Caballitocentrismo

Posted on 1 outubro 2008

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Toda cidade tem um ou dois bairros que são meio que o seu símbolo. Nova York tem seu Brooklin e Manhattan. Paris possui o Marais, Quartier Latin, Montmartre. Londres tem seu Soho, West End e Nothing Hill. Rio tem Ipanema e Copacabana. São Paulo tem Jardins, Vila Madalena. Buenos Aires, mi querida Buenos Aires, tem Recoleta e Palermo. No entanto, não é nenhum desses o que mais gosto na capital argentina. É a minha querida Caballito, de que tenho tantas saudades.

Lembro-me perfeitamente do que tinha em cada rua e cada esquina. Como não ter saudades da churrascaria A Punto, embaixo de casa, onde o bife de chorizo a punto e a provoleta eram uma obrigação turística? Ou então dos choripanes da Parrilla Amarilla, a uma quadra de casa, na esquina da Acoyte com a Díaz Vélez. A uma quadra dali, ainda na Díaz Vélez, mas esquina com Hidalgo, as fantásticas empanadas do Café América. Duas quadras para frente, sempre na Díaz Vélez, o sebo Los Cachorros, onde tantos Henning Mankell comprei.

Mas não só de comida compõem-se as minhas lembranças. A lavanderia na quadra de trás de casa, na Avellaneda, onde as tiazinhas me conheciam pelo nome. Está certo que achavam que o meu nome era Camilo, mas isso pouco importava. Na mesma altura, já na Acoyte, o kiosco que eu mais gostava. Propriedade de um senhor de uns 70 anos, que, ele mesmo, cuidava do negócio de noite até tarde. Vendia desde doces até leite e pão. Seguindo em direção à Rivadavia, temos o mercadinho chinês que vendia Fincas Flichmanns por um preço bem razoável. Quase na esquina das duas avenidas (Rivadavia e Acoyte), a Pancho Factory, o lugar em Buenos Aires mais próximo do SuperDog. Chegando na Riva, à esquerda o metrô, à direita duas livrarias, uma juguetería e o cinema.

Outro bairro de Buenos Aires que gosto muito é o Barrio Norte. Mesmo sendo ao lado da Recoleta e possuindo uma das ruas mais bonitas da cidade (a avenida Las Heras), não é ponto turístico. Mas a Abuelita mora lá, na rua Larrea, e por si só o bairro já deveria ser atração. Aquela velhinha vale ouro. Quando ficar velho, quero ser que nem ela.

De qualquer forma, o Barrio Norte também tinha os seus cantinhos próprios. O Café Sorrento, palco de inúmeras conversas literárias e fofoquísticas com Abuelita, é um deles. Outro, a locadora da Pueyrredón, que, para termos portenhos, era bem farta. Quase tão boa, senão melhor, que a Maestro, situada lá na Rivadavia. Na esquina da mesma Pueyrredón com a Santa Fe, escondida em uma galeriazinha, uma livraria só de livros de cinema. Nunca comprei nenhum livro lá, mas gostava de entrar, ficar vendo os títulos e conversar com o atendente, que era o próprio proprietário.

Fiquei sabendo esses dias que o Sorrento fechou. Motivo desconhecido. Realmente uma pena, porque terei que escolher outro recanto literário com a Abuelita. De qualquer forma, cafés legais em Buenos Aires é o que não falta…

E assim vão ficando marcados alguns lugares na nossa cabeça. Seja pelos lugares em si, seja pelas pessoas que foram com você lá ou pelas lembranças que guardamos. E assim não vai indo embora a minha saudade de Caballito. Ay mi Caballito querida…

 

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