Trem e outros amores VI

Posted on 2 agosto 2008

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[…], […], […], […] e […]

Quando a vi se distanciando, me senti praticamente destroçado. No entanto, ainda com o intuito de entender o que tinha acontecido, pensei que também havia amor nisso que estava acontecendo entre nós. Foi então que pensei no Grande Sertão: Veredas. A vida é um estradar, são veredas. Nessa hora, ao pensar isso, eu soube que tinha que dar a ela esse livro, custasse o que custasse.

Saí, então, como um louco à procura do livro. Procurei por todas as grandes livrarias que conhecia por Paris, mas nada de encontrar. A tradução do livro existia, mas estava esgotada, dizia um dos atendentes. Foi quando, já sem esperança, caminhando pelo Quartier Latin, passei na frente de uma livraria lusófona. Entrei, perguntei sem muito ânimo e recebi uma resposta que me desconcertou.

Sim, tenho um exemplar. O último, aliás.

Quanto?

Oito euros.

Perfeito. Dessa vez não titubeei. Comprei o livro e corri para casa. Já tinha em mente toda uma carta para escrever para ela.

De 15 páginas! E em francês!

No dia seguinte, liguei para ela.

Oi, tudo bem com você?

Oi, bom dia. Tudo sim. E com você?

Bem… Então, queria te ver.

Eu também.

Comprei um presente para ti.

Sério?

Sim. Passei o dia todo ontem procurando, até que achei.

Ai, então vem aqui me entregar ele.

A que horas?

Olha, eu estou superatarefada hoje. Preparando tudo para ir para Londres, mas lá pelas 17h poderia te receber. Tomaríamos um café ou chá ou o que você quisesse.

Ótimo. Às 17h em ponto estarei aí. Um beijo.

Outro para você.

Às 17h em ponto eu estava lá. Também não poderia ser diferente. Do momento da ligação até a hora de tocar na sua porta, eu não tinha conseguido fazer outra coisa que pensar nela, no seu cheiro, na sua boca, na sua pele. Eu tinha certeza de que ela era a mulher da minha vida.

Antes mesmo de ela abrir a porta eu já estava suando frio, com as palmas das mãos úmidas, nervosíssimo à espera da sua reação.

Entrei. A porta de entrada dava direto para a cozinha. A casa estava toda revirada, nitidamente em sinal de alguém estar fazendo mudança.

Você quer sentar?

Hum… na verdade não sei.

Por que você está tão nervoso?

Não sei.

Menti, é óbvio. Eu sabia perfeitamente por que estava com os nervos à flor da pele.

Quer um chá?

Quero sim, obrigado.

Eu não podia esperar mais. Precisava entregar-lhe o presente que havia comprado.

Então, eu queria te entregar um presente. Sei que é bem possível que você nunca venha a lê-lo ou que o perca em meio a tantas idas, vindas e mudanças que tem na tua vida, mas mesmo assim eu queria te dar ele. É de um autor que gosto muito. Para mim, é um dos melhores livros jamais escritos. E acho que fala um pouco da nossa história…

… ai, muito obrigada. Assim que der vou ler, te prometo.

E…

Ela abriu o livro e viu que havia uma carta dentro.

Você escreveu uma carta para mim?

… escrevi.

Dizendo?

Leia você que vai descobrir.

Ela se pôs a ler a carta.

Não. Não leia agora. Leia quando estiver no trem ou em qualquer outro momento em que tiver um tempo livre. Além disso, não gostaria que você lesse na minha presença.

Por quê? O que diz na carta?

Se você ler, vai descobrir.

Vou ler. Hoje mesmo.

Bom, então acho que vou indo. Vi que você está abarrotada de coisas por fazer e não quero te atrapalhar.

Ai… se eu não tivesse que ir amanhã, eu ia adorar que você ficasse um pouco mais.

Eu entendo. Não tem importância.

Bom… desculpa.

Desculpa eu. (disse isso pensando na vez em que não fui encontrá-la em Amstelveen.

Vou indo então.

Nos demos um abraço forte, longo e demorado, e começamos a nos separar. Ambos não queríamos, mas era sabido que uma hora ou outra eu ia ter que ir embora. Ela ia embora.

Tomei coragem e fui.

continua….

Posted in: Amsterdam, Causo