Complexo de Agatha Christie

Posted on 30 outubro 2008

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Quem, em sua infância, nunca leu Agatha Christie? Que jogue a primeira pedra aquele que nunca ficou tentando dar uma de Hércule Poirot e desvendar o assassino!

Mais para a adolescência-adultícia, aqueles que guardaram um fascínio e interesse constantes pelos romances de mistério muito provavelmente começaram a inscursionar pela literatura policial, indo desde os noirzóides americanos até os escritores de ponta do momento, como Paul Auster (em alguns textos) e o mestre Henning Mankell. Sempre fascinados pelas perseguições detetivescas dos livros, quase com certeza, em algum momento, devem ter se visto imaginando seguir alguma pessoa, uma ex, um amigo, um amor, o que seja.

Sem dúvida alguma, eu me ponho nesse grupo. Mais: confesso que já segui alguém na rua só para saber como é. Foi no ano passado, por volta de novembro, quando estava em Santiago do Chile. Estava em Bellavista, na casa de uma amiga, e saí por aí caminhando à toa e a esmo. Devo ter seguido pela Av. Bellavista até a Pio Nono e dela seguido até a Bernardo O’Higgins, de onde fui até o Cerro Santa Lucia.

Sempre a pé. Subi o cerro e, lá em cima, no platô que tem vista para metade da cidade, fiquei a contemplar Santiago e o smog que paira sobre a cidade, impedido pela cordilheira de dissipar-se. Apoiado no parapeito, me dei conta de que o Cerro Santa Lucia é a versão latino-americana de Montmartre. Amélie Poulain poderia ter sido filmado lá. 

Pensando na vida, notei que uma garota, vestida de saia e jeans, blusinha branca e mochila vermelha, parou a poucos metros de mim. De revesgueio, dei uma olhada nela e vi que era bem bonita. Com certeza turista e muito provavelmente argentina. Pelo cabelo. Na hora, eu soube o que tinha que fazer: pôr finalmente em prática algo que sempre pensara mas que nunca até então fizera. Eu ia segui-la por onde ela fosse até que desvendasse o seu mistério ou a perdesse de vista.

Já de prontidão e com o meu propósito firme, fiquei de olho nela. Terminou de bater suas fotos e saiu descendo pela rampa lateral. Fui atrás, obviamente. Se bem me lembro, saiu pela Paseo Huérfanos e entrou na Miraflores. Lá, virou à direita na Merced e depois à esquerda na Mosqueto. Logo notei que estava tão-somente andando a esmo, como antes eu estava.

Com sua mochila vermelha e longos cabelos pretos, não foi difícil para mim segui-la pelo bairro histórico de Santiago.

À medida que ia caminhando, fui pondo em prática o que tinha aprendido nos tantos livros policiais que li. Fiquei no seu encalço a pelo menos 30m de distância, sempre do outro lado da rua, de forma que quando ela olhasse para trás não notasse a minha presença (as pessoas, quando olham para trás, tendem a olhar somente para o lado da rua em que estão; quase nunca para o outro). Pouco a pouco, eu parava em algum lugar, olhava alguma vitrine, simulando que estava eu também fazendo turismo ou passeando. Às vezes, pegava um livro e fingia que o estava usando como guia de ruas, intensificando meu papel de turista.

Durante seu passeio sem rumo, Flor (chamemos a moça bonita da mochila vermelha assim) parou em inúmeras vitrines, entrou em algumas lojas, comprou postais em uma banca de revistas, tomou sorvete em uma sorveteira e café em uma cafeteria.

A coffee house foi o ápice da minha perseguição. Foi o momento em que estivemos mais perto um do outro. Chegamos, inclusive, a trocar olhares.

Sentada em um cantão do café, pediu um expresso e abriu um livro. Eu, no lado oposto, na sua diagonal, fiz o mesmo. Embora estivéssemos relativamente longe um do outro, pude ver que ela estava lendo um livro do Murakami. O título não pude ver. Minha miopia não me permitiu.

Pediu um pedaço de bolo, comeu e continuou a leitura. Pedi outro café e um cookie. 

Satisfeita, ou não, levantou-se e voltou para a rua. Paguei em seguida e saí atrás. Quase a perdi. Por pouco não a vi virando a esquina.

Estávamos então na Teatinos rumo à Santo Domingo. Quando achei que ela fosse virar, seguiu reto. Entrou na Catedral rumo à Plaza de Armas. Esse era o meu medo. Já sabia que a calle Catedral era um amontoado de pessoas indo e vindo. A chance de perdê-la de vista era enorme. Ao mesmo tempo, pensei: poria, pela primeira vez, minha capacidade detetivesca à prova.

Mas fracassei. Na segunda quadra da Catedral a perdi de vista. Andei de um lado para o outro à procura daquela mochila vermelha, rodei toda a Plaza de Armas, atravessei-a, parei em cada uma das suas esquinas e nada da Flor. Devo ter ficado uns 10 minutos procurando-a. Se não a tinha achado, não ia achar mais. 

Até que desisti.

Triste pela minha incompetência, fiquei caminhando a esmo pela Paseo Ahumada. E não foi que, de repente, eu a vi bem na minha frente? Quase tropeçamos um no outro. Surpresa, ficou olhando para mim, como se fosse falar comigo. Pensei que tivesse sido descoberto, mas não. Flor estava procurando alguma coisa com o olhar e logo o tirou de cima de mim. Como se eu não existisse, e nessa hora me senti aliviado, continuou o seu rumo. Eu, por mais que tivesse levado um susto, pressenti um sinal divino. Continuei seguindo-a.

Flor deu mais umas voltas pelo centro histórico, pelas ruas menos movimentadas, e voltou para o seu hostel, que, por coincidência, também ficava em Bellavista, mesmo bairro em que eu estava me hospedando. Sempre de longe, vi-a entrar e dei um tempo. Passados uns dois ou três minutos, fui à recepção. Me apresentei (inventei um nome falso) e disse que tinha visto uma coisa cair da mochila vermelha de uma garota que tinha recém-entrado no hostel. Descrevi-a. O atendente me disse que de fato havia uma hóspede com aquela descrição. Se chamava Flor e era argentina. Foi chamá-la. 

Como o meu objetivo não era conhecê-la, por mais que fosse bonita, e sim só fazer a experiência de segui-la, fui embora. Voltei para casa e comi empanadas chilenas.

 

 

 

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