Um mesmo celular, duas pessoas, muitas histórias…

Posted on 16 setembro 2008

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Ele é simplório. À exceção do despertador, que é insuportável e gera(va) diariamente desejos profundos de defenestração, e do joguinho de boliche, ele não tem nenhuma função que preste. É azul, pequeno, de origem holandesa (foi o que me disseram quando o comprei) e cuja marca é completamente desconhecida. Nunca na minha vida cruzei com alguém que ao menos tivesse sabido da existência da empresa que o fabrica.

Possui um carregador muito estranho, que por sorte até hoje nunca deu pane. A entrada do plug do carregador é dessas minientradas de áudio dos fones de ouvido dos celulares atuais. Estranhíssimo.

Em resumo, não se dá nada pelo conjunto, mas mesmo assim o bichim funciona e dá alegrias.

Alegrias?

Sim, alegrias.

A mim quando morava na França e o usava pela Europa inteira (foi através desse celular que não consegui falar com a mulher da minha vida em Amsterdam, naquela fatídica manhã, e com o qual depois, por sorte e por desencargo de consciência, consegui contatá-la, adiantando assim a minha volta para Paris), e a um amigo, cujo nome não revelarei, que também está por aquelas bandas.

Winter is cold when you have no warm memories, recebido já dentro do trem, indo embora para Paris pegar o meu avião de volta para o Brasil, logo após ter passado a minha última noite em Clermont com a Tiff.

Ela foi a namoradinha-namorada-mais-séria que tive lá. Nos conhecemos no encontro regional dos assistants langue étrangère em Clermont-Ferrand. Dos quase 500 professores assistentes que foram ao encontro, alguns poucos se destacaram. Ela por ser uma das três pessoas que estavam participando do programa pela segunda vez, e eu por ser o único brasileiro de todo o encontro.

Como um bom brazuca e viajante conversador que sou, já fui puxando papo e me apresentando para todo mundo. Calhou que no almoço comemorativo sentamos eu, Tiff e as meninas que iam morar em Moulins (a haitiana Carine, a espanhola Mercedes e a alemã Anke).

Essa mesa teve um grande papel na minha estadia na França. Já ali descobri que a Tiff tinha um noivo esperando-a nos Estados Unidos, mas de quem não estava sentindo saudades, que a Carine tinha recém-saído de um relacionamento longo e que a Anke e a Mercedes estavam solteiríssimas!

Naquele dia, trocando números de celulares (daquele telefonezinho azul citado acima!) para faire n’importe quoi pour bouger un peu, descobri que a Tiff morava ao lado de casa. Literalmente: o prédio dela dividia parede com o meu. Foi inevitável que começássemos a nos ver direto, além do mais porque ela era amiga da Annie, com quem eu dividia um studio de 15m² com mais um italiano.

Sendo assim, já naquela semana combinamos de tomarmos todos umazinha no L’Appart, espécie de Central Perk (café onde os “Friends” se encontravam) da minha galera de lá. Reunimos uma penca de gente. Tomando demi pêche (chope com groselha de pêssego), fui dando uma de metidinho e flertando, no melhor estilo brasileiro “malandro mas não sei de nada”, com as meninas da “mesa”. Madrugada adentro, quando já tinham ido todos embora, acabamos ficando só eu, a Tiff e mais um par de amigos de St. Étienne no bar. Tomando, é claro.

Fim de noite, éramos os dois bourrés retornando para casa. Na hora da despedida, em frente das nossas casas, acabamos ficando…

Minha história com ela começou aí. E terminou meses depois com a mensagem que ela me mandou na manhã da minha ida para Paris.

A história com as meninas de Moulins teve início no fim de semana seguinte à bebedeira do L’Appart. Elas iam fazer uma festinha na casa delas e me convidaram. Obviamente fui.

Para ser mais preciso, era mais um ‘tit appéro que uma festinha. Não era o que eu esperava, mas não podia ter sido melhor. De-beber, de-comer e gente para conhecer. E bebi e comi e conheci gente. Acabei ficando pela primeira vez com a Carine lá, mas antes tinha flertado descompromissadamente com a Anke e com a Mercedes. No dia seguinte, quando a Carine e eu as encontramos no petit déjeuner, tudo ficou claro: a Mercedes não ia relevar a minha atitude da noite passada nem me perdoaria, sobretudo porque a Carine era a sua melhor amiga; já a Anke, por outro lado, pareceu se interessar ainda mais por mim!

O fato é que dois dias depois, quando a alemã foi a Clermont para resolver umas burocracias referentes à sua estadia, ela me ligou no celular e fomos tomar um café…

O fenômeno “eu tenho um amante latino” (no caso, eu) durou ainda uns dois meses. Para felicidade de todos: minha por motivos óbvios; delas porque estavam tendo um affaire com um latino (muito embora eu não seja nenhum exemplar digno de Ricky Martin) e matando a tal da curiosidade. Saímos todos ganhando.

Naturalmente, porque só de affaire não se vive, os relacionamentos mais representativos foram tomando lugar e fomos todos nos “vendo” menos. A haitiana começou a namorar um marroquino, a alemã continuou solteira, a espanhola virou minha amiga (independente das histórias, éramos amigos os quatro e nos víamos sempre que podíamos). Quanto a mim, acabei me envolvendo mais com a Tiff. Por literalmente ser minha vizinha, nos víamos e dormíamos juntos todos os dias e aos poucos fomos pegando carinho um pelo outro.

Não era raro, porém, receber no mesmo dia mensagens como estas:

Hey, darling, I fell you yet next to me. How about some of both of us together again tonight?

Boulu-boulu! Sak pasé? Nap boulé? Biju mú amu. (sim, com a haitiana às vezes trocávamos mensagens em crioulo, o pouco que ela tinha me ensinado e que já esqueci quase tudo.

Com a alemã trocávamos somente mensagens em francês. O escasso Ich liebe dich que eu tinha de vocabulário não convinha à situação.

Anos depois, com a França longe de mim milhares de quilômetros e agora sob os pés desse meu amigo, o meu celular holandês de marca desconhecida voltou a ter sua função mais nobre, nunca especificada em seu manual de instruções: a de juntar as pessoas.

Que palavras estará ele recebendo agora?

RDV Rivoli 17h.

G vu. Merci. T m manks !

Maussi. Bs.

Um mesmo objeto, aparentemente sem muita utilidade, envolvendo tanta gente de tantos lugares e suscitando des ‘tites et grosses joies para duas pessoas no mesmo lugar mas em épocas diferentes. O mundo todo dentro de um aparelhinho de nada. É por isso que não só as ações engendram reações. A mera existência de um objeto também.

 

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