Obama pour président!

Posted on 5 novembro 2008

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Por mais que seja clichê dizer isso hoje, tenho muito apreço pela vitória esmagadora (número recorde de votantes) do democrata norte-americano Barack Obama, talvez até mais que pelas duas vitórias seguidas de Lula para o governo brasileiro (primeiro de esquerda do país). A meu ver, e sou um leigo nisso, o impacto político é muito maior, a nível mundial. 

É sabido por mim e por quem me conhece que não sou uma pessoa muito política. Não gosto de discussões políticas acirradas, não gosto nem de discutir política (até mesmo porque não sei nada), não sou afeito a pensamentos revolucionários coletivos, justamente porque acho que as maiores mudanças começam com o próprio indivíduo, na sua cabeça e posteriormente na sua atitude cotidiana.

Mas a vitória de Barack Obama era desejada por mim. Não somente porque não queria que a “dinastia Bush” continuasse com McCain, e sim porque acho que Obama pode ser o Lula americano.

Lembro-me bem das últimas eleições americanas, quando o atual Bush disputava com John Kerry. Na época, eu morava em Clermont-Ferrand e convivia diariamente com duas americanas (uma politizada e a outra não) e com um italiano completamente esquerdista, de espírito revolucionário. A mistura bombástica fez com que saíssemos os quatro a favor de Kerry pelas ruas de Clermont, com cartazes e faixas precárias feitos à mão, bótons e adesivos trazidos dos EUA. Diziam: “Kerry for president!”.

Apesar de sermos só quatro estudantes universitários a gritar por toda Clermont, acabamos conseguindo congregar uma meia dúzia de franceses de cabelos despenteados e cachecóis vermelhos, também estudantes. Nessa minipasseata clermontoise, minha única intervenção política pública, acabei fazendo meu único e melhor amigo francês, Simon Bernard, estudante de artes. 

Como todos sabem, mesmo nos esforçando, Kerry acabou perdendo. A nossa decepção foi tão grande, cujas más expectativas foram todas, dia a dia, comprovadas depois pelo governo Bush, que saímos os quatro para encher a cara no dia seguinte ao da eleição. Embora pequeno, nosso gesto ficou tão marcado em cada um de nós que, logo que chegou aos EUA, a Annie (americana que morava comigo) me mandou de lembrança um ímã de geladeira do Bush acenando em frente à Casa Branca. Tão estranho e subjetivo é o seu significado que todos que o vêem grudado no meu mural me dizem, com nojo: “Quê? O Bush?”. Tenho que explicar todas as vezes que é uma questão de ironia.

De qualquer forma, 4 anos depois, Obama ganha e estou eu aqui a pronunciar, ineditamente, meu apreço pelo ocorrido. Fico então pensando se ontem não teve gente lá em Clermont que ficou gritando “Obama pour président!” pelas ruas e que acordou hoje de ressaca pela bebedeira de ontem. Uns, umas vezes, bebem por desgosto, outros por contentamento.

God bless America, and may Obama bless the world.

 

 

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