Trem e outros amores III

Posted on 14 julho 2008

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[…] e […]

Só nessa altura do campeonato que eu lembrei que estava com um amigo, que tinha ido comigo à praia e estava voltando de lá sempre ao meu lado. Confesso que ele tinha sido ofuscado por ela.

Foi quando ele chegou, boquiaberto e completamente surpreso por eu de fato ter falado com ela e ainda não ter levado um tapa ou supetão na orelha.

Cara, então…

Mal precisei começar a falar, ele já tinha entendido tudo.

Relaxa. Vai com fé, papai, que depois nos encontramos no hostel.

Sim, ele é baiano. E se distanciou.

Ela, que vou chamar daqui em diante de Lis, estranhou ele ter ido, mas logo em seguida abriu um sorriso e disse.

Eu também prefiro assim.

Pasme.

Olha, eu conheço pouquíssimo Amsterdam, mas vi uma série de cafés nessa direção.

Não se preocupe, eu conheço mais ou menos. Conheço um bem legal perto daqui. Se você não se incomodar em irmos caminhando…

No caminho, a conversa fluiu como nunca. Eu, na minha parca experiência amorosa, sei que é quando a conversa flui que você tem que se preocupar. Mais um motivo para eu ter achado que ela era/é a mulher da minha vida.

Antes mesmo de chegarmos ao café, ela já sabia algumas coisas interessantes da minha vida, dentre as quais que eu estava fazendo aniversário naquele dia.

Então eu vou te dar um presente que você nunca vai esquecer.

E nunca esqueci, ainda mais porque ela me fisgou no meu ponto mais fraco: a comida (eu digo e sempre repito isso: o meu pecado preferido é a gula). Me deu o meu primeiro pote de Häagen Dazs. Chocolate suíço com almendras e pedaços inteiros de trufa… Manjar dos deuses. Eu, naquele momento, senti-me com um pé no paraíso.

Mas o presente só foi dado depois.

Ainda no café, ambiente bem reservado, sentamos num canto, distante de todos. Ao contrário do que sempre faço, sentei do seu lado. Na primeira vez, sempre sento de frente por inúmeros motivos particulares. Sentar do lado, para mim, demanda uma confiança, coisa que só se adquire depois de ter havido uma boa conversa. Com ela, porém, eu já tinha certeza.

Se a conversa, na ida ao café, já tinha fluído bem, sentados então foi muito melhor. Me contou toda a sua vida. De pais cubanos, nasceu em Havana, de onde fugiram quando ela era ainda nova por seus pais serem anticastristas. Pegaram dois caiaques abertos, um para a família e outro para os poucos pertences que levaram, e rumaram para os Estados Unidos. Desembarcaram na Flórida e acabaram se instalando em Miami, onde, por sinal, ela está neste exato momento.

Cresceu lá e, aos 16 ou 17, foi morar em Nova York por estudo. Entrou no conservatório de música da cidade (cujo nome não lembro mais). Com alguns colegas, montou uma banda, que aos poucos foi fazendo sucesso. Fizeram alguns shows por Nova York e cidades importantes da região até assinarem contrato com uma gravadora holandesa (eis aí que a Holanda começa a se explicar). Foram para a Europa, fizeram alguns shows por lá e, para gravarem o CD, acabaram se mudando para Amsterdam. Lis morou lá por mais de dois anos.

Gravaram CD, continuaram a fazer sucesso e, por motivo de desacordo entre os integrantes da banda, ela saiu. Foi morar em Paris, aonde foi tentar a vida como cantora solo. Foi então que, por conta de um encontro dos amigos das antigas, resolveu visitá-los em Amstelveen. No dia 9 de setembro de 2004, quando eu completava 23 anos, ela decidiu passar o dia sozinha na praia para pensar. Muitas coisas estavam acontecendo na sua vida, coisas as quais vão acabar influenciando, mais além, na minha história com ela.

Os dois, pois, tínhamos ido à Zandevoort aan Zee para pensar. Ela por esses motivos todos; eu porque estava completamente 23 anos, estava morando fora do Brasil pela primeira vez e estava decidindo, como faço quase todo dia, o que fazer da minha vida.

Ainda no café, o tempo passou com um piscar de olhos. De repente, já eram 20h (não nos esqueçamos que na Europa, no verão, o dia escurece às 22h).

Vamos pagar e aproveitar que ainda é dia para dar uma volta?

Claro.

Ela pegou na minha mão e me levou para fora do café. Achei que fôssemos nos beijar, mas era nítido que ela ainda estava receosa. Talvez estivesse com medo, talvez estivesse machucada por alguma história anterior. Procurei não forçar.

Ela me levou pelas ruas de Amsterdam, mostrando-me os seus lugares favoritos, contando-me histórias. Nossa conversa parecia nunca ter fim, o que, para mim, era perfeito. Ainda hoje, a menina não ser boa de papo é quesito excludente na hora de eu querer algo mais.

Quando passamos em frente a um supermercado, ela me puxou pela mão e entramos.

É aqui que vou comprar aquele presente que você nunca vai esquecer.

Häagen Dazs. Sem mais comentários.

Nos sentamos na escadaria da praça em frente e, com duas colherinhas de plástico presenteadas pela caixa do mercado, devoramos o pote todo. Preciso dizer que o Häagen Dazs acabou sendo vencido pelo Persicco, da Argentina, mas isso não fez com que aquele primeiro pote, aos 23 anos, perdesse todo o simbolismo que tem para mim. Aliás, muito pelo contrário.

Nossas mãos se roçaram inúmeras vezes, nossos olhares se entrecruzaram e se congelaram um no outro diversas vezes, mas ainda assim senti que ela estava com medo. Continuei procurando não forçar. Por outro lado, perdi a conta do número de vezes que ela passou a mão no meu rosto como gesto de carinho.

Por volta das 23h, justamente quando estávamos diante da catedral de Amsterdam, com os sinos dando as onze badaladas, soubemos que algo tinha que acontecer. Fez-se, pela primeira vez desde que trocamos as primeiras palavras, um silêncio entre nós. Nos olhamos fundo, nos aproximamos e evitamos ter que decidir.

Vem comigo até a estação comprar a minha passagem?

Claro, com certeza.

Cada minuto a mais com ela era, para mim, um prazer.

Ainda tinha muitos lugares no trem. Ela comprou a passagem dela, pagou e, me puxando para o lado, perguntou:

Por que você não vem comigo para Amstelveen? Você podia ficar na casa dos meus amigos sem nenhum problema…

Quê? Quê? Quê? Eu não conseguia acreditar no que tinha ouvido. No entanto, ao mesmo tempo, um turbilhão de pensamentos, que vinham elencando um empecilho atrás do outro, começou a passar pela minha cabeça. Dinheiro: tinha dois euros; ia ter que pedir emprestado a ela para a passagem. Roupa: a do corpo, que estava suja. Roupa: minhas coisas tinham ficado escondidas no Vondelpark, no meio de uns arbustos, onde tinha dormido na noite anterior por não ter/querer economizar dinheiro. Passaporte: no armário do hostel onde dormiria essa noite, já que tinha feito reserva no dia anterior. Amstelveen: onde exatamente fica isso? Amigos: quem eram? Meu amigo: como ia avisá-lo? Será que não ficaria preocupado? Titubeei mesmo.

Por um lado, minha vontade de ir era muito, mas muito grande…

Por outro lado, eu só conseguia ver empecilhos para ir.

Titubeei. Titubeei… E ela notou que eu titubeei.

Ai, não sei. Estou sem dinheiro, todas as minhas coisas estão aqui, o meu amigo vai ficar que nem um louco atrás de mim…

Olha, não tem importância. Se você acha que hoje fica ruim, você pode ir amanhã. Vou te dar o meu número de celular e você me liga.

Sério?

Claro.

Então ela me deu os telefones dela e eu decidi melhor ir no dia seguinte.

Minha felicidade foi sem fim. Mal sabia eu que ter titubeado e não ter ido foi a segunda pior besteira amorosa que eu fiz em toda a minha vida, uma das quais mais me arrependo.

No entanto, do futuro eu não sabia nada de fato. Para mim, iríamos nos ver no dia seguinte e, quem sabe, aquela nossa paixão em espera iria efervescer finalmente.

Nos abraçamos forte, nos afagamos, mas não nos beijamos. Não ainda. O seu olhar, durante a despedida, só certificou mais ainda a certeza de que era ela. Por mais que não tivéssemos nos beijado (eu sentia que ela queria, mas não queria), ficamos roçando as nossas mãos uma na outra até ela subir no trem.

continua…

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