Bons Ares

Tem dia que só amanhã!

Finados de rolê 9 Novembro 2009

Nunca escondi de ninguém que não sabia andar de bicicleta.

Quando criança, lá pelos 6, tive uma bicicross (se é que assim se chamava) azul, com pneus para o barro, um pouco grande para o meu tamanho. Como não sabia andar, meu pai pôs rodinhas nela, para que me ajudassem no equilíbrio. Se eram úteis, não sei dizer. Fato é que não me ajudaram a aprender. Talvez, mas só talvez, tenham me atrapalhado.

A minha era azul e tinha rodinhas

A minha era azul e tinha rodinhas

Fui então uma criança parcialmente motorizada. Não sabia andar de bicicleta e tive que dar meus pulos para encontrar uma solução para esse impasse na hora das brincadeiras. Inventávamos corrida de tudo, menos de bicicleta: carrinho de mão, carrinho de rolimã, patinete, etc.

A infância se passou e consegui sobreviver ao não-pedalismo.

Já tinha até esquecido que não sabia andar de bicicleta quando entrei na adolescência. A patota toda, e sobretudo o Zunga (meu amigo mais próximo), andava, menos eu. Mais que na infância, não ter uma magrela começou a me incomodar. No entanto, ao invés de arranjar uma e aprender, enveredei para outro “brinquedo” de rodinhas: o patim. Com o mesmo Zunga, que hoje se chama Brahmarsi Das, nos embrenhamos pelas ruas de Curitiba de patins. Até tivemos um time de hóquei.

Jogávamos mais ou menos assim

Ficamos anos andando de patins para lá e para cá, até que eles chegaram a um ponto em que se destruíram e não podiam mais ser usados.

Mais ou menos na mesma época, começou a fase de namoricos sérios, e o patim, e por conseguinte a ainda não bicicleta, foi deixado para trás.

Vem a época de faculdade e a locomoção massiva de ônibus tem lugar. Biarticulado, Ligeirinho… De ônibus, porém, não quero falar. Novidades não há.

Em seguida, a longa fase do automóvel movido a combustível não humano, que dura até hoje: tive meu primeiro carro. É carro para cá, é carro para lá, é viagem para a praia… O carro vira o centro das atenções. Tudo se faz para ele e com ele.

Car way of life

Vou para a Europa e, em Amsterdam, influenciado pelo clima da cidade e querendo fugir do friaca dos demônios (não sei mais quantos graus estava; prefiro não chutar, porque desconfio que cada vez que conto essa história modifico detalhes como esse), aprender a me equilibrar sobre a bike. Seria, a meu ver, o primeiro estágio, simbólico, do aprendizado. Isso não quer dizer, porém, que eu fosse capaz de desviar de obstáculos tais como um árvore ou uma pessoa caminhando. Preferi, naquele entonce, me ater àquela experiência noturna

Aprendendo em Amsterdam

Outros anos se passam e, já de volta ao Brasil e novamente com carro, a comodidade se instala completamente. Aonde podia ia com ele, mesmo que seja até a padaria, que ficava a três quadras de casa. Junta-se a isso o fato de começar a trabalhar no melhor estilo “bater cartão & pensar em férias & bater cartão & fazer hora extra & economizar para viajar & bater cartão & ter dores por todo o corpo de passar o dia sentado & etc”.

Ninguém merece

Não se preocupem, já vamos chegando aos dias de hoje.

Até que, levado por todo um contexto muito particular, decido por A mais B que ia, de uma vez por todas, domar aquele maldito animal chamado camelo. Ia acrescentar mais essa habilidade ao meu currículo: a de saber andar de bicicleta.

É claro que para muitos isso parece besteira, pois é coisa de a se aprender quando se é criança. Mas, como essa lacuna não foi preenchida na minha infância, ela foi virando uma bola de neve depois de adulto. Não posso dizer que foi difícil aprender, mas também não posso dizer que foi fácil. Houve dificuldades (de vergonha, por exemplo) a serem contornadas.

Uma vez decidido a aprender e ciente dos meus limites físicos, fui aprendendo aos poucos. Primeiro fiquei tentando relembrar o que aprendi em Amsterdam, no Vondelpark, em espaços abertos e livres de obstáculos. Depois, fui dar umas voltas acompanhado de amigos pela ciclovia. Em seguida, comecei a ir sozinho diariamente à ciclovia, em horários pouco movimentados, para treinar. Em seguida, quando já dominava mais o animal antes indomável, ia nos horários de pico. Só foi então e há poucos dias que comecei a incursionar pela rua, respeitando as seguintes fases: ruas inóspitas e mortas; ruas pouquíssimo movimentadas; ruas pouco movimentadas; ruas movimentadas; e caos. Já até o nível das ruas movimentadas, mas ainda não enfrentei o caos. Pretendo logo fazê-lo.

Os rolês do feriado do Dia de Finados foi a corroboração e concretização das minhas novas habilidades como ciclista, ser com quem já começo a me identificar.

Na sexta já fui dar uma volta pela ciclovia com o Piper. Nos encontramos no Bosque do Papa, fomos ao Parque São Lourenço, Barreirinha e seguimos até o “Pólo-Xopim”. Para o dia seguinte, marcamos com o Cabrito de fazer o famigerado Clube do Bolinha em algum parque da cidade. O ponto de encontro foi o Eppinghaus. Caloreira beirando os 30°. Subimos até o Bosque da Língua Portuguesa. Sentados à sombra de uma árvore, discutimos parte do que tínhamos que discutir e fomos comer na Fagundes Varela. De lá fomos tomar um cafezinho decente lá do lado do quartel e descemos até a praça da Suíça, onde terminamos as discussões, também jogados na grama.

Cabra então se separou, mas Piper e eu viemos até em casa. Estivemos por aqui até umas 21h, quando fomos ao mercado, compramos o de-beber e fomos à festinha de um amigo nosso. Tudo isso de bike.

Às 2h, com o bucho cheio de carne e contentes, viemos cantando “menos carros, mais bicicletas” pelas ruas desertas.

No domingo, outro rolê de bike por aí com Camilo.

E à noite, quando estávamos todos aqui em casa já meio bundeando, bradamos: rolê noturno! Piper prepara-se. João Arthur prepara-se. Eu me preparo. Investidos cada um de suas bikes e outros apetrechos, saímos à rua. Rolezaço gigante à vista. De casa vamos até o Largo da Ordem, Rua XV, Praça Osório, Batel, Praça da Espanha, Parque Barigui, Rua 24 Horas, Praça Santos Andrade, e Praça 29 de Dezembro. Guiados por nosso amigo Jean Valjean, vamos conhecendo as árvores da cidade. Tipuanas, tamareiras, paus-brasis, etc.

Tamareira

Chegamos em casa às 3h30, com direito à passada na padoca 24 horas para comer um queijo quente.

Acho que já posso dizer que sei andar de bicicleta. Falta agora virar um ciclista…

… e dar sorte de cruzar com a Liz Hatch por aí…

 

O cachorro e o asno 5 Novembro 2009

Arquivado em: Literatura, Pensação — Maikon Augusto Delgado @ 17:09
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Enquanto não tomo vergonha na cara e sento para escrever tudo o que tenho na cabeça, deixo-vos com um provérbio checheno que retirei de Khadji-Murát, de Tolstói:

Um cachorro alimentou um asno com carne, e este, por sua vez, serviu feno àquele. Ambos ficaram com fome.

Para cada povo, são bons os seus próprios costumes.


 

Davi x Golias | o monstro de concreto chamado São Paulo 29 Outubro 2009

Arquivado em: Brasil, Causo, Pensação, São Paulo, Texto — Maikon Augusto Delgado @ 06:23
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Cair nos mesmos clichês de sempre para descrever São Paulo é chover no molhado.

Cidade grande. Enorme. Monstruosidade de concreto.

Trânsito caótico. Buzinaços. Carros e mais carros, a perder de vista. Congestionamentos às 22h30.

Aglomerações intermináveis. Gente de tudo quanto é jeito saindo pela culatra por todos os cantos, qual formigas.

Povo simpático.

Pizza boa.

Muitos japoneses.

O problema de São Paulo, no entanto, é que a cidade é exatamente assim: grande, caótica, atulhada, cheia de japoneses e com ótima pizza. Aí fica difícil falar de outra coisa.

Nos dois dias que passei lá, experienciei tudo isso. É a primeira coisa que se vê. É também o que fica gravado.

O monstro de concreto

O monstro de concreto

Quando se é de outra cidade, algumas impressões e sentimentos são comuns aos estrangeiros. Imagino eu, pelo menos. É o pequeno Davi, retraído e oprimido pela fama devoradora do gigante Golias, que, vociferando contra os inimigos, ultraja-os e humilha-os por sua covardia.

Ver-se rodeado pelos arranha-céus de São Paulo é como ver-se perdido em uma floresta imbricada em si mesma. Tudo parece selvagem. Todos parecem vorazes.

A imensidão assusta e cansa. É Golias urrando. O perigo sempre rondando à solta.

Os inúmeros pequenos Davis que visitam diariamente São Paulo veem-se perdidos.

Embora seja citadino, sempre que vou a São Paulo sinto-me um jeca do mato na cidade. Tudo é tão grande, tão longe, tão distante da minha realidade.

Difícil abarcar com um só olhar.

Difícil resumir tudo com um só pensamento.

Não obstante, o mundo consubstancia-se um pouco em São Paulo. Os opostos se atraem. Os contrastes combinam. Os inversos se completam.

São Paulo converge as coisas. As pessoas convergem-se em São Paulo.

De grão em grão a galinha enche o papo. Toda viagem começa com o primeiro passo, e o primeiro passo da minha grande viagem foi esse monstro de concreto…

………

……

Golias sempre acaba sucumbindo em um momento...

 

Próximos dias 23 Outubro 2009

Arquivado em: Causo, Pensação — Maikon Augusto Delgado @ 06:40
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Ana “Abuelita” Tejero tem razão. O feriado foi larguíssimo. Nos últimos dias tenho sido meio relapso com o blog. Motivos, é óbvio, sempre há. Seriam, porém, justificáveis?

Trabalho é uma das razões que me fez permanecer longe do blog. Muitos freelas, que tomam parte considerável do tempo. Um deles, que preencheu o fim de semana passado inteiro, mal me deu tempo para ler os i-meios, oxalá para escrever algo. Sobre esse freela, assaz diferente dos que costumo fazer, pretendo escrever nos próximos dias.

Outra das razões são alguns preparativos que tenho feito. Preparativos para algo muito grande que logo vai se concretizar. Sobre isso também vou falar nos próximos dias. Adianto somente que Camilo Pacotilla está envolvido em tal plano de dominar o mundo.

Por fim, e talvez o mais agradável dos motivos pelos quais não andei escrevendo, é que estive lendo bastante. Pelo menos bastante dentro do possível e quando o tempo contribuía. Recentemente terminei a leitura de Ébano, de Ryszard Kapuscinski, jornalista e escritor polonês que passou a vida cobrindo as guerras na África, América e ex-União Soviética. Infelizmente já devolvi o livro à Biblioteca Pública e não tive tempo de anotar um trecho de que gostei muito. Fica para uma próxima. Com ou sem trecho, aconselho a leitura.

Ou seja, embora não tenha nada específico para contar agora, posso sim dizer que haverá algumas novidades no blog nos próximos dias.

Como dizem por aí, aguardem e confiem!

 

Minhas impressões sobre Buenos Aires 16 Outubro 2009

Arquivado em: Argentina, Buenos Aires, Causo, Pensação — Maikon Augusto Delgado @ 13:51
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Paty Duim está passando suas férias em Buenos Aires e me mandou este texto com suas impressões sobre a cidade. Com seu aval, publico quase ipsis litteris seus pensamentos:

Viajar sempre é precioso e estou curtindo muito essa cidade em minha fantástica companhia, mais do que eu imaginava, podem ter certeza! Aliás, mal sabia eu que outubro talvez seja um dos melhores períodos para estar por aqui, afinal, com poucas excessões, os dias foram de sol e friozinho gostoso, com a primavera começando a mostrar a cara. Perfeito para andar nas ruas da cidade sem pressa, ou parar num desses tantos cafés que existem por aí. Estou em Buenos Aires há um pouco mais de uma semana e passarei mais alguns dias. Minhas andanças me dão condições suficientes, creio eu, para escrever algumas observações sobre as impressões que tive da cidade.

Mi Buenos Aires querida...

Mi Buenos Aires querida...

Buenos Aires é linda, convidativa e charmosa, é verdade. É uma cidade viva, de gente animada que me lembra um pouco do cosmopolitismo de São Paulo, mas com doses da imensidão visual de Brasília e do verde encantador de Curitiba. Aluguei um apartamento que me permite fazer a maioria das coisas a pé ou de metrô, o que ao meu ver é um previlégio (pela simples privação que tenho dessas coisas no meu dia-a-dia em Brasília). Mas, ao mesmo tempo, o apartamento em que estou me permite ver de camarote muita tristeza, pobreza  e desesperança. Estou muito perto do cruzamento de vários viadutos, no final (ou começo) da 9 de Julho. Viadutos estes que abrigam grupos de sem-teto, que parecem estar aumentando criticamente por aqui, pelo que entendi. Houve uma noite, em particular, que choveu muito, mas muito mesmo. Toró fortissimo, com direito a ventos fortes e trovões. Assisti calada e de camarote a desgraça dos sem-teto da varanda do segundo andar. Eles tentavam se esconder de tudo, do vento, da chuva, do frio, da fome. A pobreza é algo explícito nas ruas de Buenos Aires, principalmente para aqueles que, como eu, tem a possibilidade de percorrê-la a pé. Esses dias tentei contar o número de mendigos que vi, em uma hora de caminhada pelas ruas do centro. Desisti. São dezenas que vivem no centro da cidade, muitos deles idosos. Nos finais de semana e feriados, quando as ruas estão vazias de pessoas, é mais fácil perceber que a coisa por aqui não anda das melhores.

A maioria dos meus dias foram de muitas caminhadas silenciosas por todos os cantos da cidade, em busca de endereços para as entrevistas da minha pesquisa ou simplesmente de andanças a toa mesmo. Houve dias que andei 6 horas direto, só parando para tomar um café con leche y três medias lunas, por favor. Uma delícia! Fazia tempo que eu não sentia gosto em cruzar com as pessoas na rua, no metrô, no café. Gosto de me sentir parte da cidade, como uma observadora atenta. Me dá prazer o simples fato de olhar os traços de cada um, de perceber os detalhes que nos fazem diferentes ou próximos, escutar conversas e tentar entendê-las pelas poucas palavras em tons mais altos que aparecem nesse jeito tão particular de falar dos porteños. Eis aí uma das vantagens de viajar sozinha: a percepção fica mais aguçada e teus passos te levam a qualquer lugar. Pra conhecer Buenos Aires basta ganas de andar e se perder na beleza arquitetônica da cidade, das lindas avenidas, com surpresas a cada esquina, do Cemitério da Recoleta ou das chiquitas calles da charmosa San Telmo, com suas varandas cheias de flores.

Viejito porteño

Viejito porteño

Pois aqui há também uma beleza gastronômica especial. Principalmente para os carnívoros. Minha maior insatisfação de almoçar ou jantar sozinha não é o simples fato de estar só, mas o fato de que que é impossível dar conta sozinha de uma refeição porteña. Um bife pequeno de chorizo é impossível pra mim. IM-POS-SÍ-VEL. O maior bife de chorizo que comi era um que constava no cardápio como “mini-bife”. Una pequeñita porción, falou a garçonete. Pois imaginem os outros. Bom, talvez o exageiro da Família Faraco-Benthien tenha origens porteñas, quizás. Además, tudo é uma delícia. Até cheguei a pedir empanadas por telefone. Arrisquei llamar por teléfono a um delivery perto de onde estou. Entregaram bonitinho em meia hora, pela bagatela de 10 reais. Que delícia! Nhami-nhami! Aliás, Duínzinho porteño de mi corazõn tiene razón, os helados são deliciosos. Muito mais gostosos que os brasileiros! Dificil explicar porquê.

Além de Buenos Aires, fiz um passeio inesquecível por uma cidadezinha chamada Tigre. A cidade fica a aproximadamente uma hora de trem de Buenos Aires. Fica na beira de um rio, onde é possível fazer um passeio de barco pelo Delta do Tigre. O lugar tem uma formação bem particular, onde há várias pequenas ilhotas que abringam casas de final de semana e veraneio. Juro que foi facinho-facinho me ver em uma daquelas casas de madeira (em especial de uma chamada “Utopia”), na beira do rio, lá com meus 80 anos em uma cadeira de balanço. O que há mais que se querer nessa vida…

Aposentadoria em Tigre

Aposentadoria em Tigre

 

Suecos | Pär Lagerkvist 7 Outubro 2009

Andei descobrindo um escritor sueco chamado Pär Lagerkvist. Ele foi ganhador do Nobel de Literatura em 1951. Eis aqui um trecho de seu livro Encontro com o mar, cheio de sabedorias da vida:

— Quando pela primeira vez embarquei neste navio — continuou, depois de algum tempo —nunca tinha visto o mar. Muitas outras coisas vira: demasiadas. Vira gente: gente em demasia. Mas nunca o mar. Por isso jamais compreendera nada, nunca entendera coisa alguma. Como se poderá compreender algo da vida… compreender e penetrar nas pessoas e nas suas vidas… antes de aprender do mar? como ver através de suas lutas e vazias ambições estranhas, enquanto não olharmos para o mar, que é ilimitado e suficiente em si mesmo? Enquanto não aprendermos a pensar como o mar e não como essas criaturas inquietas que se imaginam a caminho de algum lugar e têm essa viagem pela coisa sobre todas importante, e para as quais seu termo é o significado e o propósito da vida. Enquanto não aprendermos a deixar-nos levar pelo mar, a render-nos totalmente a ele, e a cessar de atormentar-nos por causa da justiça e da injustiça, da verdade e do erro, do bem e do mal, por causa da salvação, da graça e da condenação eterna, por causa do diabo e de deus e suas estúpidas contendas. Enquanto não nos tornarmos tão indiferentes e livres como o mar e não nos deixarmos levar, sem destino, para o desconhecido, totalmente entregues ao desconhecido: à incerteza como a única certeza, única coisa realmente digna de confiança depois que tudo foi dito e feito. Enquanto não aprendermos tudo isso.

Pilgrim på havet

Pilgrim på havet


 

Impasse ético: os flanelinhas 5 Outubro 2009

Arquivado em: Causo, Curitiba, Pensação, Texto — Maikon Augusto Delgado @ 06:49
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Na semana passada saí com uns amigos. Fomos a um showzinho de música cubana. Embora esteja usando muito pouco o meu carro, pois estou numa fase de diminuir o uso com o objetivo de chegar à utilização zero, fui com ele para ter mais comodidade para voltar (o show ficava no Rebouças e isso seria sinônimo de uma senhora caminhada) e porque estava uma friaca de congelar.

Estacionei meu carro na Rockefeller, rua perpendicular à Engenheiro Rebouças. Logo que saí do carro uma senhora guardadora de carros veio até mim e perguntou:

— Quer que eu fique de olho no seu carro?

— E quanto seria para ficar de olho no meu carro?, respondi.

— R$5,00.

— R$5,00?

— R$5,00. É o preço.

— Como assim é o preço?

— Sim, é o preço que eu cobro para ficar de olho no seu carro.

— Bom, eu confesso que estou achando R$5,00 meio caro. Acho que a gente podia conversar sobre isso depois.

Deixei a negociação para depois e entrei ver o show.

Flanelinha
Quer que cuide, tio?

Quando saio, lá pelas 2h, está lá ela de pé, no meio da rua deserta, com seu colete de “guardadora de carros”. Aproximando-me do meu carro, lembro que tinha que lhe dar alguma coisa. Vasculho os bolsos e só encontro uma nota de R$20,00, que não penso lhe dar como gorjeta, sobretudo porque gastei na noite inteira, contando entrada e bebida, os mesmos R$20,00. Pergunto a meus amigos se eles tinham algum trocado. Camilo tinha R$1,00 em moeda, que gentilmente entregou à senhora. Ela, não satisfeita com as moedinhas, soltou:

— Não foi isso que nós combinamos. Eu tinha dito R$5,00.

Pôs-se do lado da minha janela e ficou falando comigo em tom vexatório.

Não gostei da atitude e disse:

— R$1,00 é tudo o que temos. Lamento.

— Mas nós não combinamos isso.

— A senhora não quer entrar no mérito dessa discussão, quer?

— $%#, resmungou ela alguma coisa.

— Nós não acordamos nada. Eu disse à senhora que depois conversávamos e que, de antemão, achava seu preço muito alto.

— Mas o meu preço é R$5,00.

— Se a senhora insiste na discussão, vamos lá: para começo de conversa, a rua é pública e eu tenho o direito de estacionar onde não houver faixa amarela. Depois, a senhora veio me exigindo um preço fixo por algo que, em tese, deveria ser gratuito.

— Mas eu fiquei aqui no frio cuidando do seu carro.

— Desculpe-me dizer isso à senhora, mas eu não lhe pedi que ficasse aqui nem disse que cuidasse do meu carro. É a senhora que está me forçando a aceitar os seus “serviços”.

— É, mas ninguém mexeu no seu carro por eu estar aqui.

— Mais ou menos. Ninguém pode garantir que não mexeriam no meu carro porque a senhora está aqui.

— Eu posso garantir.

— De certa forma, porque, se mexessem no meu carro, quem pagaria o prejuízo sou eu, não a senhora. Então garantia mesmo a senhora não pode me dar.

— Mas ninguém mexeu no seu carro.

— Por sorte, porque se mexessem eu levaria o prejuízo.

— Você diz isso porque não foi você que ficou aqui no frio.

— De fato não fiquei aqui no frio, mas isso não me obriga a lhe dar mais do que já lhe dei.

— A consciência é sua!, arrematou ela.

A famosa garça
A famosa garça

Aqui é necessário começar a esmiuçar a questão. Não me incomodaria em dar R$5,00 à senhora, se eu os tivesse. O problema é que eu só tinha uma nota de R$20,00, e eu não podia dar uma nota de 20 e pedir 15 de troco. Seria, a meu ver, desconexo. Cuidar de carros na rua é uma mistura de trabalho informal com mendicância, por mais dura que possa soar essa palavra. Ninguém, em tese, é obrigado a pagar nada. É quase um contrato social de “ajuda ao próximo” consolidado socialmente, que todos, quando dá e têm moedinhas à mão, procuram respeitar por altruísmo (ou medo). Se eu já for dar algo, não posso pedir troco, não é?

É justamente o caso da senhora. Consolidou-se socialmente que pessoas em situação econômica desfavorável podem recorrer a essa profissão informal para tentar conseguir o ganha-pão diário, da mesma forma que as pessoas que têm carro (que “logicamente” seriam, por terem os meios econômicos para adquirir um bem de consumo fora do alcance das classes menos favorecidas) e se encontram em situação mais favorável costumam dar alguma moeda em troca de um “serviço de vigilância”. A senhorinha seria a pessoa em situação econômica desfavóravel e eu, por possuir um carro, seria o indivíduo em situação favorável. Cria-se uma relação eticossocioeconômica de certa tensão. Segundo o contrato social consolidado, ela é a pessoa a ser ajudada e eu sou a pessoa que tem que ajudar. Detalhe: “tem que” ajudar.

Como disse acima, não me incomodaria nem um pouco em dar os R$5,00 à senhora. A única questão é que eu não os tinha. Aqueles que me conhecem sabem como sou nesse aspecto. Não sou de dar dinheiro a pedintes, crianças de rua ou bêbados. Varia conforme a situação, minha disponibilidade econômica e se acredito ou não no que a pessoa está me dizendo.

Por exemplo, sexta passada dei um pulo no Torto para tomar uma cerveja. Fiquei de pé na esquina tranquilo e calmo conversando com os amigos. Até que se aproxima um senhor, morador de rua e trêbado de cachaça, com um hálito pior que o da onça de jacupira. Ele nos pede um trocadinho para comprar uma pinguinha. Eu lhe dei R$2,00. Por que lhe dei sem nem titubear? Primeiro, porque sabia que tinha R$2,00 à mão (não é aconselhável ficar revirando carteira na rua dando sopa para malandro); segundo porque gosto de pessoas que são sinceras e francas. Ele não disse que queria dinheiro para o filho paraplégico que está morrendo de fome na esquina, ele pediu dinheiro única e exclusivamente para a cachaça. Como era nítido que ele, com aquele trocado que lhe dei, ia continuar sua bebedeira, dei de bom grado. Isso não quer dizer, porém, que ele não tenha um filho paraplégico morrendo de fome, mas não usou disso para conseguir dinheiro.

Noutro dia fui abordado por um rapaz que me pediu uns trocados para poder voltar para casa, pois tinha sido roubado. Outra história comumente usada por pedintes e malandros. Normalmente, como disse, não sou de dar, mas tendo a me compadecer de viajantes e por isso cogitei em lhe dar algo (de novo, porque sabia que tinha por acaso R$2,00 no bolso da calça). Perguntei de que cidade ele era. Respondeu-me que era de Urussanga. Para ver se não tinha dito qualquer coisa para conseguir o dinheiro, perguntei, a título de curiosidade, onde ficava Urussanga. Embora saiba onde é e conheça a cidade, me fiz de desentendido para ver o que ele ia responder. Ele respondeu que ficava perto de Tubarão, Jaguaruna e Cocal do Sul. Foi ao ter dito Cocal do Sul que me convenci (ainda que possa ter sido enganado) que ele estava dizendo a verdade. Não lhe dei só R$2,00, mas sim uma nota de 10 da minha carteira pelo simples motivo que acreditei estar ajudando alguém que precisa.

O bom samaritano, em tese, deve ajudar ao próximo
O bom samaritano, em tese, deve ajudar ao próximo

Voltemos, pois, à senhora. Ela precisava dos meus R$5,00? Sim, e com certeza mais do que eu. Me faria falta, por acaso, os R$20,00 se eu lhe desse? Não. Por que não dei então? Pela atitude dela. Por ela ter instituído e insistido em um preço fixo por um serviço não obrigatório em local público. Por ela ter desrespeitado a convenção social de ajuda mútua, através da qual ela tem sobrevivido e à qual eu teria acudido e ajudado sem maiores problemas.

No entanto, sei que digo isso do alto da minha situação econômica pequeno burguesa de quem sabe que com certeza terá um prato de comida hoje na mesa. Nunca estive na situação dela e não sei direito como é nem como me comportaria. Ver-se sem trabalho, sem recursos econômicos e na obrigação de manter uma família muda o pensamento das pessoas.

Por outro lado, imagino que possivelmente ela não esteve na minha situação.

O que fazer então? Por que não lhe dar os R$20,00? Nesse momento, entramos na velha questão ética de sempre: quanto se dá?; ou, se é para dar, por que não se dá tudo?

Uma vez eu estava em Porto Alegre com minha ex-namorada e um casal de amigos autóctonos. Fomos ao cine Guion assistir a Paris, je t’aime. Quando saímos, compramos uns pães de queijo na padoca do lado e fomos caminhando até a cantina italiana onde íamos jantar. Caminhando pela rua, cruzamos com um menino de rua que me pediu o pão de queijo que eu levava à boca. Não lhe dei justamente porque era meu último e o estava levando à boca, o que não deixa de ser um pouco egoísta da minha parte. Minha namorada se indignou comigo e demos início a uma discussão que estragou nossa noite. Ela me dizia que não entendia como alguém podia ser tão egoísta a ponto de negar comida a outra pessoa. Lá pelas tantas, quadras para frente, soltei a seguinte frase, que acabou com a discussão: “E me diz uma coisa, se eu sou tão egoísta (o que já reconheci) e você um ser humano tão melhor que eu, por que você não deu os teus pães  de queijo para ele ou então voltou lá e lhe comprou algo de comer?”

Caímos mais uma vez na velha questão ética. O que dar, quanto dar e por que não abrir nossa casa ao próximo? O ideal é dar o que se pode e quando se pode ou então ceder tudo que é nosso para ajudar os outros? Se o mais certo é a primeira opção, de certo modo eu não agi errado, pois só posso dar o que posso dar, de forma que dar a comida que estou levando à boca ou os R$20,00 à senhora excedia, para mim naquele momento, o conceito do “eu posso quando posso”. Se, por outro lado, o eticamente correto é dar de tudo, eu agi muito errado. Entretanto, não só agi errado naqueles momentos como também agi errado em todos os da minha vida, assim como minha ex-namorada e quase todas as pessoas que conheço, pois nenhum de nós abriu sua casa para sete desconhecidos a título de ajuda ao próximo, como teria feito Madre Teresa de Calcutá.

Madre Teresa
Madre Teresa

Ou seja, qual é o limite para se ajudar ao próximo?

Fiquei pensando nisso. Fiquei pensando naquilo que a senhora disse: “A consciência é sua!”.

Embora eu não ache que esteja errado, tampouco acho que estou certo. O que fazer num caso desses?

Texto de apoio: Os sentidos dos guardadores de carros

 

Anarquista revolucionário? 2 Outubro 2009

Lala, o ser saltitante e feliz que mora aqui em casa, diz que estou me tornando um anarquista revolucionário porque:

  • Andei lendo Hakim Bey, autor de Zona Autônoma Temporária;
  • Tenho conversado frequentemente com meu amigo João Arthur sobre como as bicicletas podem ser um símbolo anárquico;
Witfiets

Witfiets

  • Ando proliferando para lá e para cá um discurso antitrabalhista.

Lala diz que estou me tornando um anarquista. Acrescenta que tem a grande capacidade de reconhecer um anarquista germinando pelo simples fato de que ela própria já foi anarquista.

Estaria eu, pois, me tornando anarquista?

 

Mais sobre bicicletas 30 Setembro 2009

Arquivado em: Curitiba, Pensação — Maikon Augusto Delgado @ 06:41
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Antes que perguntem, é bem possível que eu esteja ficado obcecado também pelo assunto de bikes e mobilidade urbana. Vão aí três vídeos que assisti no site da Bicicletada Curitiba:

En svensk cykel

En svensk cykel

 

Posições e locais de leitura 25 Setembro 2009

Arquivado em: Pensação — Maikon Augusto Delgado @ 06:43
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Depois do post sobre o prazer da leitura que escrevi na segunda, fiquei pensando depois nas diferentes posições e locais para se ler:

Boa leitura!