Trem e outros amores V

Posted on 28 julho 2008

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[…], […], […] e […]

Já na cidade-luz, chegando ao apartamento em que estava me hospedando, em Belleville, a primeira coisa que fiz foi telefonar para ela.

Oi, sou eu.

Oi, você veio!

Sim. Você acha que não viria?

Não sei…

Quero te ver.

Também quero te ver, mas o único problema é que os meus horários estão complicados por conta da mudança.

Me diga hora e lugar que vou estar lá.

Olha, eu posso hoje à tarde, lá por uma 16h, naquela pracinha em Châtelet. Sabe qual?

Sei.

Ótimo.

Nos encontramos lá então.

Nos encontramos…

Antes mesmo das 16h eu já estava lá esperando. Vi-a chegando de longe. Coincidentemente o mesmo jeans do outro dia, mas outra blusa. Para dizer pouco, ela estava deslumbrante. Foi vê-la para ter certeza, novamente, que ela era a mulher da minha vida.

Oiê.

Me deu um beijo carinhoso no rosto e um abraço.

Oi.

Eu sorrindo que nem um bobo por estar ao lado dela de volta.

Ela pegou na minha mão e me puxou.

Conheço um cantinho lindo por aqui. Lá a gente vai poder conversar em paz.

De fato era um cantinho muito calmo em meio à muvuca de Châtelet. Deitamos os dois sobre a grama, tiramos os sapatos e ficamos conversando durante horas. Às vezes ela deitava no meu colo e eu lhe fazia cafuné, às vezes era eu quem ganhava um carinho.

Lis estava toda esfuziante. Empolgadíssima com a perspectiva de ir para Londres gravar seu primeiro CD solo. O seu sorriso ia de um lado a outro do rosto.

A essa altura, o meu coração já estava quase saltando pela garganta. Eu queria muito dizer a ela o que estava sentindo (que era ela!), mas ora não via coragem, ora não via oportunidade. Até que, idéia dela, levantamos e fomos tomar um café. Sentados um de frente para o outro, de maneira que eu não a sufocasse e lhe desse espaço para correr se quisesse, me declarei. Sincera e abertamente. Não guardei nada e disse tudo o que estava sentindo. Que eu não tinha podido parar de pensar nela, que estava apaixonado/amando, que sabia que ela era a mulher, que eu podia acompanhá-la aonde quer que ela fosse.

Ela ouviu calada tudo o que eu tinha a dizer, silêncio o qual, devo dizer, foi me deixando mais e mais apreensivo. Quando terminei, disse-lhe que se quisesse podia simplesmente ir embora sem dizer palavra. Eu ia entender. Lis, então, se levantou e entrou no bar. Acho que foi ao banheiro. Três minutos depois, contados no relógio em estado extremo de aflição, voltou, se sentou, olhou bem nos meus olhos e disse.

Eu não quero ir embora (je veux pas partir).

Tive que abrir um sorriso maroto. Ela encetou.

Mas vou confessar para você que eu quase fui embora. Foi por isso que fui ao banheiro, para ver se espairecia um pouco. Não é que quisesse ir embora porque não tenha gostado do que você disse. Pelo contrário. Pensei em ir embora porque tenho medo, e ir embora sempre é a maneira com que acabo lidando com essas situações. Eu vou ser bem sincera com você: eu tenho medo de me envolver. Já tentei uma vez, anos atrás, não deu certo e me machuquei muito. Desde então, vivo me esquivando das pessoas que mais gosto e ficando com as que não querem nada de mim. Eu gostei muito de você, desde o primeiro momento em que te vi chegando na estação. Mas tenho medo, muito medo de me envolver contigo, justamente porque você parece ser a pessoa perfeita para se envolver comigo. Acho que tudo seria perfeito entre a gente. Não só acho como tenho certeza. No entanto, e sei que vou me arrepender disso, não consigo enfrentar esse meu medo. Fora que eu me jogaria muito de cabeça em um relacionamento com uma pessoa como você, é do meu métier, e não posso fazer isso agora. Estou num momento determinante da minha carreira, e ela, de certa maneira, é a única coisa que realmente tenho. Não sei se posso pedir isso, mas gostaria que você entendesse.

Eu, ao contrário do que poderia imaginar, tive uma epifania no momento. É como se tudo, de repente, fizesse sentido e entrasse nos eixos. São raros os momentos em que acontece isso comigo. Esse foi um deles.

Eu te entendo. De verdade. Acho que você tem que correr atrás do que você quer, pular de cabeça nisso. Pode parecer loucura, mas sei que ainda vamos ficar juntos, cedo ou tarde.

Ela sorriu. Eu também, ainda mais porque, no momento, tinha certeza absoluta de que um dia ainda íamos nos encontrar (aliás, quem disse que isso ainda não pode acontecer?). Ela pegou na minha mão, fez um carinho no meu rosto, quase me beijou.

O que eu mais queria agora é te beijar, mas não posso. Não posso porque se fizer isso não vou conseguir ir adiante, porque só vou pensar no gosto da tua boca. Não me entenda mal. O que eu mais quero é te beijar, mas não posso.

Te entendo, apesar de te querer muito.

Ela me abraçou, aproximou o seu rosto do meu, quase lábio com lábio (eu quase a ataquei nesse momento), encostou a testa com a minha e soltou uma lágrima.

Agora eu preciso ir.

Queria te ver mais uma vez.

Será que vai ser bom para nós dois?

Não sei, mas quero te ver.

Passa lá em casa amanhã então. Me liga antes para ver como vou estar com a mudança.

Ok.

continua…

Posted in: Amsterdam, Causo