Murtinha

Posted on 31 agosto 2008

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Tenho que começar dizendo que eu cometi o crime, muito embora não seja culpado nem criminoso.

Que crime? Estacionar em lugar/local impróprio. Quando? Hoje, às 7h27. Onde? Na frente da minha digníssima nova casa, mais especificamente bem diante do portão de entrada.

À primeira vista, não deveria haver muito o que dizer a respeito. Parei o meu querido carro onde não devia e tomei multa. Pá-pum! Sem mais.

No entanto, o buraco é mais embaixo. Contextualizemos um pouco a situação para melhor entendê-la.

Comecemos pela macrossituação: século XXI, mundo globalizado, Brasil, Paraná, Curitiba. Dizem que a economia anda bem, mas a verdade é que algo sí, pero no mucho. A conjuntura está melhorando, mas isso não quer dizer que esteja boa e que o resto dos problemas típicos de um país de terceiro mundo esteja sendo resolvido. As pessoas continuam trabalhando bastante para ganhar muito pouco e sustentar a corrupção alheia, não conseguindo viver e sim só sobreviver, de forma que a pobreza e violência só fazem aumentar.

Microssituação: bairro das Mercês, classe média-média, com alguma proximidade de regiões menos favorecidas. Como não poderia ser diferente, muitos conjuntos cheios de blocos (verdadeiros pombais e cortiços) têm lugar no bairro, especialmente na minha rua. Aliás, só o meu possui pelo menos 8 blocos de 12 apartamentos cada, há outro similar.

Peguem suas calculadoras e vamos às contas. Só no meu “complexo habitacional” são, ao total, cerca de 96 apartamentos e (se contarmos, já que são imóveis de 3 quartos, uma média de 3 pessoas por apartamento), 288 moradores. Mais as 288 pessoas do conjunto da frente, que é igual ao meu, chegamos ao impressionante número de pelo menos 576 pessoas vivendo na mesma quadra.

Somos então quase 600 pessoas dividindo um mesmo quarteirão. Desse total, supondo que apenas 20% dos moradores possuam automóvel, haveria cerca de 120 automóveis nesses 50m da quadra. Supondo ainda que para 70% (um número bem generoso) houvesse garagem, restariam ainda 36 carros (isso só dos moradores, sem contar, é claro, os de todas as visitas, namorado(a)s, mães e pais que vêm visitar) para serem estacionados na rua.

Parece pouco? Continuemos, pois, a conta. Fazendo uma média generosa de 3,5m de comprimento por veículo, teríamos um total de 126m de carro a serem estacionados na rua. 126m os quais viram mais ou menos uns 150m ao contarmos a grandessíssima habilidade dos curitibanos ao estacionarem (chegam, muito freqüentemente, a conseguir pôr um único carro, com um espaço imenso entre a lateral e o meio-fio, na vaga de dois). Tendo a minha quadra uns 50m por 50m, teríamos 400 metros (os dois lados da rua) para estacionar os 150m só daqueles dois conjuntos da Solimões. É óbvio que por si só é pouco. Precisamos contar todos os outros moradores e visitas de todas as outras casas e prédios ao redor.

Para complicar, na minha própria rua, só se pode estacionar de um lado da via, e desse lado quase metade dos 50m está inutilizada: uns 10m privativos para táxis, outros 10m de entradas de imóveis e faixas amarelas completamente desnecessárias. Fazendo uma média de 30m por lateral da quadra, teríamos 120m. Duplicando por 2, teríamos só 240m. Muito, mas muito pouco para estacionar os 150m só dos pombos moradores dos dois cortiços.

É preciso explicar também por que as outras laterais da quadra não podem ser utilizadas. Na parte da Rua dos Capuchinhos tem um “pusta” bosque que vive abrigando meliantes com intenções um pouco duvidosas, o que faz com que os arrombamentos de carros, vidros quebrados e sons roubados sejam muitos, de maneira que na Capuchinhos não tem (conselho de todos) como estacionar. Na Desembargador Vieira Cavalcanti, que já é a lateral oposta à da minha rua e por si só um pouco distante, só se pode estacionar de um lado da via, sofrendo do mesmo problema que a Solimões. Já na Jacarezinho, quase não dá para estacionar porque é via de trânsito rápido e mais perigoso no sentido de roubo.

Voltando, pois, à Solimões, na frente dos dois conjuntos tem dois porteiros 24 horas que, querendo ou não, ficam de vigília e fazem desses disputados 30m o lugar mais tranqüilo para deixar o carro de toda a quadra. Como fazemos então os moradores e os visitantes à noite? Estacionamos por toda a quadra, inclusive em cima da calçada, onde, para evitar problemas com a polícia, até já pintaram com tinta de verdade várias vagas.

Mas antes de dizer que a polícia não colabora e de eu reclamar disso, preciso fazer mais uma análise e explicar por que me incomodo com a sua não-colaboração. A mesma polícia, que é incapaz de manter a paz e a segurança dos moradores da região, que não consegue evitar os arrombamentos e outros incidentes e muito menos prender quem faz isso, que, como pedido de desculpas, tampouco paga pelos vidros quebrados, portas arranhadas ou pneus furados, essa mesma polícia, seja de noite ou de dia, insiste em multar os coitados dos moradores que, em uma tentativa de evitar o pior e o prejuízo de todos (do próprio proprietário ao ter que mandar arrumar o seu carro; da polícia ao perder o seu tempo fazendo um esdrúxulo BO, gastando combustível advindo dos impostos dos cidadãos, gerando desgaste dos bens da União e aumentando a já crescente descrença do contribuinte na “puliça”), põem seus carros lá. Sem falar que são esses pobres-diabos que trabalham o dia inteiro, passam seus horários de almoço em filas de banco para pagar contas cada vez maiores, que trabalham que nem camelos para, com seus injustos salários, pagar contas e mais contas, que precisam manter em dia seus impostos para não serem comidos pelo Leão e manterem toda essa máquina estatal funcionando; são esses, incluindo a mim mesmo nessa categoria, quem pagam o pato e tomam na cabeça. A polícia, ao invés de nos multar, deveria consciosamente fazer vistas grossas à situação, já que não melhora nada, e ir atrás dos inúmeros bandidos corruptos que ficam sonegando por aí à solta…

Mas também não quero ficar aqui com esse papinho de tio bêbado de que “Só tem corrupto nesse país e blábláblá!”. Como disse, confesso que cometi um crime do qual creio que não sou culpado. Por outro lado, sou obrigado a dizer que as pessoas deveriam se ajudar e não se foderem umas as outras, como vivemos fazendo. O que me deixa mais puto é que depois esse mesmo policial, quando for ao supermercado comprar uma caixa de suco e pagar pelo menos R$3,00, fica se perguntando por que o Brasil não vai para frente. Se parasse para pensar, entenderia!

Posted in: Mercês