Um paradoxo: os novos moradores de Caballito

Posted on 10 fevereiro 2007

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Mal chego em casa de volta e vejo mudanças em Petit Cheval. Penso comigo: “Que diacho é isso?” Novos moradores aqui na rua? De onde surgiram? Pimpocaram que nem vão pipocar o rebento Dudu ou o leitãozinho da gostosa da Jacque ou já vinham programando isso há tempos? Será que fiquei só um mês ou acabei passando mais e não vi? Bem que estava bom demais no Brasil.
Comecei a andar pela rua e vi que esse não era um privilégio da minha rua, mas sim de Buenos Aires. Aí pensei cá com os meus botões: “Mas será que eles formaram um sindicato para terem tido uma decisão tão simultânea? Será que se organizaram a este ponto?” Também não sabia a resposta. O que sei é que todos os dias, quando saio de casa, vejo-os todos, normalmente, cada um em seu lugar, como se fossem soldados de prontidão.

O primeiro novo “morador” da rua, que me chocou muito, já que se vê pouco disso aqui em Buenos Aires e menos ainda no meu bairro, foi um mendigo. Um senhor de uns 50 anos, barbudo, despenteado, sujo e fedendo a cachaça, que dorme encostado no muro do prédio vizinho ao meu. Durante o dia ele passa sentado do lado da porta do mercado pedindo esmola.

O segundo morador, que também não sei de onde saiu, foi o flanelinha da rua. Eu, que nunca tinha visto um flanelinha em Buenos Aires, fui logo me encontrar com um na porta da minha casa. Ele estava de pé, com uma flanela laranja na mão (juro!) ajudando uma mulher barbeiríssima a estacionar o carro dela, um Fox. Por mais que seja um carro grandinho, na vaga cabia uma D-20, e mesmo assim a mulher e o flanelinha tiveram muito, mas muito trabalho para conseguirem pôr o carro na vaga. Detalhe: entre a beirada do carro e o meio-fio tinha espaço para pôr uma cadeira de praia de lado! Pois é, então, que o primeiro e novo flanelinha de Caballito passa o dia todo na rua à la Índio. Que o Índio, que é uma assumidade nessa área (lembrem-se que flanelinha é profissão mas historiador não), não fique chateado de eu compará-lo ao flanelinha aqui da rua.

Os terceiros moradores da rua são uma família inteira, composta por mãe e três filhos, sendo um de colo. Do nada apareceram na rua e passam o dia aí. A mãe fica sentada enquanto os filhos, todos remelentos e com os narizes escorrendo, vêm pedir esmola a todos e qualquer um. No entanto, como não tem muito disso aqui, ninguém parece dar dinheiro ou se apiedar. Os portenhos parecem mais ter medo que pena ou dó dos pedintes. Eu me isento de dar a minha opinião, já que cheguei ao ponto em que me pediram tanto e disse respeituosamente que não que nem mais respondo e passo reto. É triste, mas é assim. E não é que te pedem 10 centavos. Te pedem um peso, dois. Tampouco pedem, ouvem que você não tem e vãoembora. Ficam no teu pé, te seguindo por metros até ou você dar o dinheiro ou ignorá-los a tal ponto que desistam por sentir-se mal. Foda, muito foda.

Pois é. Duas das impressões que tive da Argentina ao voltar, não sei por quê, foram de que o país ficou subitamente mais pobre, da noite para o dia, e que, por conta disso, importaram estratégias de trabalho brasileiras (não que isso seja um motivo de orgulho nosso).

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