Bons Ares

Tem dia que só amanhã!

Minhas impressões sobre Buenos Aires 16 Outubro 2009

Arquivado em: Argentina, Buenos Aires, Causo, Pensação — Maikon Augusto Delgado @ 13:51
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Paty Duim está passando suas férias em Buenos Aires e me mandou este texto com suas impressões sobre a cidade. Com seu aval, publico quase ipsis litteris seus pensamentos:

Viajar sempre é precioso e estou curtindo muito essa cidade em minha fantástica companhia, mais do que eu imaginava, podem ter certeza! Aliás, mal sabia eu que outubro talvez seja um dos melhores períodos para estar por aqui, afinal, com poucas excessões, os dias foram de sol e friozinho gostoso, com a primavera começando a mostrar a cara. Perfeito para andar nas ruas da cidade sem pressa, ou parar num desses tantos cafés que existem por aí. Estou em Buenos Aires há um pouco mais de uma semana e passarei mais alguns dias. Minhas andanças me dão condições suficientes, creio eu, para escrever algumas observações sobre as impressões que tive da cidade.

Mi Buenos Aires querida...

Mi Buenos Aires querida...

Buenos Aires é linda, convidativa e charmosa, é verdade. É uma cidade viva, de gente animada que me lembra um pouco do cosmopolitismo de São Paulo, mas com doses da imensidão visual de Brasília e do verde encantador de Curitiba. Aluguei um apartamento que me permite fazer a maioria das coisas a pé ou de metrô, o que ao meu ver é um previlégio (pela simples privação que tenho dessas coisas no meu dia-a-dia em Brasília). Mas, ao mesmo tempo, o apartamento em que estou me permite ver de camarote muita tristeza, pobreza  e desesperança. Estou muito perto do cruzamento de vários viadutos, no final (ou começo) da 9 de Julho. Viadutos estes que abrigam grupos de sem-teto, que parecem estar aumentando criticamente por aqui, pelo que entendi. Houve uma noite, em particular, que choveu muito, mas muito mesmo. Toró fortissimo, com direito a ventos fortes e trovões. Assisti calada e de camarote a desgraça dos sem-teto da varanda do segundo andar. Eles tentavam se esconder de tudo, do vento, da chuva, do frio, da fome. A pobreza é algo explícito nas ruas de Buenos Aires, principalmente para aqueles que, como eu, tem a possibilidade de percorrê-la a pé. Esses dias tentei contar o número de mendigos que vi, em uma hora de caminhada pelas ruas do centro. Desisti. São dezenas que vivem no centro da cidade, muitos deles idosos. Nos finais de semana e feriados, quando as ruas estão vazias de pessoas, é mais fácil perceber que a coisa por aqui não anda das melhores.

A maioria dos meus dias foram de muitas caminhadas silenciosas por todos os cantos da cidade, em busca de endereços para as entrevistas da minha pesquisa ou simplesmente de andanças a toa mesmo. Houve dias que andei 6 horas direto, só parando para tomar um café con leche y três medias lunas, por favor. Uma delícia! Fazia tempo que eu não sentia gosto em cruzar com as pessoas na rua, no metrô, no café. Gosto de me sentir parte da cidade, como uma observadora atenta. Me dá prazer o simples fato de olhar os traços de cada um, de perceber os detalhes que nos fazem diferentes ou próximos, escutar conversas e tentar entendê-las pelas poucas palavras em tons mais altos que aparecem nesse jeito tão particular de falar dos porteños. Eis aí uma das vantagens de viajar sozinha: a percepção fica mais aguçada e teus passos te levam a qualquer lugar. Pra conhecer Buenos Aires basta ganas de andar e se perder na beleza arquitetônica da cidade, das lindas avenidas, com surpresas a cada esquina, do Cemitério da Recoleta ou das chiquitas calles da charmosa San Telmo, com suas varandas cheias de flores.

Viejito porteño

Viejito porteño

Pois aqui há também uma beleza gastronômica especial. Principalmente para os carnívoros. Minha maior insatisfação de almoçar ou jantar sozinha não é o simples fato de estar só, mas o fato de que que é impossível dar conta sozinha de uma refeição porteña. Um bife pequeno de chorizo é impossível pra mim. IM-POS-SÍ-VEL. O maior bife de chorizo que comi era um que constava no cardápio como “mini-bife”. Una pequeñita porción, falou a garçonete. Pois imaginem os outros. Bom, talvez o exageiro da Família Faraco-Benthien tenha origens porteñas, quizás. Además, tudo é uma delícia. Até cheguei a pedir empanadas por telefone. Arrisquei llamar por teléfono a um delivery perto de onde estou. Entregaram bonitinho em meia hora, pela bagatela de 10 reais. Que delícia! Nhami-nhami! Aliás, Duínzinho porteño de mi corazõn tiene razón, os helados são deliciosos. Muito mais gostosos que os brasileiros! Dificil explicar porquê.

Além de Buenos Aires, fiz um passeio inesquecível por uma cidadezinha chamada Tigre. A cidade fica a aproximadamente uma hora de trem de Buenos Aires. Fica na beira de um rio, onde é possível fazer um passeio de barco pelo Delta do Tigre. O lugar tem uma formação bem particular, onde há várias pequenas ilhotas que abringam casas de final de semana e veraneio. Juro que foi facinho-facinho me ver em uma daquelas casas de madeira (em especial de uma chamada “Utopia”), na beira do rio, lá com meus 80 anos em uma cadeira de balanço. O que há mais que se querer nessa vida…

Aposentadoria em Tigre

Aposentadoria em Tigre

 

Argentina 1 x 3 Brasil 28 Setembro 2009

Arquivado em: Buenos Aires, Causo, Texto — Maikon Augusto Delgado @ 06:20
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Ou do dia em que vi a Argentina ser sucrilhada no futebol estando eu rodeado de 20 argentinos


Era uma vez um brasileiro perdido em Buenos Aires.

Era uma vez um certo Magoo indo a um típico churrasco argentino, onde, além dos chorizos, bondiolitas y chinchulines, o prato principal seria zoar até não poder mais do pobre tupiniquim que tinha tido a audácia de ir assistir ao jogo da Argentina e Brasil na casa de um argentino doente com mais 20 outros argentinos fanáticos por fútbol.

Dias antes Camilo Pacotilla já os tinha atiçado por mail. O meliante começou no dia 3 de setembro disparando o seguinte para os amigos que eu viria a encontrar no churrasco:

no es para tanto chicos….
http://www.ole.clarin.com/notas/2009/09/03/seleccion/01991437.html
no se desesperen que es solo un partido.
total lo que vale, que es el mundial, no lo van a ganar ni en pedo!

igualmente, recuerdense:
a) si el sabado gana Brasil, algun telefono porteño va a sonar (a prop, Nena, gracias por el tuyo)
b) si pierde Brasil, tienen a Magoo allí. Disfrutenlo!
hahahahha

Em outras palavras, o filho da p… zoou com os hermanos e ainda me jogou na fogueira. No dia seguinte (4 de setembro), um dos argentinos respondeu com uma ameaça:

Vas a querer matarte mañana Magoo!!!
Y vos maricona te haces el banana desde lejos! En noviembre cobras! jaja
Abrazo!

Eu, já prevendo o pior, não me deixei diminuir e lancei:

Preparate, porque si ganamos me vas a tener que soportar! Si perdimos, estoy cagado.

Sabia que se perdéssemos eu seria quase linchado em praça pública.

Chega, pois, o dia do jogo. A partida era pelas 22h. Marquei de chegar à casa da Nena às 19h. Tomaríamos um mate, conversaríamos e veríamos como ir até o churrasco. Nena mora em Caballito e o Santi mora em Liniers. São quase 10km de distância.

Acudimos à casa do Santi cerca de 10 minutos antes do começo do jogo. Mal entrei na casa e já começaram a me zoar:

¡Brasileño de mierda! ¡Te vamos a cagar mal!

Hay que tener muchos cojones para venir acá, ¿eh?

A exemplo do Dunga nas entrevistas coletiva, me reservei o direito de não comentar nada e fiquei quieto.

O jogo começou, se me lembro bem, e o Messi já quase fez um gol num chutaço. Gritaria geral entre os argentinos. Eu, já no primeiro minuto do jogo, comecei a ver meu espírito zen indo pro beleléu.

A Argentina pressionou desde o primeiro minuto. Sufoco atrás de sufoco. Até que, aos 24 minutos, Luisão faz um golaço de cabeça. Confesso que esqueci que estava entre argentinos e gritei GOOOL! bem alto. Pulei da cadeira com os braços levantados, sorriso no rosto.

Minutos depois, tocou o celular do Pipi. Era o Camilo enchendo o saco!

Quando olhei para o lados, silêncio mortal na sala e inúmeros olhares cheios de ódio na minha direção! A cara de decepção e fúria era geral.

Tão pesado era o silêncio que se contrapunha à minha gritaria que me dei conta no ato do pecado mortal que tinha cometido. Fechei o bico, sentei novamente e olhei para a Nena, que me fez sinal de calmate o te van a pegar. É óbvio que não iam me bater, afinal de contas estávamos entre amigos e conhecidos, mas minha gritaria poderia gerar inimizades e mal-estares. Me contive e continuei assistindo ao jogo a gestos miúdos.

Seis minutos depois, em outra jogada aérea, Luis Fabiano pegou o rebote e marcou o segundo. Dessa vez, já prevenido, tão-somente levantei os braços e disse gol em voz baixa. Nem me levantei da cadeira. Embora todos estivessem me olhando com a mesma cara de silêncio de antes, não lhes dei motivo para nada.

Vem o intervalo e o clima deu uma melhorada. Vieram umas hamburguesas, comemos uns chorizitos e discutimos civilizadamente o jogo. Embora não saiba muito de futegol, lhes dizia: “Uma das jogadas do Brasil é bola aérea, porque temos muita gente que cabeceia bem. Outra coisa é marcar o Luis Fabiano, cuja marca principal é oportunismo e arremates de primeira”.

Começou o segundo tempo e todos os argentinos estavam esperançosos. A seleção celeste veio para cima desde o começo. Aos 20 minutos, Dátolo soltou um petardo e marcou um golaço.

Euforia total entre os hermanos. Foi um griterío de puta madre. Todos pularam sobre mim e começaram a me zoar:

!Vamos a ganar, hijo de puta!

¡Allí vamos!

¡Sostenete!

Quase não conseguia ouvir os meus próprios pensamentos de tanto barulho que aqueles infelizes estavam fazendo. Ouvi promessas, ameaças… Começaram, inclusive, a dançar samba para comemorar o gol (estranha maneira de fazê-lo).

Mas não deu outra. Meu vaticínio se consolidou um minuto depois, com um lançamento do Kaká e totó de cobertura de primeira do Luis Fabuloso. Se nos gols anteriores do Brasil tinha se feito um silêncio, dessa vez a ausência de sons, em contraste com a gritaria de um minuto antes, foi ensurdecedora. Eu não só conseguia de novo ouvir meus pensamentos como também as batidas do meu coração e a respiração de quem estava sentado do meu lado.

Comemorei, mais uma vez, com um leve levantar de braços e um resmungo de gol. Ninguém nem se dignou a olhar na minha cara. Sabiam que com aquele gol o jogo estava perdido e que a seleção argentina se meteria numa situação complicada.

O assunto simplesmente mudou de rumo. Ninguém mais falou do jogo, mal quiseram assistir ao final e começaram a se preocupar com a carne que iam comer. Eu, da minha parte, fiquei, dentro do possível, quieto mas com um sorriso brejeiro no rosto e feliz por ter sobrevivido ao jogo.

 

Ciudad Jardín 18 Setembro 2009

Arquivado em: Argentina, Buenos Aires, Texto — Maikon Augusto Delgado @ 07:27
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Um dos “bairros” mais lindos que conheci no conurbano bonairense é Ciudad Jardín. Ao lado de Martín Coronado, o limite se dá pela linha do trem.

Minhas visitas a Ciudad Jardín se deram aos poucos. Primeiro fui levado pelo Príncipe Pooh para comer no El Quebracho e posterior passeio pelo bairro/cidade. Em seguida, comecei a frequentar o mesmo restaurante e percorrer as ruas. Por fim, fui levado pela Ari para Ciudad Jardín profunda.

Ladeamos o Colegio Militar de la Nación, onde todos os militares argentinos de mais alto escalão são formados, as ruelas com casas em estilo argentino, alemão e inglês e conhecemos a pracinha principal, onde o casal que me recebeu pretende um dia ainda ir morar.

Plazoleta en Ciudad Jardín

Plazoleta en Ciudad Jardín

Debaixo desta placa de cerveja jantei no meu último dia de estadia, num restaurante japonês mais familiar, com quatro mesas.

Ao chegar a esta praça, a impressão que se tem é que se está em uma cidadezinha do interior da Europa. Charmosa. De aí saem ruelas arborizadas no mesmo estilo.

Ciudad Jardín tem duas características peculiares. A primeira é que suas ruas tem nomes de plantas, flores ou aviadores. A segunda é que lá está cheio de alemães nazistas fugidos da Alemanha pós-guerra. Não é difícil encontrar alguma casa com fachada alemã ou ouvir alguém falando Deutsch nos bares…

- Sprechen sie deutsch?

- No, boludo, la verdad que castellano peorro!

 

Conurbano bonairense 16 Setembro 2009

Sobrevoar Buenos Aires é chocar-se com o seu tamanho. A cidade em si não é tão grande, mas o conurbano é enorme.

É óbvio que não chega às dimensões colossais de São Paulo, mas tampouco está muito longe.

A cidade em si (Capital Federal) deve ter hoje em dia uns 5 milhões de habitantes, ao passo que a Gran Buenos Aires chega já quase a 18 milhões. Metade da população de um país em uma única urbe.

A primeira vez que visitei a cidade, momento no qual me disse que um dia ainda voltaria para morar, foi em 2004. Lembro que já tinha a impressão, para alguém saído de Curitiba, que a extensão da capital portenha era já maior do que eu podia abarcar.

Em 2006, quando me mudei para lá, Buenos Aires já estava maior. Durante o ano e meio em que vivia diariamente a cidade, construí minha vida em Caballito e nos bairros da zona norte. É preciso, nas cidades grandes, restringir a mobilidade a áreas. Ter a cidade inteira como limite é loucura.

Tirando Ramos Mejía, Olivos e idas esparsas a Hurlingham, minha vida se deu sobretudo em Caballito e zona norte, minha área de abrangência.

Nesta última viagem, extendi minha área de abrangência ao conurbano bonairense por ter me hospedado em Martín Coronado na casa da Ari e do Príncipe Pooh.

Para falar a verdade, transladei meus limites. Ao invés de ficar passeando por Barrio Norte, Palermo e Belgrano, conheci uma parte do imenso conurbano bonairense, que é ainda mais caótico que a capital.

No melhor estilo argentino, é claro.

Levado pela Ari como copiloto, fomos por Coronado, Hurlingham, Ciudad Jardín, Palomar, Pilar, Bella Vista, Villa Bosch, Caseros, Haedo, Ciudadela, Morón, Tres de Febrero, Munro, Vicente López, etc.

Continuei ainda pela zona norte, mas agora conurbano adentro. Descobri outra Buenos Aires. Descobri também um argentino diferente, o bonairense.

Se o portenho é conhecedor da sua cidade (como de fato são), o bonairense é mais, porque conhece a capital e os arredores. Se o portenho se acha malandro na sua portenhice, o bonairense é muito mais, pois lida diariamente com tudo que vem de Buenos Aires e ainda dá conta de toda a malandragem (mais malandra ainda) do conurbano.

É nos arredores da capital que se pode ver a latinidade mais visivelmente. Em cada kiosco, locutorio e vagões de trem se ouve cumbia e reggaeton. É a América Latina transbordando nas conversações, nos rostos, nos cheiros, nos sabores.

Ter a oportunidade de conhecer um pouco do conurbano foi uma surpresa para mim. Leva-se outra vida lá, mais difícil, mais barulhenta, mais suja e mais batalhadora. A grande maioria das pessoas que vivem no conurbano se deslocam diariamente a Buenos Aires para trabalhar. Passam meio hora nos trens e mais uma hora nos ônibus. Saem cedo de casa e voltam bem de noite.

Se Buenos Aires é a cidade da fúria, o conurbano é da fúria quase desmedida e enlouquecida. Tomar o trem nos horários de pico é sentir isso na pele.

Em geral, o bonairense, se pode, tenta evitar de ir a Buenos Aires. Procura, assim como eu quando vivia em Caballito, a restringir sua vida pelos seus arredores. Entre tomar o trem, pegar um ônibus e se preocupar com a hora da volta, acaba preferindo tomar uma cerveza em Hurlingham, em alguns dos simpáticos bares de estilo inglês (Hurlingham é “cidade” de muita imigração inglesa, cheia de Mc, O’ e sobrenomes do gênero), para decir algo.

Depois que passei alguns dias vivendo a vida do bonairense, deixei cair por terra o mito do conurbano como uma zona necessariamente perigosa. Há, é claro, regiões onde não se aconselha nem passar perto, mas há outras lindas, quase que como saídas de um filme.

O conurbano é uma imensidão de facetas. Coronado tem a sua.

Martín Coronado en el cruce del tren

Martín Coronado en el cruce del tren (passei 15 dias a duas quadras daí)

 

De volta a Curitiba 14 Setembro 2009

Arquivado em: Argentina, Buenos Aires, Pensação, Texto — Maikon Augusto Delgado @ 10:38
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De volta à capital do pinhão, eis-me aqui numa estranha fase, em que não sinto necessariamente falta de Buenos Aires mas que tampouco estou como se já tivesse chegado… É um meio termo, uma sensação inóspita e anódina.

De certa forma, ainda estou processando os dias passados em Buenos Aires, matutando as mudanças e refletindo sobre o passado. Coisas que vivo fazendo.

Como a minha viagem para a capital argentina não foi por motivo de turismo, nem me dei ao trabalho de levar máquina fotográfica. Para mim, é como se estivesse voltando para casa, para uma cidade do interior onde tivesse crescido.

Não cresci em Buenos Aires, mas sinto como se lá fosse, embora não queira voltar, a minha casa por predileção e escolha.

Sabina já dizia que al lugar donde fuiste feliz no debes volver jamás. Ele tinha razão.

Por um lado, eu o contrariei ao voltar. Por outro lado, não, já que a cidade onde fui feliz não existe mais, porque se encontra num tempo determinado, tempo o qual ficou para trás. A Buenos Aires que encontrei continua no mesmo lugar, mas não no mesmo tempo.

A cidade mudou. Eu mudei.

Av. Libertador em Buenos Aires

Av. Libertador em Buenos Aires


 

28 anos 9 Setembro 2009

Arquivado em: Argentina, Buenos Aires, Pensação — Maikon Augusto Delgado @ 07:47
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Hoje comemoro 28 anos de vida. Pensei em escrever um post comemorativo, a exemplo do que fiz nos últimos anos. Optei, porém, por não fazê-lo. Resolvi tão-somente deixar aqui uns versos que meu compadre de aventuras Camilo Paquita deixou como dedicatória do livro que me deu de presente. Segundo ele, são palavras de uma máxima Saharaui, retiradas do Tuareg, de Alberto Vásquez-Figueroa:

El guerrero que se distrae

pensando en lo que hará

después de la batalla

perderá la batalla,

y el viajero que se distrae

pensando en lo que hará

al final del viaje

jamás llegará a su destino.

Tuareg

Tuareg

 

Mi Caballito querida 4 Setembro 2009

Arquivado em: Argentina, Buenos Aires, Caballito, Pensação — Maikon Augusto Delgado @ 06:33
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Metade da estadia já se passou. Os amigos que queria ver já vi quase todos. Faltam alguns ainda, que pretendo ver nos próximos dias. Já comi empanadas, fainas, milanezas e bifes de chorizo, já tomei Quilmes, já passeei pela cidade, já peguei metrô, trem e ônibus (inclusive o 42). E também já fiz o mais importante, que foi retornar a Caballito e passear pelas suas ruas.

Buenos Aires, para mim, é sinônimo mais que nada de Caballito. Foi lá onde morava, foi lá onde pegava o 42 ou o 55 para ir para as aulas, foi lá em que ia aos sebos, foi lá onde fiquei amigo dos verdureiros, dos parrileros e das meninas da lavanderia.

Foi em Caballito onde recebemos quase 30 visitas de fora do país ao longo dos meses que moramos na Argentina. Foi lá onde muitas coisas começaram e onde muitas terminaram…

Camilo já havia voltado ao bairro, mas eu ainda não. Eu precisava voltar a sentir o bairro para entender algumas coisas e fechar outras.

E entendi e fechei.

 

Veranito de San Juan 2 Setembro 2009

Arquivado em: Argentina, Buenos Aires — Maikon Augusto Delgado @ 07:30
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Antes de vir, falei com minha amiga por mail e lhe perguntei do clima, que sabia que estava frio. Me disse: traete abrigo y bufanda, porque nos estamos cagando de frio.

Como um bom menino, fiz o que ela me disse. Em Curitiba, embarquei com blusa de la e jaqueta. Em Asunción, onde fizemos uma parada, senti o calor que fazia, mas pensei: não há de ser nada.

Foi quando desembarquei em Ezeiza e senti aquele bafo vindo de fora do avião que me disse: la re puta que la parió, qué calor de putísima madre. Fazia 29 graus em Buenos Aires. Nem preciso dizer que a essa altura já estava suando e xingando minha amiga.

Nos dias seguintes, o calor só aumentou. 30 graus, 32 graus, 34 graus. 34 putos graus! Eu estava derretendo. Sombra e água fresca era a única coisa que podia querer.

Esses dias de calor no final de agosto, mês de muito frio em Buenos Ares, são conhecidos como veranito de San Juan. Em meio à friaca de júlio e agosto, alguns dias de calor para, ao quinta dia, dar lugar à tormenta de Santa Rosa, em que um pé-d’água homérico com granizo cai e restaura novamente o frio em Buenos Aires.

Em 2006, quando Camilo e eu chegamos aqui, pegamos veranito de San Juan e tormenta de Santa Rosa sem nem sabermos o que era. Por sorte, no dia em que o tempo virou, estávamos em casa lendo jornal e procurando apartamento. As pedras de gelo que caíam eram tão grandes que quebraram vidros, telhas, para-brisas e arruinaram os tetos dos carros que estavam pelo rua. Assim que voltar ao Brasil, ponho na internet o vídeo que fiz.

Pelo que diz a TV, esta semana será de chuva e temperaturas por volta dos 14 graus, e na semana que vem é possível que venha um frio de lascar. Confesso que é o que estou esperando.

 

Buenos Aires é muito mais charmosa no frio. Cachecol eu trouxe…

 

Buenos Aires mudou 31 Agosto 2009

Arquivado em: Argentina, Buenos Aires — Maikon Augusto Delgado @ 12:29
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Se tivesse que dizer alguma coisa sobre meus primeiros dias na Argentina, eu diria que Buenos Aires mudou. 

Continuam existindo os cafés típicos, continuam existindo três ou quatro maxikioscos em cada quadra, continuam falando “dale, boludo, qué hacé?” pela rua.

Mas também ocorreram inúmeras mudanças. Inúmeras. A crise do fim do ano repercutiu muito aqui. Argentina no anda bien, che!

As mudanças se fazem ver nas ruas, nas esquinas.

O primeiro que notei foi a sujeira. Por todos os lados, Buenos Aires ficou mais suja. Já tinha o seu quê de sujo há dois anos, mas esse nível aumentou muito. Talvez não tão aparentemente nos bairros mais chetos (e mesmo assim, para mim, é visível), mas muito na província, na grande Buenos Aires, para onde as pessoas têm ido para fugir dos altos preços da capital.

A segunda mudança que notei são as bicicletas. Muitas delas dividindo as ruas com os carros e ônibus. Todos, é claro, enlouquecidos. Não estão lá porque a cidade se pôs mais saudável e mais consciente dos problemas de transporte. As pessoas estão pedalando, isso me dizem os próprios argentinos, porque os preços subiram e para muitos já não vale mais a pena pegar ônibus ou metrô. Este, que estava 0,70 centavos, agora está 1,10. O ônibus subiu de 0,80 para 1,20. O trem de 0,70 para 1,10.

A terceira foi a quantidade de carros que tem nas ruas. Engarrafamentos e mais engarrafamentos em todos os lugares. As rodovias (autopistas) que circundam Buenos Aires se transformaram em um caos digno de São Paulo. Indo de Ezeiza para Martin Coronado (línea Urquiza), onde estou hospedado, vi engarrafamentos quilométricos. Parecia que os carros saíam pela culatra… Somente as motos eram capazes de andar em uma velocidade baixa constante. Pelo que me contaram, aconteceu na Argentina o mesmo que no Brasil. Para conter a crise nas indústrias de base, criaram incentivos fiscais de compra de automóveis, e todos estão comprando carros (usados e novos).

A última mudança, e a que me deixou mais triste, foi encontrar muitos mendigos na rua. Nos bairros em que já havia (como Constitución) agora tem muito mais. Em muitos bairros residenciais, onde nunca havia visto sequer um mendigo ou criança de rua, se instalaram nas esquinas, nos cantos de calcadas e ali dormem. Em Palermo, para os lados da Av. Corrientes, chegam a se amontoar uns ao lado dos outros. Reflexo contundente da crise, da qual a Argentina não parece ter se recuperado ainda. E não só mendigos, mas também muitos pedintes. Cada vez mais os hermanos estão ficando parecidos com o Brasil.

Buenos Aires mudou, e muito.

 

Je ne regrette rien de rien 1 Julho 2009

Arquivado em: Pensação, Texto — Maikon Augusto Delgado @ 19:58
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Edith já dizia que não se deve arrepender de nada, João Arthur (grande amigo meu) vive dizendo que tudo na vida deve ser feito de tal maneira para que depois não haja lugar para arrependimento, e alguém famoso cujo nome não lembro vivia pregando que não se arrependia de nada do que tinha feito, mas sim do que não fizera.

Eu sim me arrependo de algumas coisas que fiz. Sei que, se almejasse a perfeição, isso deveria ser a última coisa a dizer, mas digo e confesso: há coisas das quais me arrependo ter feito. Às vezes, sinceridade é mais importante que perfeição.

Digo isso porque esses dias me arrependi profundamente de uma coisa que fiz, a qual não não vou revelar. Dizem as más línguas que só se pode revelar algo se esse algo não pode mais te afetar, quando muito.

Há particularmente quatro coisas de que me arrependo mais:

1. Ter dito uma coisa a (…) num momento de discussão, que acabou culminando numa briga homérica que tivemos e, por conseguinte, no fim do nosso relacionamento. Por mais que hoje em dia eu ache que não éramos feitos um para o outro, eu gostava muito daquela menina…

2. Ter voltado da França. Não me arrependo de ter agido como agi, mas sim de não ter ficado por lá, procurado um emprego e ter dado a cara à tapa.

3. Não ter ido encontrar a cubana, a seu convite, na casa dos seus amigos nos arredores de Amsterdam quando estive por lá.

4. Ter voltado da Argentina. Mais uma vez, não me arrependo de não ter terminado o curso de cinema, mas sim de ter deixado a cidade que dentre todas eu tinha escolhido para morar e viver, que foi onde mais me senti em casa e à vontade.

Algumas pessoas que me conhecem podem se perguntar:

Você não se arrepende de ter largado filosofia faltando pouco para terminar? Não.

Você não se arrepende então de ter começado filosofia? Não.

Não se arrepende de não ter ido morar em Nancy com a S.? Também não.

Não se arrepende de não ter aceitado aquele emprego de revisor-chefe de um jornal do interior de Santa Catarina? Não.

Não me arrependo porque ou não era o momento de fazer ou eu não estava preparado ou o fruto da decisão acabou me trazendo muitas coisas boas. Mas me arrependo sim dessas quatro coisas que elenquei acima, porque sei que são coisas que levei tempo para construir e que demandaram muito esforço e dedicação. À exceção, é claro, do caso da cubana, do qual me arrependo porque foi uma oportunidade única na vida, à qual não dei ouvidos e que provavelmente nunca mais vai se repetir. Eu tenho certeza que teria rolado uma história marcante entre nós.

De qualquer forma, arrepender-se é algo com que aprendi a lidar, até mesmo porque não tem volta. Concordo que a filosofia por detrás de “je ne regrette rien” é acertada, mas infelizmente eu ainda não cheguei a esse nível de sabedoria…