Trem e outros amores I

Posted on 2 julho 2008

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Antes de mais nada, é preciso dizer que ela é o amor da minha vida.

A primeira vez que a vi foi de relance entrando num trem. Estávamos em Zandvoort aan Zee. Eu vinha da praia, todo sujo de areia, onde tinha dormido boa parte do dia. Era meu aniversário.

Ela, solitária, caminhava de jeans, botas altas de camurça marrom e óculos escuros em direção à plataforma. Enquanto eu entrava no vagão, virei a cabeça para me despedir daquela praia aonde muito provavelmente nunca mais voltaria. Embora “solitário”, tinha sido o meu melhor aniversário.

Percebi-a de canto de olho entrando pela porta à minha direita. Bonita, charmosa, maravilhosa, pensei.

Logo à minha frente havia um lugar vago. Sentei. No outro canto do vagão estava ela sentada, de pernas cruzadas, olhando para mim. Olhar dentro de olhar. Olho com olho. Mais nada.

Num primeiro momento não pude acreditar que era comigo. Olhei ao redor, à procura de algum outro homem, e nada. Aquele mulherão estava olhando para mim? Podia ser? Meio encabulado, desviei o olhar. A tentação e curiosidade, no entanto, eram mais fortes. Quando virei novamente o rosto, estava ela lá me cuidando. Sem preconceito, sem nada. Só me observando. A essa altura eu já estava fascinado e apaixonado. Coup de foudre absoluto. Amor à primeira vista. Em uma fração de segundos me imaginei com ela, viajando mundo afora, vivendo juntos.

Nosso trem partiu de Zandvoort aan Zee rumo a Haarlem. Durante o trajeto, de não mais de 40 minutos, não despegamos o olhar um do outro. E foi nessa quase uma hora que soube que ela era a mulher da minha vida. Se ela também tinha se dado conta disso, não sei. O fato é que eu tinha certeza.

Chegando à estação de Haarlem, desci do trem para pegar outro. Era a minha conexão para Amsterdam. Os poucos passos que tive que dar foram terríveis. Na minha cabeça, eu não conseguia pensar em outra coisa que na perspectiva de não a ver nunca mais. Mas o mundo, naquele dia, estava do meu lado. Ela também ia para Amsterdam. E no mesmo trem, mesmo vagão e mesma disposição de lugares. Nossos olhares, como antes, encontraram-se e não se desgrudaram mais.

Durante o percurso para a capital holandesa, saboreei-a ao máximo. Morena, cabelos lisos e brilhantes, olhos verdes-claros, boca carnuda, sorriso perfeito, cerca de 1,70m, lindos seios, lindas pernas, coxas fabulosas e um charme simplesmente irresistível. Além do jeans e das botas, vestia uma blusa vermelha. Suas mãos, algo em que sempre presto atenção, eram fortes e de dedos longos. Unhas bem desenhadas, sem cútis. Na mão direita, no dedo anular, um anel prateado e grande.

Simplesmente perfeita.

O amor faz dessas coisas.

Antes mesmo de chegar à estação de Amsterdam, meu coração já estava batendo a mil por hora, desesperado por não saber se a veria novamente. Eu precisava muito falar com ela. Custasse o que custasse. Minha mão suava. Eu gaguejava até em meus pensamentos.

Quando o trem começou a frear, entrei em estado de desespero total. Uma dor enorme no peito. Eu não podia perder aquela chance. Não podia! Ela era a mulher da minha vida. É.

Uma vez parado o trem, saíram todos. Menos eu. Fiquei vendo ela se distanciar. Milhões de coisas passaram pela minha cabeça. Devia falar com ela ou não? Nem holandês eu sabia. O que diria? Pouco me importava. O fato é que eu precisava falar com ela. Tomei coragem e fui atrás. Ao sair do vagão, já quase a tinha perdido de vista. Sentindo-me um bobo, corri.

Sujo, suado, descabelado e ofegante, toquei no seu ombro esquerdo. Ela se virou sem medo. Aqueles seus olhos verdes me despiram e me paralisaram…

continua…

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