Quem disse que o bom de chuva é se molhar?

Posted on 13 janeiro 2008

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Hemos de convir que deslumbrar-se com o sempre igual não é das tarefas mais fáceis. Vai fazer um mês que estou de volta à terra tupiniquim e sinto que já vi e fiz tudo o que podia fazer e que as coisas já estão começando a se repetir.

Querendo evitar isso, estou tentando reinventar minha estadia no Brasil e na cidade onde quase sempre morei. Fico me forçando a ir a lugares a que nunca fui, a tomar caminhos que nunca tomo para variar os trajetos, a reencontrar pessoas que há muito não vejo, a conhecer pessoas novas, a conversar de assuntos que normalmente não converso, a deixar que puxem papo comigo na esperança de ser supreendido. Às vezes sou, às vezes não.

Sendo assim, ontem fui ao Parque Barigüi com um amigo das antigas vê-lo praticar Trikke. Chegamos, fomos para a pista de automodelismo e ele me mostrou como funcionava o brinquedinho. Muito divertido. Parece difícil, mas não é. Dá para pegar o jeito em um dia, imagino eu. Lá, acabamos encontrando com um conhecido das antigas, contra quem jogamos hóquei. Nosso timeco de merda (sim, eu jogava hóquei quando era mais novo, assim como patinava) contra o time semiprofissional onde ele jogava. É claro que levamos um coro, ainda mais porque eles jogavam com o disquinho (tinham uma pista lisa o suficiente para isso), enquanto nós estávamos acostumados a jogar com a bolinha (porque jogávamos em qualquer quadra de futebol, com ou sem buracos. Não que a lavada que levamos possa ser justificada por isso, mas também não deixa de ser.

De qualquer forma, conversamos sobre patins, trikke e afins mais de hora e fomos ao que tínhamos ido. Eu caminhar ou correr ou sei lá o quê (confesso que o pançudo aqui tinha levado um livro para ler – O inventor da solidão, de Paul Auster) e o meu amigo a praticar o trikke (quem faz trikke trikeia? vai saber!). Mal tínhamos percorrido 300 metros na ciclovia fomos surpreendidos por uma tempestade. Não foi uma chuvinha de merda. Foi um pé-d’água que há tempos não via. Tivemos que nos abrigar em um quiosco e, por estar lá e eu já com fome, a fazer uma boquinha. Mas bah, diriam vocês: foi fazer exercício e acabou só aumentando a massa adiposa que teima em não querer abandonar esse lindo corpinho que você tem! Ah, muito obrigado pelo elogio que me toca.

Continuando, contribuí sim para o aumento, pequeno, quase imperceptível, do meu brioche. Ele agradece, minha estética já não tanto. E foi que nos vimos, dois quase atletas querendo esculpir seus corpos (o meu, no caso, muito lindo), sentados esperando a chuva passar. E foi que me vi observando as pessoas que também estavam lá no quiosco. Havia, como era de se esperar, uns tanto que estavam ali fazendo a mesma coisa que nós. Esperando a chuva passar. No entanto, outros que não. Em especial, havia um casal que me chamou muito a atenção. Ele, típico vileiro curitibano (calça jeans cheia de balacubacos bregas que só vendo), ela, também vileira, com aquela pinta de “não olha muito que te ‘ranco os dentes, piá”.

Eu, muito na minha, fiquei só de zoio nos dois.

Embora não quisesse muito, tive que observá-los: era muito engraçado os dois juntos. Era nítido que não tinham ido ao parque para fazer esportes. Era nítido que não tinham se protegido lá no quiosco para não se molharem. Mas, então, o que é que os dois estavam fazendo lá? Namorando, uai, sô. E por que cargas d’águas os dois foram namorar bem ali? Para ver os patinhos nadando no lago que não! Nem para ver o bonito que é as aves voando. Então para quê? E não é que os dois estavam assim de mãos dados. Não, estavam se amassando forte, sem o menor pudor. Conclusão a que cheguei? Que, ao contrário do que tinha pensado antes, foram lá se proteger. Mas não porque não podiam fazer exercício, e sim porque queriam é dar uma e não estavam podendo. Primeiro porque começou a chover, e segundo porque, por estar chovendo, não rolava se sujar lá no meio do mato. Dar uma no matinho molhado é foda!

E é assim que foi: eu e asperar a chuva passar e os dois loucos da vida por não poderem dar uma. Ê vidão, ê lá em casa!

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