¼ de século + 2 = 30 – 3

Posted on 11 setembro 2008

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Senhores, aproximei-me mais um pouco dos trinta. Dos 30! Ca-ra-lho! E senti o peso dos anos, das expectativas (da sociedade e minhas) e do corpo já não agüentando mais o tranco.

Diz o meu amigo J. A. que quanto mais perto você está da terceira dezena mais você vai sentindo o passar dos anos através dos sinais que o teu corpo vai dando. Na hora de correr, as pernas não respondem mais como antes. O pulmão, esse parece que está menor. Os cabelos já vão agrisalhando (sim, tenho uns cabelos brancos já aparecendo e não me incomodo nem um pouco com isso). Nem falar então da barriga, que nem mais teima em diminuir. Como diriam os portugueses, “está a estar e quem sabe a crescer, tão-só”.

Mas não só de corpo se fazem os 27. Também de reflexões. Sendo ou não sendo o momento apropriado, fiz eu as minhas. O que alcancei ao longo destes 30 – 3 anos? Não publiquei um livro, não plantei uma árvore nem tive um filho (ainda bem!), bem como não corri na São Silvestre nem dei entrada em um apartamento pela Caixa (novas condições, estabelecidas pelas Jacquenilda) para se viver à completude.

Tampouco viajei o tanto que queria ter viajado, não dei ainda a volta ao mundo, não visitei todos os países que gostaria nem morei na metade das cidades que me fascinam, que são muitas e onde ainda vou amarrar o meu burrinho dia ou outro (Santiago, Bogotá, Cochabamba, Cidade do México, Nova York, Montreal, Amsterdam, Dublin, Estocolmo, Reykjavik, Zanzibar, Shangai e Tóquio).

Não casei (quase), não passei um mês meditando nos Himalaias nem comi todas as iguarias bizarras que quero comer. Não publiquei nenhum grande tratado de física que mudaria o mundo, não me destaquei em nenhum ramo nem fui tomado como gênio.

Fiquei me perguntando então o que é que eu fiz nestes anos? Em um primeiro momento, confesso, entré en desesperación e quase fiquei deprimido. Mas logo comecei a fazer o pensamento reverso e me dei conta de que já sei o que fazer no resto dos anos que me aguardam. De tédio não morro, espero eu.

Quando estudava filosofia e depois clássicos da literatura, vivia pensando em todos os cabeções que admiro (Aristóteles, Kirkegaard, Thomas Mann, Balzac, Guimarães Rosa, etc.) e me comparava constantemente a eles. Pensava: “Olha só, ele fez tal coisa quando tinha só 23 anos. O que é que você conseguiu fazer até agora?”. É óbvio que entrava em uma nóia intensa.

Hoje, já prezo mais a mortalidade. Nos dois sentidos: no de saber que vou morrer (é a morte que faz com que haja a noção de tempo, dando valor às coisas) e no de saber que sou um mero ser humano com capacidades físicas e intelectuais medianas. A-ê!

Sendo assim, já sei o que tenho que fazer daqui para frente: publicar um livro, plantar uma árvore (de preferência um baobá), ter um filho (espero, sinceramente, que isso demore ainda muito), correr na São Silvestre e dar entrada em um apê pela Caixa, além, é claro, de dar a volta ao mundo e aprender a falar aluguel em islandês.

Mas tudo isso, se for pensar, não deve ser feito com pressa. Quanto antes der cabo de tudo isso, antes ficarei sem motivos para viver e sem perspectiva. O que é que vou fazer depois? É por isso que a arte de postergar é algo que só se aprende com o decorrer dos anos.

Em outras palavras, cheguei aos 27 e me aproximei mais um pouquinho dos 30, mas nem por isso estou triste por não ser um gênio da matemática ou por ainda morar de aluguel!

Parabéns então para mim, para quem comer pizza com os amigos e falar besteira já é maneira digna de passar o aniversário.

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