A volta daquele que vive querendo ir embora

Posted on 7 janeiro 2008

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Nossa querida Argentina ficou para trás. Melhor dizendo: continua no mesmo lugar, nós é que a abandonamos. A partida foi uma odisséia digna de ser narrada por Homer(o).

Durante a última semana, as preocupações foram mil: resolver tudo referente ao aluguel de Little Horse; combinar com o novo dono da geladeira de ele vir buscá-la; vender mesa de vidro e o que mais desse da cozinha; vender os respectivos móveis próprios (meu colchão de casal foi dado para Ariana; a mesa, cadeira e cubos do Camilo vendidos a uma amiga dele; todo o resto, incluindo quase tudo, foi levado por ela); dar os resquícios de louça para Nena; entregar os alguns quilos de fotocópia para Jorgelín; vender mi equipito de sonido para la compu para o mesmo; encerrar a conta da internet e entregar o módem na loja; encerrar contas dos celulares; despedir-se de todos os amigos… Em suma, semana corrida.

Para o último dia, duas coisas tinham ficado pendentes e não poderiam não estar pendentes: realizar o ritual de devolução da casa para o maleta da imobiliária e ir para a rodoviária. Já tínhamos combinado com o funcionário de vir meia hora antes de irmos e com o motorista do frete (isso mesmo, precisamos de um frete para levar tudo!) para nos buscar na hora que tínhamos que ir.

O funcionário vem, treta com algumas coisas como era esperado e por fim assina a devolução. Descemos tudo para o saguão e, já suando como porcos, esperamos que nosso frete chegasse.

Descemos com 5 minutos de antecedência. Espero 5 minutos até o horário marcado. O frete não aparecia. Mais 5 minutos, e nada de frete. Mais 5 minutos e ainda nada. Nós, sabendo que precisávamos estar na rodoviária com pelo menos 1 hora antes do embarque, para despachar a pouca quantidade de malas que tínhamos, começamos a ficar preocupados. 20 minutos atrasado e resolvemos ligar perguntando. A atendente disse que ele estava por chegar. 35 minutos atrasado, chegou o frete com aquela cara de cu de sempre… Embarcamos tudo na parte de trás, eu perdi no par ou ímpar e acabei tendo que ir atrás, e assim fomos.

Não bastasse ter chegado atrasado, o motorista ainda resolveu pegar o pior caminho possível para chegar em Retiro. Já na saída de casa pegamos engarrafamento (justamente neste dia havia greve do metrô). Indo pela Hidalgo, pegamos a Avellaneda e fomos embora. Lá pelo centro, ele resolveu entrar na Corrientes. Fatal: outro engarrafamento, ainda maior que o primeiro. E nós, que havíamos pedido o frete com muita antecedência para não chegarmos tarde, acabamos chegando na rodoviária às 11h25. O ônibus saía às 12h. Detalhe a não se esquecer: tínhamos que desembarcar todas as malas só nós dois, pesar, embarcá-las no despacho e ainda comer. Correria total.

Depois de uns 20 minutos levando mala e mais mala escada abaixo até o guichê da empresa e já completamente suados disso tudo, Camilonga, com sua lábia eterna, se põe de pé do atendente para acompanhar tudo. A quilagem de nós dois: 190kg. Exatamente isso. Quase 200kg de bagagem, isso sem contar as de mão, onde tinha pelo menos mais uns 30kg. A passagem de cada um dava direito a 30kg para levar, de forma que podíamos descontar 60kg dos 190kg. Os outros 130 eram excesso. Facada no rim. Mas foi para isso que Camilonga de la Croix tinha se aprochegado do atendente. Conversê para cá, conversê para lá, Camilo e o atendente entraram em um acordo: o atendente diria que não tínhamos excesso de bagagem e nós lhe dávamos 80 pesos pela maracutaia. Nós economizamos 50 pesos, o atendente ganhou 80 e a empresa, que era uma bosta mesmo, ficou sem nada. Azar dos burros, sorte dos espertos.

Já dentro do ônibus, o lance era tentar relaxar naquele Pluminha de merda convencional, onde ficaríamos, em tese, as próximas 30 horas. Acabaram sendo 37h: atrasamos 1 hora para sair, outras duas na fronteira por conta de uma jeca do mato, outras 3 porque o pneu furou e outra aí nas tantas idas e vindas pelas garagens da empresa. Querem um conselho? Nunca em suas vidas peguem a Pluma. O Camilo tinha me avisado, mas eu não lhe tinha dado ouvidos.

Por fim, na madrugada do dia seguinte ao seguinte, chegamos em Curitiba. Uf! Viagenzinha cão.

No dia seguinte, começou tudo: encontro do Clube do Bolinha, futebóis no Cachorródromo, idas à Cachoeira da Curva (secretíssima) e à de Witmarsum, cafés-da-manhã, almoços e jantares com amigos, cineminhas… Por sorte, uma inifinidade de coisas.

Chegou o Natal e aquela comilança de costume. Chegou o Ano Novo, tranqüilinho este ano também, o qual passei entre amigos.

Aí vem a entrada de novo. Um ano estranho, há de se dizer. Começou já muito diferente do que eu havia planejado. As forças cósmicas advindas de sabe-se lá onde foram mais fortes que a minha organização. Tudo ficou virado do avesso, e assim estou. Questão agora de se desvirar. Vai levar um pouco de tempo, mas desviro.

Sensação de voltar para o Brasil? Sinceramente, muito estranha. Ao mesmo tempo em que é tudo muito familiar, tudo também é muito estranho. Às vezes me sinto um peixe fora d’água. Por motivos mil… Desafio atual? Tentar encontrar o estranhamento naquilo que sempre foi o mesmo. É assim, então, que vos deixo com as palavras de um dos tantos sábios da montanha jogados por esse mundo afora:

“Estrangeiro (e estranho) é quem afirma seu próprio ser no mundo que o cerca. Assim, dá sentido ao mundo, e de certa maneira o domina. Mas o domina tragicamente: não se integra. O cedro é estrangeiro no meu parque. Eu sou estrangeiro na França. O homem é estrangeiro no mundo.” (Vilém Flusser)

Saludos a todos.

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