inicial era para ser um livrinho infantil curto, mas acabou virando um bíblia enorme. Chama-se O Monstro Ué.

Inspirado em uma tema que sempre me interessou (o suicídio), teci uma outra novela: O suicídio de Hector.

Novela é um formato que me agrada pelo seu tamanho. Acabei escrevendo uma coletânea delas, todas em volta do mesmo tema (como viver sua vida sem desperdiçá-la). Fechei o conjunto com umas quatro ou cinco novelas. Dei-lhe o nome de Vidas Perdidas.

Na sequência, escrevi várias coisas, dentre as quais ensaios, uma paródia de Cartas a um jovem poeta, do Rilke, roteiros de curtas, um livro-correspondência, etc.

Quando ainda estava na Argentina, vim para o Brasil de férias. Revendo os amigos, conversei um com o Cabra, que é músico, compositor, escritor e poeta. Mas também sonha. Sonhos sempre estranhos e meio inexplicáveis. Um deles o fez acordar de madrugada, levantar e escrever de supetão uma poesia que lhe veio enquanto dormia. Era uma poesia bucólica em estilo de cantiga medieval. Nessa nossa conversa, ele me contou o sonho, me mostrou o texto e me contou a história de um personagem que estava criando: Eruk Zjarm Fanalau. Minha cabeça já começou a trabalhar naquela hora. Dias depois, antes de voltar para Buenos Aires, disse-lhe que o personagem tinha me fascinado, que eu estava “pirando” nele e lhe pedi autorização para criar algo em cima. Ele me disse sim.

Um ano depois terminei A história do trovador húngaro Eruk Zjarm Fanalau. Estruturei o texto de uma maneira diferente, como se eu fosse o tradutor de uma obra já existente.

Sendo assim, se tiverem paciência e tempo, convido-os a conhecer um texto que já leva mais de ano na minha gaveta, perdido em meio aos outros. Para baixá-lo, basta clicar no link abaixo:


A história do trovador húngaro Eruk Zjarm Fanalau

 

UYtrip – dia 15 10 Fevereiro 2009

Arquivado em: Uruguai — Maikon Augusto Delgado @ 15:30

Chegava, pois, ao fim a UYtrip. Só nos restava conhecer melhor a Punta del Diablo, passar pelo Fuerte de Santa Tereza e de lá tocar 900km até Curitiba.

No manhã do décimo quinto dia de viagem, depois de uma péssima noite dormida na barraca, de roupa, com saco de dormir e tendo como colchão o cobertor que levei por precaução, acordamos e fomos atrás de uma padaria tomar café-da-manhã (saco vazio não para em pé).

Centro de Punta del Diablo

Centro de Punta del Diablo

Com um saquinho que madalenas e um iogurte cada, fomos nos sentar na Punta del Diablo. O clima já era de despedida. Aquela seria a última praia uruguaia que eu veria em muito tempo (por algum motivo, demoro muito para voltar aos lugares que visito; a Buenos Aires, por exemplo, não volto desde que vim para o Brasil; à França, uns 5 anos).

Punta de la Punta del Diablo

Punta de la Punta del Diablo

Até mais ver, Punta!

Até mais ver, Punta!

Comemos, batemos umas fotos e nos dirigimos para o Fuerte. Apesar de terem falado muito bem, não achei nada demais. Aliás, a reserva na qual se situa o forte é mais interessante. De qualquer forma, estávamos já no espírito de volta a Curitiba e fim de férias, infelizmente.

Fuerte

Fuerte

Prende essa pacotilla

Prende essa pacotilla

Visita feita, retornamos à UY e mandamos brasa. Passamos por uma parte em que a estrada se alarga, tornando-se também pista de pouso. Dizem os uruguaios que é costume deles irem até lá estreiar seus carros novos, descendo a lenha na pista, que tem quase 3km. O Gonza, sempre heróico, chegou a 150km/h. E o motorista responsável por essa imprudência não fui eu.

Estrada-pista de pouso

Estrada-pista de pouso

De todas, a placa que mais tem

De todas, a placa que mais tem

Um tanto mais para frente chegamos à divisa. Como não tínhamos mais reais, passamos em uma casa de câmbio para trocar tudo o que tinha sobrado pela moeda tupiniquim e seguimos para a aduana de Chuy/Chuí.

Se tinha sido rápida a nossa entrada, a volta ao Brasil foi mais ainda. Carimbamos os passaportes em menos de 2 minutos (sem brincadeira) e nem tivemos o carro revistado. Quando o fiscal da fronteira viu o estado do Gonza de sujeira e desorganização, deve ter pensado: “Nem fodendo que eu vou inspecionar esse carro!”. Apesar de não estarmos trazendo nenhuma muamba nem nada, agradecemos. Seria um saco ter que “rearrumar” o porta-malas.

Já no Chuí, batemos uma foto para comprovar que já estivemos no ponto sul extremo do Brasil (falta agora o Oiapoque) e tocamos direto pela 471 rumo a Porto Alegre. Paramos, porém, para almoçar.

Chui, extremo sul do Brasa

Chuí, extremo sul do Brasa

Chegamos em Porto Alegre cedo, às 17h. Já tínhamos decidido que, dependendo do horário, poderíamos continuar dirigindo até Lages. E foi o que fizemos. Passamos reto pela capital gaúcha e escolhemos a BR116 para voltar. Meu pai tinha me mandado uma mensagem dizendo que a BR101 estava um caos, com trechos interrompidos, barreiras caídas, muitos acidentes. Escolhemos, pois, como já disse, a BR116 para voltar. E foi a melhor coisa que fizemos. Evitamos todos os acidentes, engarrafamentos e quilombos de puta madre que estava havendo na briói. Fora que, como eu já tinha podido comprovar, a estrada é mais bem sinalizada e muito mais conservada.

S'embora que ainda tem chão pela frente!

S'embora que ainda tem chão pela frente!

Revezando na boleia, chegamos até quase Vacaria, onde dormimos dentro do Gonza, estacionado em um posto de caminhões. De todas as opções de pouso, só nos faltava o carro. E eis que voltamos para o Brasil com todos os pré-requisitos para uma viagem presepeira cumpridos!

Entrando a noite, já tinhamos metade da viagem feita

Entrando a noite, já tínhamos metade da viagem feita

Encostamos o carro à meia-noite e dormimos até umas 3h30, 4h. Não consegui mais por conta do desconforto. Tendo isso em vista, lavei o rosto e fui dirigindo até umas 7h, quando bateu o cansaço e passei o volante para o Camilo, que até então vinha babando no banco do passageiro.

Chegamos em Curitiba às 10h cravado.

Já em Curita, depois de 1000km rodados em um dia

Já em Curita, depois de 1000km rodados em um dia

O Uruguai ficou, pois, para trás, mas não a vontade de voltar!

E dá-lhe doce de leite para todos!

 

Fin de la saga uruguaya. Espero que hayan disfrutado. Saludos, compas.

 


 

 

 

UYtrip – dia 10 27 Janeiro 2009

Arquivado em: Uruguai — Maikon Augusto Delgado @ 16:45

- Porra, mermão, duca essa balada! – gritou um carioca, já bastante bêbado e com aquele sotaque inconfundível.

Tão ébrio estava que dava para sentir a cara inchada de cachaça só de ouvir sua voz. 

- Porra, porra! – respondeu, aos gritos, um outro.

- Caraca, véio, tô breacaço. Vou deitar e capotar. – confessou o mais bêbado deles. 

E assim foi. E no beliche em cima do meu. Detalhe: o caboclo só teve o trabalho de desabotoar o jeans e adormeceu assim mesmo. Com tênis e tudo.

Tivessem dormido no banco da praça como esses. Teriam dado menos trabalho!

Tivessem dormido no banco da praça, como esses, teriam dado menos trabalho!

Enquanto os três cariocas estavam lá eufóricos e esfuziantes com os acontecimentos da balada, acordando todos com sua arruaça, o 4° carioca estava só de conversê com uma das cariocas que os acompanharam. Conversê, digamos, é jeito de falar. Ele estava mesmo é de groselhagem, de dolangagem, de xavecagem.

"Xavecar como um animal!"

"Xavecar como um animal!"

- Porra, vai, vamos lá. – insistiu o carioca.

- Não quero, porra. Não quero. – negou, enfática ou não, a carioca.

- Vamos lá. Rapidinho.

- Não quero, meu. Não quero te dar no banheiro.

- Porra, rapidinho. Vamos lá.

- Não, caraca. Não quero te dar. – respondeu ela com nítido tom de cu doce (até eu saquei que ela cogitava a hipótese para outro momento).

- Porra, como é que você não quer? Eu te deixei toda molhadinha só com o meu dedinho… – anunciou, em alto e bom tom, nosso carioca bêbado.

Te deixo toda molhadinha só com o meu dedinho!

Te deixo toda molhadinha só com o meu dedinho!

- Deixou, mas não quero. Não hoje. 

- Como assim?

- Ora, hoje eu não quero.

- Então quer dizer que tem dia que você sai de casa querendo dar e outros em que não?

- É.

- E hoje você saiu não querendo dar.

- Ah, moleque! Entendeu. 

- E, me diz uma coisa, então me faz só um boquetinho…

- Não, mermão. Não quero. Não hoje.

Em meio a essa conversa tão sublime, eu me vi quase rindo da cara dos dois. Como não? É quase surreal acordar com tão nobres intenções sendo anunciadas reciprocamente. Não pude não lembrar de um episódio que me pasó em Clermont-Ferrand (O episódio de Clermont), o qual oportunamente publicarei aqui. Ri sozinho. Por sorte não o fiz alto, para não atrapalhar a paquera alheia.

E foram dormir os dois, ele sem boquetinho e ela toda molhadinha só com o dedinho. Mas enquanto o dia deles estava terminando, o meu e o do Camilo estava só começando. Arrumamos nossa mochila, não sem muito barulho (Aqui se faz, aqui se paga!), e descemos para tomar café. Eu, dando uma de sem-noção, ainda “tropecei” com um locker de ferro antes de sair, fazendo muito, mas muito barulho. Os cariocas todas acabaram acordando, olharam para mim com sono e voltaram a dormir. Missão cumprida: infernizei-os um pouco!

Missão cumprida!

Missão cumprida!

Tudo dentro do Gonza, partimos rumo a Piriápolis.

Rumo a Piria...

Rumo a Piria...

E, em termos de hospedagem, saímos do inferno e chegamos ao paraíso. À exceção da badalação, o hostel de Piriápolis, o segundo maior do mundo (atrás só do de São Paulo), tinha tudo o que não encontramos em Punta: extrema limpeza, quartos habitáveis e arrumados com só 4 camas, café-da-manhã melhor…

Ainda exaustos da noite anterior e trazendo conosco o cansaço de dias mal-dormidos, despencamos, cada um em sua cama, e dormimos a tarde inteira. Ao acordar, demos uma volta pela orla da cidade, comemos, compramos livros (foi só em Piriápolis que consegui achar um exemplar de Memorias del calabozo, de Huidobro & Rosencof) e passeamos. 

Orla de Piriápolis

Orla de Piriápolis

Praias de Piria

Praias de Piria

À noite, ainda conhecemos dois ciclistas brasileiros de São Paulo que estavam percorrendo toda a costa uruguaia de bicicleta. Entusiasmados com uma platéia superatenta, contaram-nos suas peripécias a duas rodas. 

Encararia 1000km numa dessas?

Encararia 1000km numa dessas?

Fui dormir com uma puta vontade de me tornar um ciclista neste ano e empreender alguma viagem curta de bike aqui pelo Paraná. E sabem que o vadio do Camilo até se animou?!

 

 

 

UYtrip – dia 9 26 Janeiro 2009

Arquivado em: Uruguai — Maikon Augusto Delgado @ 22:47

Por sorte, graças aos tantos copos de água que tomei antes de dormir, acordei sem ressaca. Não sei se posso dizer o mesmo do meu companheiro de viagens. 

Mereço uma coisa dessa?

Mereço uma coisa dessa?

Tomamos café-da-manhã, demos uma volta na praia e nos despedimos do casal uruguaio que há dias vinha nos hospedando como reis. Além do asado, ainda tinham nos servido bons vinhos, cervejas, arepasdulce de leche e outros quitutes mais.

Despedindo-se de Santa Lucia

Despedindo-se de Santa Lucía

Seguindo a sabedoria daquele ditado italiano (Visita é como peixe: depois de três dias começa a feder!), pusemos todas as nossas coisas no porta-malas do Gonza e fomos para Punta del Este sem quase nenhuma parada, à exceção do almoço. Pegamos a UY e deixamos o Gonza nos levar susse like musse. 

Um pouco antes da curva de Maldonado, de onde se vê pela primeira vez Punta, deixamos de ver um dos lugares mais bonitos do Uruguai: Punta Ballenas. Por sorte, dias depois, acabamos indo lá sem querer.

Vista de Punta del Este

Vista de Punta del Este

Chegando em Maldonado, diminuímos, pois, o ritmo e entramos em Punta com todo o estilo que o Gonza nos permitia. Em Punta, para aqueles que nunca foram, um carro do quilate do Gonza é quase uma afronta à frota nativa. Aliás, chegar de A4 lá já seria um improbério automobilístico. Para uma cidade cujos táxis são 90% Mercedes e 10% Volvos, nós estávamos vindo praticamente de bicicleta (e não entendam isso mal). Mas como nas coisas mais “antigas” (nada contra você, Gonza!) sempre há aquele ar retrô estiloso, estufamos o peito e rodamos não qual reis, mas qual príncipes. 

Sem rádio, carro sujo e com o Camilo de chapeuzinho de porco, ainda assim tivemos a audácia e pachorra de ir buzinando e saludando os Porsches, BMWs (muito provavelmente carro dos mordomos), X7s e Captivas (dos jardineiros). Somos pobres, mas somos gentis!

Muitos, para não dizer quase todos, simplesmente nos ignoravam.

La mano de Punta

La mano de Punta

Em Punta tínhamos reserva para o hostel 1949. Embora de boa localização, por algum motivo misterioso levamos quase 1h30 para nos situarmos na cidade e finalmente acharmos o hostel. Mesmo com mapas e o GPS mental do Camilo (que, senhores, não serve nem para ir até a padaria), só fomos conseguir descobrir como chegar ao hostel quando paramos na rodoviária e perguntamos pela rua. 

Hostel 1949

Hostel 1949

Fizemos ckeck-in e fomos apresentados ao nosso quarto e às nossas camas. Digo isso porque quero ser otimista. Não sei até que ponto pode-se chamar aquilo de quarto. Nove camas amontoadas umas sobre as outras, com malas por todos os cantos, a tal ponto de não se poder transitar sem pisar na roupa largada de alguém. As malas faziam concorrência à muralha da China. Os roommates, um mais estranho que o outro.

Além de uma alemã enorme estranhíssima, tínhamos em nosso quarto um israelense (os israelenses são muito estranhos) que estava viajando pelo mundo visitando todas as hidrelétricas que podia. Já tinha passado pelo Brasil e conhecido Itaipu. Fora esse mote bastante peculiar de viagem, ainda tinha como tema de conversação o fato de estar morrendo de saudades de Israel. E isso que fazia dois meses só que estava viajando. Por fim, uns tantos cariocas, que serão protagonistas do relato de amanhã.

Se é que é possível dizer isso, nos instalamos, tomamos banho e descemos para interagir com a galera. Engatamos conversa com um grupo de cariocas (o do quarto). Ao mesmo tempo, fui trocando uma idéia com uns uruguaios enquanto todos tomávamos mate. Por fim, um grupo de paulistas entrou na conversa e ficamos lá chilling out com toda essa muvuca. Sim, éramos legião.

Bar do hostel

Bar do hostel

Cerveja vai, cerveja vem, estávamos todos já bastante “alegres” fazendo o esquenta antes de sair. Os cariocas, todos sedentos de balada poptchains, estavam fazendo hora para ir a uma boate cuja entrada era US$50,00 (50 dólares!). Os paulistas e nós decidimos que R$150,00 para entrar num lugar era muito caro e fomos a uma baladinha grátis que havia pelos lados do píer. Quem me conhece sabe que eu nunca pagaria R$150,00 para respirar os ares e ouvir tunts-tunts bate-estaca. Juntaram-se a nós uma outra paulista perdida, um australiano¹ e uma boliviana e fomos todos caminhando (para quê gastar com táxi) rumo ao píer. Tinha também uma curitibana por lá, que disse que ia mas no final nem se dignou a dar explicações. Mas como é curitibana, ninguém se incomodou. A chance de encontrar uma curitibana que não seja metida é ínfima! 

Antes de contar da baladinha, tenho que confessar que para mim a parte mais legal da noite não foi a balada no píer, mas o esquenta no hostel. Conheci mais gente, me diverti mais. Se, ao invés de ter seguido com a turba às 2h, tivesse ficado dormindo, já teria ficado satisfeito. 

El muelle

El muelle

De qualquer forma, fomos. No caminho, já fiquei amigo de um paulista que tinha os mesmos ares velhos que eu (resmungão, reclamando da juventude) e assim fui me sentindo mais em casa. Camilo, naquele estilo pacotillero de sempre dele, estava tocando o terror e dançando ante qualquer cumbia que encontrava pela rua. Chegamos à tal baladinha empolgados, mas logo perdemos o ímpeto ao entrar. Cheiíssimo, bebida cara e péssima música. A galera, em meio à situação periclitante em que se meteu, até pensou em desistir. Mas acabamos entrando em um bar que prometia salsa e de que salsa não teve nada. Não fossem duas bartenders deusas gregas, pelas quais me apaixonei, mais uma vez, à primeira vista (confesso que foi uma das primeiras vezes que me apaixonei por duas ao mesmo tempo!), a noite não teria sido de total inutilidade. Mas como uma era mais gata que a outra, as coisas tomaram outra cor! Meu pai do céu, que aquelas mulheres eram gatas! E a balada, que para mim sempre foi de ficar no balcão conversando, continuou sendo só balcão. E se é no balcão que elas estavam, foi no balcão onde fiquei! Os outros que fiquem por aí dançando e dando rolê.

No entanto, meus ouvidos não são penico! Como as duas barwomen não quiseram fazer um ménage à trois comigo (risos), fui embora porque não agüentava mais ouvir aquele bata-estaca ensurdecedor. Camilo ainda ficou presepando e cantando músicas dos anos 80 com alguns paulistas.

Quando cheguei no meu quarto, só a alemã e o israelense dormindo. E os tantos cariocas, onde estavam? Bom, isso seria uma coisa que eu acabaria descobrindo quatro horas depois…

 

¹ Esse australiano ficou conhecido entre nós como o Fucking no bueno por ter respondido assim à pergunta de se era bom ou não o lugar a que estávamos indo.

Obs.: Foi ao me sentar para escrever o relato do nono dia que me dei conta de que não tinha nenhuma foto de Punta, à exceção da mão. Talvez preguiça minha de tirar fotos, talvez porque não tenha gostado tanto… O fato é o dia 9 ficou órfão de fotos. Reconheço.

 

UYtrip – dia 8 22 Janeiro 2009

Arquivado em: Uruguai — Maikon Augusto Delgado @ 16:38

O sacrifício de ouvir o Camilo cantando durante a viagem foi enorme, mas conseguimos chegar são e salvos a Santa Lucía. O casal montevideano, ainda se negando a tomar mate com leite e coco, nos impôs sua cultura conservadora de tomar só com água e sem açúcar. Fico me perguntando: onde estão os malditos direitos humanos? Onde está a decência humana? Onde está a liberdade de expressão? Fomos tolhidos pela bombilla, senhores.

A vingança, porém, é um prato que se serve frio, e eu particularmente sou bem vingativo. Sendo assim, já que nossos pombinhos uruguaios estão vindo para o Brasil e provavelmente ficarão em casa… Como quem manda lá somos eu e Camilo, nada de mates retrógrados e conservadores. Sim ao mate com leite e coco! Caballiteiros do mundo e futuros residentes do São Francisco, uni-vos contra a massa e a alienação!

De qualquer forma, como éramos visita e estávamos em seu país, nos comportamos. Em outras palavras, enchemos o saco do Mauro para tomar o mate à la Caballito, mas não lhe impusemos nada. Ao contrário do que será aqui no Brasil, estejam certos disso. 

Ficamos até altas horas na sexta conversando e comendo arepas. Mesmo assim, eu, como o bom madrugador que sou, acordei cedo. Também porque não podia dormir por conta do calor e dos mosquitos. Desconfio que minha insônia se deveu um pouco ao peso das arepas na minha modesta barriguinha. Camilo, a meu lado, na outra cama, chegou até a roncar, o salafrário. Quero impeachment do meu compañero de viajes. Quem vota sim?

Com sono ou com sono, acabei levantando, pegando um dos tantos livros que comprei pelas livrarias de Montevideo (adquiri Mankells, Benedettis, Onettis, Trujillos e um Rosencof) e me sentei para ler. Coei um cafezinho e comi as arepas que tinham sobrado da noite anterior. Imaginem o estufado que eu não estava.

Cozinha da casa de Santa Lucia

Cozinha da casa de Santa Lucía

Quase panorâmica da cozinha

Quase panorâmica da cozinha

Mui tranqüilamente, fui então lendo meu livro. À medida que o personagem principal de Os sapatos italianos, de Henning Mankell, ia descobrindo que tinha uma filha de quarenta anos e que sua namorada da juventude estava com câncer, meus queridos companheiros de mate conservador foram acordando. Creio que o Mauro foi o primeiro. Depois Ale, e por fim a pacotilla perezosa.

Café-da-manhã no caramanchão improvisado

Café-da-manhã no caramanchão improvisado

 

Confesso que acabei tomando café outra vez, com eles.

Já embetumados de protetor solar, fomos para a praia. O casal com seus apetrejos, eu e Camilo com nossa querida bola, já intimando o Mauro para aquele baba esperto à beira do mar. 

Vamos resolver essa coisa de 1950 mal resolvida

Vamos tirar a limpo essa coisa de 1950 mal resolvida!

Mal nos instalamos, já nos jogamos na água, que estava bem fria, há de se dizer. Mas como o espírito infantil e a vontade de jacarés era mais forte, não esmorecemos. 

Esmorecer jamais!

Esmorecer jamais!

De volta à terra e sem nenhum afogado pelo caminho, começamos os trabalhos: mano a mano com goleiro na beira do mar, chutes ao gol com rodízio de goleiros frangueiros. A perícia era tanta que mal saía na foto, tamanha nossa agilidade.

... 1

... 1

... 2

... 2

.. 3 (ué, cadê?)

.. 3 (ué, cadê?)

Taffarel!

Sumiu-se?

Mauro e Camicabeção se mostraram grandes cabeceadores.

Dale, cabezón!

Dale, cabezón!

Eu, por nem ser cabeçudo e usar óculos, me ative  tão-somente às caneladas. Ossos do ofício. Ale, evitando humilhar-nos, manteve-se zen e praticou seu taichizinho. Pudera Piper estivesse lá com ela. 

Tai chi

Tai chi

Barrigas roncando e sol queimando, os filhos pródigos à casa retornam. E para almoçar: espaguete ao molho maurês. Especialidade da casa. Nem preciso dizer que comemos até explodir. 

E depois? É claro que foram todos tirar aquela siesta amiga. Eu, mais uma vez não conseguindo conciliar o sono, fiquei lendo meu herói sueco. 

Carátula de Zapatos Italianos

Carátula de Zapatos Italianos

Após o descanso, mais um pouco de praia e mais um pouco de técnica futebolística sendo demonstrada.

"Correi, lançá-la-ei!"

Como diria meu amigo Rafa: "Correi, lançá-la-ei!"

Preparando a bicicleta!

Preparando a bicicleta!

Vai que é tua, Taffarel!

Vai que é tua, Taffarel!

Foi quando, em meio a nossas bicicletas e voleios, uma tragédia aconteceu: nosso querido balón uruguayo viu seu fim prematuro. Pobre coitado!

Fosse Topper...

Fosse Topper...

Como nada se perde, tudo se transforma, reaproveitamos a bola e nos fabricamos um chapéu. Dizem que é a última moda em Milão. 

Magoo lançando moda

Magoo lançando moda

Camilo imitando

Camilo imitando

Mauro blasé

Mauro blasé

Tai a explicação de por que moda é feita para mulheres

Taí a explicação de por que moda é feita para mulheres

Ansiosos pelo tão esperado evento do dia, regressamos com uma idéia fixa em mente: mandar boas vibrações para a aura parrillera do Mauro e devorar tudo o que ele ia fazer na churrasqueira.

Parrilla

Parrilla

Para quem não sabe, o camisa 9 da seleção celeste, grande cabeceador, também é um grande fazedor de churrasco. Aliás, sua fama é internacional.

O rei, o parrilero-mor

O rei, o parrillero-mor

Qual smurfs na mesa do Papai Smurf à espera da comida, batemos os talheres exigindo carne. No entretempo, uma partida de mancala para alegrar os incautos.

Partidinha de mancala sob a observação atenta do parrillero

Partidinha de mancala sob a observação atenta do parrillero

Abrimos a ronda noturna com uma molleja, que, em outras palavras, não passa de gogó de vaca. “Écate!” foi a primeira coisa que me veio à mente. Mesmo assim, e talvez mais por insistência do Camilo, acabei quase a contragosto provando.

As do Mauro estavam bem mais apetitosas

As do Mauro estavam bem mais apetitosas

Antes mesmo de pôr o pedaço de carne na boca, já estava fazendo careta. E sabem quê? É bom pra caralho! Confesso que não esperava nem um pouco gostar. Quem sabe por isso tenha curtido tanto. É simplesmente delicioso. Aconselho.

Na seqüência do nosso banquete parrillero, seguiu-se a morcilla (morcelha ou choriço) doce, recheada com nozes, e a salgada. Da doce, só elogios. Mauro é o cara fazendo churrasco. Quanto à salgada, minha antipatia diminuiu, mas não sei se pediria expressamente para comer.

Morcilla recém-saida da parrilla

Morcilla recém-saída da parrilla

The last but not the least, as lindas tiras de asado. E duas para cada um! Ai a balança… 

Como acompanhamento, cerveza Patricia e vinho cepa Tannat.

Notem que o Tannat estava ao alcance da minha mão!

Notem que o Tannat estava ao alcance da minha mão!

Nem preciso dizer que fiquei no vinho. Excelente. Como os três preferiram a cevada, acabei tomando a garrafa inteira quase sozinho, que nem nos tempos de Caballito, quando eu matava um Flinca Flichman por noite no inverno. 

Será que eu já estava jojado?

Será que eu já estava jojado?

Bebuns os quatro, não nos sobrou outra coisa que tomar copos de água antes de dormir e torcer para não amanhecermos com aquela puta ressaca.

O que bebida não faz com uma pessoa... (Camilo com o traje mais fidedigno de sua natureza)

O que bebida não faz com uma pessoa... (Camilo com o traje mais fiel à sua natureza)

 

UYtrip – dia 7 20 Janeiro 2009

Arquivado em: Uruguai — Maikon Augusto Delgado @ 16:38

Na manhã do dia 26, com uma semana já de viagem, acordamos em Montevideo, na casa da Ale e do Mauro. Enquanto este se vestia a caráter (ele tem que trabalhar de terno e gravata, pobre coitado), coloquei minha boa e velha bermuda, uma camiseta qualquer e meu tênis estourado. Desconfio que Mauro deve ter nos invejado.

Com a barriga semicheia (saco vazio não pára em pé), fomos deixá-lo no trabalho. A Ale não precisava de carona porque trabalha do lado de casa. Mauro, por outro lado, trabalha na própria rambla e tem vista para o Río de la Plata. Aí sim eu o invejei.

 

Rambla

Rambla

 

Aproveitamos a facilidade e pegamos a aorta no sentido contrário, rumo à Ciudad Vieja. Ainda com um pouco de fome, paramos em um café para desayunar comme il faut: café com leite, medialunas, etc. Antes, porém, deixamos o Gonzinha no estacionamento, por si acaso. Infelizmente não me lembro nem do nome nem do endereço desse café, porque lá foi o único lugar no Uruguai em que fomos mal atendidos, muito mal atendidos.

Nosso primeiro destino foi o mole do porto de Montevideo, onde cruzamos com uma enormidade de pescadores tentando a sorte no Río de la Plata.

 

Pescadores no mole

Pescadores no mole

 

O silêncio e a tranqüilidade do muelle nos proporcionaram um bom momento para a introspecção e a discussão do próximo plano de grande porte, que será, no momento certo, anunciado e minuciosamente explicado neste blog.

 

Na santa paz

Na santa paz

 

Apesar de não ser lá muito interessante para alguns, eu sou fascinado por barcos (acho que numa vida passada fui um daqueles doidos europeus que se lançaram ao mar à procura das Índias). Camilo, por sorte, quase compartilha da mesma fascinação. 

 

Será que eu já fomos marinheiros na vida passada?

Será que já fomos marinheiros na vida passada?

 

Só espero que não tenhamos ficado limpando convés...

Só espero que não tenhamos ficado limpando convés...

 

Não sei exatamente quanto tempo estivemos sentados no mole vendo os barcos passarem. O que sei é que, quando nos levantamos, já meio que estávamos com fome de novo. Caminhamos mais um tanto pela Ciudad Vieja, a esmo pelas ruas que nos pareciam mais atrativas, e acabamos chegando ao Mercado Municipal da cidade.

 

Ciudad Vieja

Ciudad Vieja

 

E bem na hora do almoço. Que coincidência! Como seria um pecado turístico imperdoável, entramos para comer. Caso contrário, o deus uruguaio do churrasco nos puniria para sempre. 

Com o mercado ainda vazio por ser hora de almoço brasileiro e não uruguaio, nos sentamos em um dos tantos restaurantes à disposição e pedimos dois choripanes com salada. E que viessem acompanhados por uma Zillertal bem gelada.

 

Choripán

Choripán

 

Zillertal

Zillertal

 

Não preciso nem dizer que la pasamos muy bien

Revigorados com aquela cervejinha na hora do almoço e com o bucho já bem cheio, continuamos caminhando pela Ciudad Vieja e pelos arredores da 18 de Julio. Na altura da Paraguay, o Camilo encontrou um minishopping de artesanato, que o fez ficar qual um louco. Suas raízes estudantis e de quem ia tomar bera no Largo da Ordem falaram mais forte. Teve que entrar e meter-se à cata de um chapéu. Eu, como todos já devem saber, odeio feirinhas e coisas do gênero. Do fundo do meu coração. Já tive inúmeras discussões com ex-namoradas e amigos por conta disso e hoje não discuto mais: quer ir, vá; só não me leve junte.

Sendo assim, enquanto o Camilo procurou por tudo quanto é canto seu chapéu de chanta, fiquei sentado na frente do shoppingzinho vendo a vida passar. Aliás, passa bem devagar e com ar meio quedado no Uruguai.

Satisfeito e com a cabeçola (na verdade um cabeção) enfeitada com seu novo sobrerito de cuero de chancho, os dois nos sentamos em um café na praça da Rua Florida e tomamos algo. 

Já pensando na questão da chave do apartamento da Ale e do Mauro, resolvemos buscá-lo de surpresa no trabalho. De terno e gravata, nós o intimamos a fazer um car tour por Montevideo conosco. É óbvio que ele iria nos guiar. Antes de pegarmos a rambla rumo ao Cerro, passamos em casa para que o nosso trabalhador se trocasse e pusesse sua outra roupa a caráter: bermuda, camisa e havaianas. Que transformação, não?!

 

Camilo (com seu sombrerito de chanta) e Mauro a caráter

Camilo (com seu sombrerito de chanta) e Mauro a caráter

 

Com o nosso guia nativo no banco do passageiro, rumamos para o Cerro. Teoricamente é o morro pelo qual se deu o nome de Montevideo (Monte + video = vejo o monte). O Cerro, além do interesse quanto à vista, também “hospeda” a Villa del Cerro, que é uma antiga vila uruguaia que, com o passar do tempo e com o aumento da capital, acabou sendo incorporada como um bairro de Montevideo. Os moradores do Cerro são ufanistas do próprio bairro, e se orgulham de serem ufanistas, se é que isso é possível. 

 

Villa del Cerro

Villa del Cerro

 

A Villa del Cerro não é o lugar mais bonito de Montevideo, mas talvez um dos mais interessantes. Tem o Cerro, o forte, o ufanismo de seus moradores, dentre os quais está Pepe Mujica, ex-militante dos Tupamaros (esquerda armada uruguaia), preso político por mais de 12 anos (leiam: Memorias del calabozo, de Huidobro e Rosencof) e futuro candidato à presidência.

 

José "Pepe" Mujica no senado uruguaio

José "Pepe" Mujica no senado uruguaio

 

Lá de cima do Cerro, uma bela vista da cidade. Não fossem os brasileiros farofeiros e chacreiros que encontramos, teria sido tudo de maravilla

 

Vista do Cerro

Vista do Cerro

 

Montevideo vista do alto do Cerro

Montevideo vista do alto do Cerro

 

Mauro e Camilo "o cabeção" no Cerro

Mauro e Camilo "o cabeção" no Cerro

 

Descemos com o objetivo de dar mais um rolê pela cidade e de irmos ao supermercado fazer compras. Tínhamos combinado, no dia anterior, no ático do casal, que acabou alterando metade da nossa viagem, de irmos os quatro a Santa Lucía, balneário uruguaio em que os pais da Ale têm casa.

No mercado, como não podia ser diferente, fizemos a festa: quilos de carne, pão, verduras, abacaxi, cerveja, vinho e muito doce de leite (que se perdeu por algum lugar da viagem).

 

Doce de leite Conaprole

Doce de leite Conaprole

 

Voltamos para casa à espera da Ale, que teria kung fu até às 21h (cuidado com ela, é perigosa!). Enquanto a esperávamos, inspirados pela bola que vínhamos trazendo no porta-malas desde Colonia, intimamos o Mauro a bater um baba conosco pelas ruas de Montevideo. É o sangue brazuca e futuro hexacampeão falando mais forte. 

Entre gols, bolas no capô e atraso, conseguimos sair de Montevideo lá pelas 22h30. Nosso destino: Santa Lucía, a 80km da capital. Nosso martírio: ouvir as cantorias pagodeiras do Camilo com o carro lotado de coisas (malas de quatro pessoas e compras para o fim de semana).

 

 

 

UYtrip – dia 6 19 Janeiro 2009

Arquivado em: Uruguai — Maikon Augusto Delgado @ 17:43

A tal da descansadinha acabou durando até a manhã do outro dia. Nada de festinha para comemorar o Natal. 

Acordamos, tomamos café e fizemos nosso checkout. Antes de buscar a Abuelita, que também faria checkout nesse dia e voltaria, de Buquebus, para Buenos Aires, utilizamos pela primeira vez, com muito orgulho, o presente que ela nos deu: demos uma geral no Gonza, que já estava precisando. Indireta ou não, o presente dela veio a calhar. 

Estacionamos na frente do Plaza Mayor contentes, buzinando e fazendo a festa. Abuelita já nos esperava. E com outro presente. Tinha conseguido com a recepcionista fazer com que entrássemos para bater umas fotos do hotel, que faz parte do complexo histórico tombado pela ONU. 

Novamente ciceroneados por nossa querida guia Busbus, passeamos, qual turistas suecos cheios da bufunfa, pelo interior do hotel.

Posada Plaza Mayor

Posada Plaza Mayor

Fonte-caramanchão do Plaza Mayor

Fonte

Pátio-caramanchão

Pátio-caramanchão

Os dois intrometidos fuçando pelo hotel

Os dois intrometidos fuçando pelo hotel

De lá, já com o Gonza carregado com as malas de todos, nos sentamos em um restaurante para tomar um café, conversar e depois almoçar. Na verdade, mais que tudo isso, estávamos realizando a I Cumbre Secreta Internacional del Club de Admiradores de Henning Mankell, que se deu sem muitos segredos na calçada de Avenida Gral Flores, em Colonia.

Será que o Kurt Wallander vai mesmo fazer isso?

Será que o Kurt Wallander vai mesmo fazer isso?

Claro que vai. Por que você não escuta o que a tua Abuelita está te dizendo?

Claro que vai. Por que você não escuta o que a tua Abuelita está te dizendo?

Porque é Kurt Wallander para cá, é Stefan Lindman para lá, é Linda Wallander para o outro lado… E assim passamos horas conversando.

Depois do almoço, já em clima de despedida, fomos dar uma voltinha de carro pelo centro histórico, que até então mal tínhamos visto. Enquanto o Camilo e a Abuelita, dois lagartos preguiçosos com a pança cheia depois do almoço, se contentaram em ver tudo desde dentro do carro, sob uma sombra amiga, saí caminhando e batendo fotos.

Os dois preguiçosos dentro do Gonza curtindo uma sombra

Os dois preguiçosos dentro do Gonza curtindo uma sombra

Pórtico

Pórtico

As muralhas de Colonia

As muralhas de Colonia

Calle de los Suspiros

Calle de los Suspiros

Por dois momentos pensei ter encontrado a mulher da minha vida (o conceito platônico da menina de bicicleta sempre acaba voltando), mas não.

Paixão à primeira vista?

Paixão à primeira vista?

Ledo engano...

Ledo engano...

A tarde no seu início, entramos no cais do Buquebus para deixar a presidenta do CAHM (Club de Adoradores de Henning Mankell) na sala de espera e infelizmente nos despedirmos.

Até que vimos algo estranho no céu. Será um avião? Será uma nave espacial? Será o Superman? Nem um, nem outro. Mas a surpresa ficou.

Um avião? Uma nave espacial? O Super-Homem?

Um avião? Uma nave espacial? O Super-Homem?

Com o pé na estrada novamente (a saudade já era grande), seguimos rumo a Montevideo. Íamos nos hospedar na casa de um casal de amigos do Camilo, a Ale e o Mauro. Camilo os conheceu no Brasil há anos e desde então mantêm contato. 

Conseguimos chegar à capital uruguaia sem sequer um pássaro morto. Grande façanha! Obviamente nós nos parabenizamos. Afinal de contas, não é todo dia que isso acontece. Tínhamos combinado buscar a Ale e o Mauro na casa dos pais dele, em Malvin. Para isso, tivemos que cruzar toda a Montevideo, e aproveitamos para curtir a rambla de cabo a rabo.

Chegando em Montevideo

Chegando em Montevideo

O Gonza, nesse meio tempo, rolling like a mousse. 

Rambla

Rambla

 

Mal chegamos, já fomos intimados pelo Mauro a tomar um mate tipicamente uruguaio. Subimos no ático do apartamento deles e ficamos curtindo o final da tarde de Natal de Montevideo. Enquanto tentamos convencê-lo a provar um autêntico mate de Caballito (com leite e coco), ficamos conversando sobre viagens (Argentina, Chile, Bolívia, Peru). E Uruguai. Foi então que surgiu o subtítulo temporário do Bons Ares. Mauro, depois que lhes contamos nosso plano de viagem…

Uruguay Trip

Uruguay Trip

… perguntou: “Mas por que o Uruguai?”.

A que eu respondi de bate-pronto: ” E por que não?”

Essas duas frases deram lugar a uma longa conversa sobre o Uruguai e nosso itinerário. Nós, que tínhamos o itinerário acima, acabamos mudando-o, depois de muita charla com o casal, para o seguinte:

UTtrip depois da conversa

UTtrip depois da conversa

Nessa mesma noite, depois do merecido banho, ainda fomos ver uma comparsa de canbombe tocando pelas ruas da Ciudad Vieja.

Comparsa tocando candombe

Comparsa tocando candombe

Por fim, voltamos para casa e jantamos, como não poderia deixar de ser. O que mais poderiam esperar de nós?

 

UYtrip – dia 5 16 Janeiro 2009

Arquivado em: Uruguai — Maikon Augusto Delgado @ 16:39

Na noite de 23 para 24, Abuelita, no Plaza Mayor, dormia o sono dos anjos. Camilo, na cama de baixo do beliche, também. Fui o único que sofreu com o maldito calor que fazia na noite de 23 para 24. Levantei no meio da noite, pedi que ligassem o ar-condicionado, me disseram que estava quebrado, tentei voltar a dormir e acabei suando.

Manhã de véspera de Natal. No café-da-manhã, mais café ruim (isso não é uma reclamação pura e simples), leite quente, pão e doce de leite. 

Às 10h, quase pontualmente como ingleses, fomos buscar nossa querida Abuelucha Busbus no hotel. Gonza, arrumado e relativamente limpo, esperava-a com as portas abertas e o tanque cheio, pronto para dar um rolê por Colonia. 

Banco de trás

Banco de trás

Gonza e seu choffeur

Gonza e seu chauffeur

A postos, os paparazzi querendo fotos exclusivas para a revista Caras. E conseguiram, aqueles salafrários.

Clic do flagra

Clic do flagra

Abuelita, de bom humor, até pousou para uma foto.

Posando para os paparazzi

Posando para os paparazzi

Partimos rumo a Real de San Carlos, ao reencontro com o passado. Busbus, tempos atrás, morou dois anos em Colonia, e um dos lugares foi uma cabaña em Real. Nossa meta primeira era achá-la e fotografá-la. Meta n° 2: parar na praia, tomar um mate e ficar de conversê. 

À procura do chalé, passamos pela Plaza de los Toros e por outras ruelas de Real.

Plaza de los Toros

Plaza de los Toros

E encontramos o chalé escondido entre umas árvores.

Chalet caché

Chalet caché

Nossa curiosidade satisfeita, estacionamos o carro e nos instalamos na praia (ribeirinha), onde nos preparamos um bom mate, bebida uruguaia por excelência.

Vista da praia de Real San Carlos

Vista da praia de Real de San Carlos

Ficamos por lá até que a fome e a sede nos acometessem. Pensando em refrescar a alma com uma cerveja e em evitar o mau humor pacotijeiro, voltamos à Colonia e nos sentamos em um bar. Pedimos uma Zillertal, um café para Bu e umas fainas para beliscar. 

Mais conversa rolando e resolvemos ir almoçar (é minha impressão ou só pensamos em comida?). O nome do restaurante eu não lembro, mas do tamanho da milanesa napolitana con papas fritas que pedi sim. Enorme. Nem eu, nos meus áureos tempos, teria conseguido enfrentá-la. Deixei mais da metade no prato. Era realmente enorme. Cafezinho, sobremesa (panqueca de doce de leite) e gordurinha se acumulando aos poucos na pança.

Depois do almoço, sugestão abuelística: a merecida siesta. Deixamos a Abuelita em seu hotel, passamos no hostel para pegar nossas coisas de praia e s’imbora.

Enquanto o Camilo foi já se instalando, aproveitei que tudo na cidade estava aberto e fui cortar os meus cabelos, que já estavam grandes e me incomodando. Como cortar os cabelos sempre foi um problema para mim, fui com receio. No caminho, decidi cortar da maneira mais simples possível para dar menos sopa ao azar e diminuir a margem de erros. 

Rodei um pouco e me decidi pela Peluquería de Don Valentí. O proprietário, que me atendeu e cujo nome é Paulo Valentí, filho de brasileiro com uruguaia, indagou meus gostos, inqüiriu minha vontade e mandou bala no corte. Se não tivesse ficado tão curto, teria acertado em cheio. 

Saí do cabeleireiro feliz por estar com cabelo cortado e levemente preocupado por tê-lo muito curto. Não queimaria a cabeçola debaixo daquele sol inclemente do Uruguai? Dizem que tem um buraco na cama de ozônio justamente sobre o país.

Voltei à praia ribeirinha e encontrei Mr. Cabezón na praia estirado tomando sol. Pensei: “Que fique lá. Eu vou sentar a minha bunda aqui na sombra e tirar uma soneca bem sossegado.”

A tarde, pois, se passou assim. Uns tomando sol, outros se encondendo dele e descansando.

Pôr-do-sol em Colonia

Pôr-do-sol em Colonia

À noite,  combinamos de cenar com a Abuelita e “comemorarmos” assim a noite do Viejito Pascuero (como, no Chile, chama o Papai Noel; ai meus sais!). Não havia muitos restaurantes abertos, ao contrário do que esperávamos. Um aqui, outro ali e todos o olho da cara. Acabamos escolhendo um que oferecia um bufê livre de saladas e a promessa de carnes. Sentamos na rua contentes por termos encontrado uma boa opção ao ar livre. Detalhe: o interior do restaurante estava todo decorado à espera dos clientes, mas ninguém quis se sentar dentro por conta de noite agradável que fazia. Já relaxados, pedimos uma cerveja e ficamos conversando.

Aproveitando a espera, a Abuelita nos deu (na verdade para o Gonza) o presente que tinha comprado: um aspirador de carro. Uma indireta? Jurou por tudo quanto é santo que não.

Quando a fome já estava batendo forte e o Camilo se remexendo sem parar na cadeira, perguntamos pela comida. Afirmaram que já estava saindo. Esperamos, esperamos. Todos as outras pessoas das outras mesas, quase todas do Brasil, também já estavam incomodadas. Até que foi anunciado que a ceia estava pronta. Qual um bando de cachorros famintos, a turba se levantou e atacou o bufê. Não sem decepção, descobrimos todos que nos venderam gato por lebre, quase que literalmente. Teoricamente, deveria ter sido um bufê livre de saladas e carne. Não posso negar que não havia variedade de saladas. Isso não posso negar. Já a carne, senhores… Tirando as fatias de presunto e umas carnes frias servidas em rodelas (Abuelita disse que era chique servi-las assim), nada. Como bem resumiu o Camilo, ficou faltando algo quente.

O sentimento de que “fomos enganados” era unânime. Todos os comensais, quando se deram conta de que aquilo era tudo, se entreolharam e fizeram o mesmo comentário, em português: “Só isso?” Brasileiro é mesmo foda. Tudo um bando de gente sem classe que não sabe ser elegante. Chiques ou não, o fato é que fiquei com fome, e imagino que o populacho também. Não nasci mesmo para ser chique!

Deu meia-noite, ficamos mais um pouco e fomos embora. Demos uma voltinha com a Abuelita e voltamos para o hostel. Camilo queria sair; eu nem tanto. Adivinhem no que deu isso. A noite de 24 para 25 acabou com um dormindo no sofá e com outro tentando se convencer de que só ia dar aquela descansadinha…

 

 

 

UYtrip entredias – dos pobres passarinhos mortos 15 Janeiro 2009

Arquivado em: Uruguai — Maikon Augusto Delgado @ 13:05

Mas antes de contar o Natal com a Abuelucha, uma história fúnebre há de ser narrada. Com mortes, assassinatos e até suicídio. Por que não?

UYtrip, quarto dia, ei-nos dirigindo pelo noroeste do país. Melhor dizendo, quem estava na boléia era eu. Findo o turismo pelos arredores de Tacuarembó, pegamos, como vocês já bem sabem, a estrada para Paysandú. No caminho, dos dois lados da UY, paisagens de rótulo de doce de leite, vacas e alguns rebanhos esparsos de eucaliptos.

Gonza sossegado, Camilo no banco do passageiro já quase babando de sono e eu dirigindo tranqüila e calmamente. Até aí tudo normal. Mesmo sem rádio, não estava entediado nem nada. Ia pensando na viagem, na vida e na morte da bezerra, que tinha falecido havia uns dias. 

Quando me passou pela frente do carro um passarinho, parecia uma rolinha, e deu com tudo contra nós. Não preciso dizer que o passarinho deve ter morrido. Meu reflexo foi freiar o carro e tentar desviar. Em vão. Camilo, com o susto que levei, acabou acordando. Abriu os olhos, deu aquela espiada e perguntou o que tinha acontecido. Respondi que tinha matado um passarinho, a que ele: “Porra, sério?” / “Sim, sério.” / “E aí?” / “E aí que matei. Só isso.” / “Que merda. Será que morreu mesmo?” / “Tenho quase certeza que sim.”

Ficamos nisso. O De la Croix voltou a dormir e eu a dirigir. Uns cinco minutos depois, outro passarinho entrou na frente do carro e, mais uma vez, foi atropelado. O Camilo acordou, de novo sem entender nada, expliquei o que aconteceu. Ficou me chamando de assassino de passarinhos, que o Green Peace ia me prender, que eu estava dizimando a fauna uruguaia. 

Me explica como se desvia deles!

Me explica como se desvia deles!

Pois bem. Dois passarinhos mortos e eu como inimigo do Green Peace. Maravilha!

Alguns quilômetros adiante, a porra de uma pomba ficou louca e se chocou contra o pára-brisa do carro. Ploct! Camilo mais uma vez acordou, dessa vez assustado. Imagino que deva ter achado que tínhamos sofrido um acidente. “Que nada, cara Pacotilla. Acabamos de matar uma pomba.” / “Quê? Vai me dizer que agora você matou uma pomba?” / “É. Sinto muito.” /  ”Só se for pela pomba.” / “É óbvio que é por ela. Por quem mais seria?” / “Por ter me acordado?” / “Depois eu que sou o assassino sem coração…” / 

De assassino me transformei em serial killer. Muchas gracias, pajaritos uruguayos. Continuamos no nosso trajeto e eu, já desconfiado da parvoíce ornítica uruguaia, me mantive de prontidão na UY. Rapidamente me dou conta de que os idiotas dos passarinhos, ao invés de voarem para fora da estrada, como fazem no Brasil os nossos, querem cruzar a estrada e sair voando pelo outro lado da pista, não sem antes a sobrevoarem.

Prevendo o pior, diminuí a velocidade e, ao ver um bando de passarinhos meio aparvalhados, buzinava para ver se os espantava. Em 97% dos casos funcionou. Nos outros 3%, fracasso. De serial killer com vítimas solitárias, passei a chacineiro. Três pássaros, dos mais estúpidos, se esqueceram de desviar do carro, chocando-se contra a frente do Gonza. A essa altura, Camilo já estava acordado e me azucrinando.

“Assassino! Olha o Green Peace!”

Minha contagem já ia a 6 vítimas.

Até que, porque números ímpares são mais cabalísticos que os pares, um quero-quero doido resolveu sair caminhando na frente do carro. Literalmente o atropelamos. Tecnicamente, um suicídio premeditado.

7 mortes, 1 procurado pelo Green Peace e o Uruguai mais pobre de fauna…