Pileta

Posted on 19 maio 2007

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Toda vez que se começa um curso ou aulas de algo, depara-se com um microcosmo novo, cheio de detalhes. Ter começado a nadar não fugiu à regra. Sim, comecei a nadar. Quem diria, não? Ainda mais porque já fazia uns tantos anos que eu não fazia um exercício físico com periodicidade. O último de que lembro foram os futebinhas mistos de vez em quando no Cachorródromo. Antes disso, só mesmo as jogos de hóquei e os babas batidos ali no campinho da ex-Florestal. E como foi essa volta aos esportes?, devem estar se perguntando vocês. Patética. Não tinha, porque agora já melhorei um pouquinho, fôlego para nada. Nem nadar até o fim da piscina eu conseguia quando comecei. Chegava na metade já pedindo água (água?). Detalhe básico e humilhante: a piscina não tem mais de 20 metros. Economizem os seus comentários porque eu já os usei todos contra mim mesmo injuriando-me.

Hoje em dia já deve estar fazendo um mês e meio mais ou menos, ou quem sabe dois, de que comecei a fazer aulas de natação. Obviamente, como não poderia ser diferente, estou no nível 1, nível para os iniciantes que nem boiar sabem (isso pelo menos eu sabia fazer). E acho que fiz muito certo, não tenho dúvidas. Por mais que soubesse que não sabia nada, achava que algo eu conhecia da lida. Que nada! Nadava tudo errado, com os movimentos trocados. Desastre! Mas, como um bom aluno que sou, dedicado até me encher o saco, fui tratando de aprender o que foram me ensinando.

Antes de continuar brindando-lhes com minhas maravilhosas observações da Pileta de Little Horse, preciso fazer uma ressalva seríssima. Como estou na Argentina e os argentinos, por uma simples questão de costume, falam castelhano, tenho aprendido os nomes das coisas relacionadas à natação em espanhol, de forma que, mesmo que quisesse, não saberia dizer quais seriam os equivalentes em português dos termos que vou empregar. Coisas de quem mora fora. É o mesmo acontece com uma série de coisas de cinema, que sei chamar em espanhol mas não sei em português.

Voltando, então, à historinha para boi dormir, em primeiro lugar aprendi as patadas de espalda. Depois, as patadas de crawl, que são a mesma coisa mas você de barriga para baixo. Aprendi a respirar para nadar (nem tinha idéia de que havia uma maneira correta de respirar quando se nada). Em seguida, com o decorrer das aulas, aprendi a dar brazadas de pecho, de crawl e de espaldas. Nesta semana, o que aprendi foi a tirarme, nado subacuático e patadas de pecho.

No entanto, não são essas coisas que estou aprendendo o mais divertido de ir nadar. De maneira nenhuma. O mais legal é o ambiente, as pessoas e as coisas que acontecem comigo ao ir a la pileta. A primeira delas e a que mais me dá pano para manga em todos os sentidos, tanto muito ruins como bons, é o fato, não-modificável e assaz óbvio, de que não posso entrar na piscina de óculos. Posso e levo os óculos de natação que o Camilo me emprestou, mas elas não têm grau. Sim, senhores, exatamente isso: Mister Magoo à solta na pileta pode ser perigosíssimo. E então como faço eu, um cegueta convicto desde que estava na sexta série, cujos óculos já não são mais utensílios básicos da minha vida mas parte de mim, para me encontrar lá dentro? Confesso que nem eu sei. No primeiro dia, ter que tirar os óculos e me locomover, que fosse dez centímetros, foi uma angústia danada. Sorte que estava com Camilo e fui seguindo a toca verde e amarela dele. Nos outros dias, fui meio que por instinto. Mas o problema maior não está em se locomover. Não, não! O problema maior está em reconhecer as pessoas. Como tenho quase 5 graus de miopia e mais uns quase dois de astigmatismo, me cuesta reconecer a la gente, sí, sí, sí. É, meus caros, tem gente lá que até hoje não sei como é. Pensem que não poder ver já é um suplício. Depois, estar de óculos de natação já diminui em muito a tua visão. Por fim, ver aos outros de óculos e toca, para mim é quase impossível reconhecer os rostros. Hoje em dia meio que sei quem é quem pelo tom de voz, pela roupa que estão vestindo, pela cor da gorra, pelo tipo do óculos, mas não pelo rosto. Infernal! Isso com os “coleguinhas”, porque com os professores é pior, já que eles não entram na piscina, fica ainda mais difícil para eu vê-los, dada a distância da água à altura deles de pé na borda da piscina. Confesso que há uma professora que até hoje não sei como é. Já devo tê-la ignorado algumas vezes, porque não conheço o seu rosto, de forma que não duvido que ela pense que eu sou um mal-educado, brasileiro de merda que nunca a cumprimenta. Ela e muitos de meus colegas devem pensar o mesmo. Bom, que posso fazer eu? Não foi uma vez que cumprimentei alguém achando que já conhecia e depois me dei conta que não. Resolvi, então, dada esta dificuldade minha, esperar que as pessoas me cumprimentem. É o jeito.

Os óculos são, sem sombra de dúvida, meus maiores problemas. E, aqui, é necessário fazer outra ressalva. Como algumas das observações que farei são histórias ou coisas da piscina, é preciso dizer que posso estar me enganando, já que confundi uma pessoa com outra, ou tão simplesmente que vi mal e fiquei achando uma coisa quando era outra. Agora, não acho que isso seja um problema. É justamente nestes detalhes que posso estar perdendo que me divirto montando um quebra-cabeça aqui dentro desta cachola expedidora de elocubrações. Se é verdade ou não, tanto faz, o que importa é que a história seja legal, não é?

Levando isto em conta, continuemos com ela. Das minhas idas à piscina, já saquei algumas coisas no ar: a grande parte dos velhinhos (leia-se homens do sexo masculino) que fazem natação individual, procuram sempre pegar uma professora morena (só sei que ela é morena; nem bonita sei se é, já que não vejo una poronga). Hoje mesmo, peguei a raia mais do canto e fiquei do lado da raia de dois velhos que tinham aula particular. Aula particular é só jeito de falar, porque a última coisa que os velhinhos queriam fazer ali era nadar. Sim, senhores e senhoras, garotos e garotas, gatos, cachorros e Mr. Bones, os velhotes estavam dando em cima da menininha, só de conversê, falando para ela entrar na água, perguntando se tinha namorado, se ia sair hoje, se gostava de ir ao cinema. Conversa fiada para boi dormir. Artimanhas que o epa usava para pegar as nonas dos outros. Bando de véio tarado, isso sim é o que são aqueles lá. E, até onde soube, não são os únicos. Tem mais outros que ficam dando em cima desta assediada professorinha. Melhor para ela, que tem alunos de sobra e, se não for boba, tira proveito disso e uma graninha dando aula particular.

Outro causo são as jovencitas de uns 30 anos que fazem natação comigo. Como sempre vou em uns horários estranhos, geralmente faço aula com velhinhos. Até aí, nenhum problema. O problema mesmo são as mulheres de 30 na piscina. Puta merda, que bando de chata. Não sei se porque já estão sentindo que já não são mais novinhas e querem se provar algo, sempre ficam se metendo na frente dos outros na piscina, na hora de sair, ficar reclamando que os mais velhos são lentos e que parecem umas bóias gordas (o que, em alguns caso, é verdade) e que só as atrapalham. Não que, em alguma medida, elas não tenham razão, mas isso não é coisa que se diga em voz alta, não é mesmo. Mamãe ensinou que coisas feias assim a gente guarda para si. Eu me ensinei que só quando se quer espezinhar alguém é que tem que soltar uma dessas. Acho sim é que elas estão precisando ler Balzac!

Por fim, mas não menos importantes, os velhos. Bah!, os velhos. Quase todos são gente finíssima e me cumprimentam sempre. Tem uns até que nadam mais que todos nós juntos. Os bichos não param. No entanto, sempre tem um velho chato (Piper, cuidado que seremos assim quando velhos) que não param de se queixar, de dizer que a água ou está muito fria ou está muito quente, que a bóias deslizam, escapam das mãos, que a densidade da água os impede de mergulhar direito, etc, etc, etc. Tudo papo furado. Porra, se você não consegue fazer algo e vê que é limitado, reconheça, caralho! Não fique reclamando e culpando as pobrezinhas das bóias. O pior nesta história é que é o meu ouvido que é penico.

Mas estas são as histórias de dentro da água, porque há as de fora. Bom, esta que vou contar agora começou dentro mas teve seu fim trágico e patético fora. Estava eu nadando mui tranqüilamente um dia desses, acho que era de manhã, quando entrou um piá na minha raia. Até aí, tudo bem. Perguntei para ele se sabia nadar, já que eu não sabia. Disse que não e perguntou por quê. Respondi que se ele soubesse, eu podia dividir a raia do lado, onde tinha um iniciante como eu, e assim deixá-lo nadar em paz. Disse que não precisava. Fui, nadei, dei umas voltas e quando parei estava ele lá parado na parte rasa. Começou a puxar papo, perguntar de onde eu era (meu sotaque é fortíssimo), disse que o Brasil era demais, que já conhecia sei lá o quê. Bom, como vi que o moleque queria conversar e não nadar, desbaratinei-o e voltei a nadar. No entanto, a cada vez que parava na parte rasa ele vinha puxando papo dizendo que eu nadava bem, que queria que eu lhe ensinasse como fazia isso… Bom, não é preciso ser muito inteligente para saber que se comecei há mais ou menos dois meses é impossível que eu nade bem ou que possa ensinar algo decente para alguém. Foi aí que comecei a desconfiar. Pensei: “Esse cidadão aí é fuboca e está vindo com segundas intenções para o meu lado. Puta merda!” Mas até aí tudo bem. Tiro de letra, pensei. O porém foi que quando fui sair da piscina, o cidadão resolveu sair também. Aí foi que pensei: “Caraio, fodeu!” Para quem ainda não sabe, quando se sai da piscina se vai ao vestiário trocar de roupa. Para isso, é preciso ficar pelado… Bom, já viram de onde a minha preocupação. E pior é que, por acaso (olhem só que coincidência), o armário do filhote de cruz-credo não era perto do meu? Que merda! Bom, o que sei é que cheguei, troquei de roupa o mais rápido que pude e fui embora. Antes mesmo de ele começar perguntar alguma coisa e encetar uma conversa, eu já tinha cascado dali…

Sugerencia del troesma

Para aqueles que sentem faltam do Pandora, que não sei se um dia poderá ser igualado, fica aqui uma rádio via net que é bem boa: Pixie.

Our freek world

Camilonga pôs a égua para dormir, de forma que estou sendo obrigado a desatualizá-los do mundo. Queixem-se com o cidadão que resolveu tirar férias: Cuidado, soluço pode matar.

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