O tal do "Jacó"

Posted on 30 março 2008

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Observação preliminar: esta é uma historieta para curitibocas ou conhecedores dos bares da cidade.

Sexta à noite saí. Fui acompanhar uma amiga, de fora, que queria conhecer o tal do “Jacó” (como não quero citar nomes para depois não ser apedrejado em praça pública, traduzi o nome do bar para o nosso bom e velho português; aquele que não souber do que Jacó é tradução, leia o texto que, com os indícios e descrições, descobrirá; se mesmo assim não se der conta, fuce que acha; por fim, se nem com tudo isso descobrir, porra, faça o favor de enfiar a cabeça na privada e puxar a descarga). Ela queria porque queria ir no Jacó. Tinham aconselhado para ela, que a baladinha era boa, blá, blá, blá. Eu acabei indo para acompanhá-la. Antes, porém, fui a um churrasco do trabalho (carne e muita, mas muita bebida – uísque, amarula, bacardi, vodka, etc. – de graça), de forma que cheguei lá vindo de um ambiente alegre e de muito truco.

Quando cheguei diante do dito estabelecimento, que fica quase na esquina, ao lado de um posto de gasolina, vi que havia uma fila considerável na frente. Umas trinta pessoas, pelo menos. Pensei: “Puta merda!” Mas vamos lá, que combinado é dívida para mim. Muito embora estivesse animado pelas conversas do churrasco, não quis conversar com ninguém na fila. Por quê? Bom, para aqueles que conhecem o Jacó, as pessoas que freqüentam lá são as mais “caras e bocas”, as mais blasées, as mais cheira-puns que possam existir nesta cidade já infestada de gente doida que não apanhou quando guiança. Se tivessem apanhado, aposto que não fariam “aquelas” caras quando cheirassem pum.

De qualquer forma, entrei na fila e ali fiquei até chegar a minha vez. Ao entrar, tive que passar por aquela situação desagradável de ter que ficar provando quem você é e quantos anos você tem. Puta que os pariu: eu, com barba na cara desde os quinze, ter que ficar mostrando RGzinho para entrar em baladinha de freak é o fim! Mas vamos lá, pensei eu. “Maikon, de maior, 26 anos”, disse o porteiro. “Sim, sou eu”, disse eu com cara de cu.

E entrei…

E me choquei!

Carambola, que aquilo parecia um circo de horrores, cheio de gente estranha, com hábitos esquisitos. O que vi? Bom, descrevamos: de um lado do corredorzinho de entrada, um bando de piá de bosta encostado, com um pé na parede e cara de tacho, olhando com aquele olhar de “I’m foda!“. Do outro, um grupete de periguetes olhando para mim e dando a entender que “Eu sou foda, sou moderna, sou gostosa e não vou dar para você!”. “E quem disse que eu quero te comer, sua louca varrida?”, pensei eu. Subi o primeiro degrau, o segundo e o terceiro. Se não me engano, são três. Na curvinha para entrar no bar, à esquerda, o vislumbre que o corredor tinha me proporcionado multiplicou-se infindavelmente. Havia, dentro daquele ambiente pequeno, que já foi um bar de gente meio modernosa mas do bem, um mar de freaks com seus penteados incompreensíveis, sua exacerbação de tatuagens (braços, ombros, peitos, orelhas, nariz, pescoço e vai lá saber mais onde), suas atitudes extravagantes com tom nítido de “Estamos pouco nos fodendo com você mas mesmo assim queremos a sua aceitação”. Aceitação o caralho, o meu nome é Zé Pequeno, porra!

Mais um passo e levo uma vaquinha do mar de freaks. Levado pela onda de “Muito louco, muito louco”, acabo chegando até a pista de dança, onde o eletrorock, estilinho do momento, imperava. Até aí nenhum problema (há bastante coisa boa nesse estilo), não fosse por todas as músicas serem iguais e o som estar tão alto que não se podia nem ouvir os próprios pensamentos, imagine então conversar com alguém. Não tivesse encontrado a minha amiga perdida lá no meio, teria ido buscar o meu protetor de ouvido (que consegui com o meu pai, pois fica o dia inteiro ouvindo aquela perfuratriz zoando a cabeça). Oi, oi, e aí, e aí, tudo bem, tudo bem, e aí, e aí… Bom, não foi possível conversa porque não se podia realmente ouvir nada. Ficamos um pouco na pista, ela dançando, eu olhando para os lados e contemplando a freakaiada, mas uma hora o fato de estarmos lá para conversar e não podermos foi mais forte e resolvemos ir para o balcão, que é lugar de gente conversadeira que nem eu.

Balcão, querido balcão, pensei eu ao apoiar o meu cotovelo nele e pedir uma caipirinha de bódega. E aí pudemos finalmente conversar.

No entanto, já umas duas horas de conversê tête à tête, o sonzinho, que havia se transformado em eletro-rock-bate-estaca-do-djanho, já estava penetrando a minha alma, que, pobrezinha, pedia clemência. O empurra-empurra já se fazia sentir há horas, tanto que nós, encostados no balcão conversando mui calmamente, não conseguíamos ficar um minuto sequer sem levar cutuco dos doidos. Era um tal de se empurrarem, se abraçarem, dançarem, se jogarem no chão, se beijarem todos de uma só vez (a nova modinha do momento, conhecido também por grupal kiss), se esfregarem num, depois noutro (nada contra, por favor; acho mesmo que têm que fazer o que quiserem; eu mesmo gosto de uma amassação, mas não levando cutuco no rim, né?). A coisa chegou a tal ponto que tivemos que ir embora, porque não havia Cristo, nem Judas, que suportasse ficar lá.

Indo embora, depois de pagar (a melhor parte, porque, ao contrário do que pensava, só paguei cincão para entrar, mais, é claro, as caipirinhas e águas que pedi), só íamos vendo as pessoas com aquelas caras de “I’m fuckin’ foda, and you?

Na minha cabeça, pensei: “I’m old mesmo, só isso!”. E um abraço para a freakaiada. Que se matem naquela joça.

E fui feliz da vida!

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