UYtrip – dia 3

Posted on 13 janeiro 2009

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A última das noites bem dormidas se deu sem sabermos que a estávamos vivendo. Tanto que nem bola demos. De manhã cedo, acordamos e fomos tomar o café-da-manhã no hotel. Aliás, café-da-manhã do qual o Camilo já vinha fazendo propaganda há dias.

“Porque lá eles têm um cara só para fazer panquecas para você!” E de fato tinham, e o tal do panquequeiro, além de fazer o que o seu nome já diz, também preparava ótimos waffles no melhor estilo belga, com o recheio e a calda que você bem quisesse. Mais uma oportunidade não perdida para aumentar a barriga já cada vez maior. 

Hernán, como um gentleman chileno que é, ao contrário do filho, comportou-se direitinho. Já o Camilo e eu, nós fomos à forra. O Camilo que o diga. Repetiu umas quinze vezes, o glutão!

Terminado o melhor café-da-manhã que teríamos nos próximos 15 dias, fomos os três pegar no pesado, como diria o meu pai, por mais que de pesado eu não tenha levantado nada, à exceção da máquina fotográfica. 

Camilo e Hernán ficaram trabalhando em suas coisas enquanto eu ia batendo fotos, tanto do que tinham me pedido, quanto de outras coisas interessantes e desinteressantes que fui vendo.

Câmera dos Vereados de Pelotas no melhor estilo franchouillard

Câmara dos Vereadores de Pelotas no melhor estilo franchouillard

 

Pelotas, cidade de pessoas ou de vira-latas?

Pelotas, cidade de pessoas ou de vira-latas?

Mortos de fome e sujeitos à grandessíssima e variada criatividade de Camilón el Cabezón, fomos almoçar no restaurante do hotel. Lembro que pedi com o Hernán um macarrão ao alho e óleo, que estava bom. 

Depois do almoço, já em clima de partida, nos despedimos do antepassado de todos os Gonzas e demos continuidade à UYtrip (para o Camilo foi como dar início, mas para mim tudo já estava contando como férias). Na saída de Pelotas, paramos em um posto de gasolina para abastecer o carro, verificar a água e o óleo. Com que nos deparamos? Com o nível do óleo abaixo do mínimo. Eis que mal sabíamos que a odisséia do óleo estava só no seu início.

O mistério do óleo do Gonza

O mistério do óleo do Gonza

Camilo e eu nos olhamos preocupados, indagamos por que cargas d’água o maldito óleo estava tão baixo. Não é preciso dizer que nem titubeamos em completar o reservatório com mais um litro. Antes de sair de Curitiba, o Camilo me disse que tinha trocado o óleo do carro e que o tinha deixado em ordem. No entanto, como tinha mexido no cabeçote havia poucos meses, me pediu para sempre estar de olho no nível do óleo. Eu, antes de sair, olhei em Curitiba e estava tudo em ordem. Durante a viagem, não vi. Mas também não ia esperar que o Gonza fosse perder um litro em meros 1.000km.

Pegamos novamente a BR116 rumo a Jaguarão, fronteira com o Uruguai. Mais umas 2h30 rodando e chegamos à zona fronteiriça. Passamos pela ponte por sobre o Rio Jaguarão e pisamos pela primeira vez, na nossa roadtrip, em terras uruguaias.

Ponte de Jaguarão

Ponte de Jaguarão

A euforia foi grande. Chegamos a duvidar por momentos que tínhamos realmente entrado no Uruguai. Ninguém tinha nos parado, nada tinha acontecido. Foram as placas em espanhol de free shop e dos carros que nos fizeram entender que finalmente estávamos na terra dos doces de leite.

Matricula uruguaya

Matrícula uruguaya

Mesmo tendo certeza que tínhamos cruzado a fronteira, continuamos sem entender nada. Onde estava a maldita aduana? Paramos e perguntamos. Já na primeira abordagem nos demos conta de quão diferentes são os uruguaios dos argentinos (sempre nosso parâmetro). Primeiro que já falam com você sorridentes. Te dão bom-dia, te explicam as coisas com calma, com amabilidade e não resmungam nem reclamam do presidente no meio da conversa. Depois, o trânsito: muito mais calmo, sem buzinaço, sem aquela muvuquice típica da Argentina. Em terceiro lugar, entre os uruguaios não há lugar para melodramas. Eles até podem não ser tão afeitos à comédia, mas tampouco são fãs de tragédia.

Descobrimos então que o complexo aduaneiro de Jaguarão/Río Branco/La Cuchilla ficava a uns 4km da fronteira. Estranho, mas é assim mesmo. Afinal de todos, somos todos hermanos latinoamericanos. Apesar de distante, o tal complexo é bem fácil de achar.

Aduana

Aduana

Descemos do carro com os passaportes, documento do carro e carta verde na mão e fizemos fila para “entrar” no Uruguai. Na nossa frente, uma família brasuguaia apresentando seus papéis. Mal chegamos já nos demos conta que de estava rolando uma treta. A inteligente da mulher estava tentando entrar no Uruguai com a carteirinha de natação do filho. Vê se pode uma coisa dessas? Carteirinha de natação? Já vi gente querendo entrar com CPF, com título de eleitor, com certificado de dispensa do serviço militar obrigatório, mas com carteirinha de natação ainda não tinha tido o privilégio. Uma cabeçuda essa mãe. Por sorte dela, quem teoricamente deveria ser o pai estava presente e era uruguaio. O fiscal da aduana, por então ser seu conterrâneo, acabou se apiedando da pobre e cabeçuda senhora e lhe permitiu a entrada, assim como a seu filho, não sem antes lhe dar aquele sermão! Deixo claro aqui que acho que o pai também deveria ter sido alvo das palavras do fiscal.

Chegada a nossa vez, como bons e não-amadores viajantes que somos, apresentamos devidamente todos os documentos, explicamos sem enrolação nosso motivo de entrada e fomos atendidos com primor pelo fiscal, que, por reconhecer uma semelhança entre nosso cucuruchón chileno e o ator global Thiago Rodrigues, simpatizou automaticamente conosco. De meros brasileiros entrando no Uruguai viramos o sósia do Thiago Rodrigues e seu amigo com sotaque forte. Melhor impossível. 

Digam se não se parecem!

Digam se não se parecem!

E aqui a cópia mal lavada do global

E aqui a cópia mal lavada do global

Papo ia, papo vinha com nosso amigo da fronteira, vi que estava tomando mate. Fiz a ele duas perguntas: 1. onde podíamos trocar dinheiro?; 2. onde podíamos conseguir água quente para o nosso primeiro mate em terras uruguaias? Acabou que, enquanto fomos ao lugar que nos indicou para trocar dinheiro, ele ficou de esquentar água para nós. Fomos, trocamos dinheiro (o melhor câmbio do Uruguai, saibam, ficam nas regiões de fronteira; pagamos 10 pesos uruguaios para cada real que trocamos; em Montevideo, o melhor cambio que conseguimos foi 9,5) e voltamos. Nosso amigo, fã das telenovelas brasileiras, tinha na mão nossa garrafa térmica cheia de água quente para nosso primeiro mate. 

Primeiro mate em terras uruguaias

Primeiro mate em terras uruguaias

Com mate sebado e em ritmo de festa, entramos no carro e seguimos pela Ruta 26 rumo a Tacuarembó. No caminho, nada além de vacas, vacas e mais vacas. 

Chegamos em Tacuarembó comigo na boléia. Vinha que vinha pela UY que entrei na cidade sem prestar muito atenção. Sem querer cruzei um semáforo no vermelho e quase cometi o primeiro acidente automotivo da história de Tacuarembó, tamanha a pacaticidade da cidade. Teríamos entrado para os anais da história. Foi por pouco que o prefeito de lá não se viu obrigado a nos homenagear com uma estátua de bronze.

Pedindo informação na praça principal depois de quase ter causado o primeiro acidente de Tacuarembó

Pedindo informação na praça principal depois de quase ter causado o primeiro acidente de Tacuarembó

Depois de ter dado aquele rolezinho pela praça principal, nos hospedamos em um hotelzinho bem chinfrim. Quartinho de paredes caiadas, três camas, possível pulgueiro à vista (graças a Deus só possibilidade) e banheiro bem safado. Mas como quarto de hotel em viagem é mais para dormir que qualquer outra coisa, o espírito de contentamento foi geral. 

Tacuarembó way of life

Tacuarembó way of life

Para jantar, procuramos uma parrilla tipicamente uruguaia, onde queríamos nos acabar de tanto comer. Eu, particularmente, queria matar as saudades dos 18 meses longe da minha tão querida Argentina. Sentei já seco e quase fui soltando aquele: troesma, un bife de chorizo, a punto, bien servido, y una prova como entrada. Para minha surpresa, e precaução, olhei primeiro o cardápio. Nada de bifes de chorizo! Tristeza não tem fim, felicidade sim. Mas não desanimei. Analisei o menu com cuidado de pedi uma pulpa de vacío, que imaginava ser o mais próximo do vacío maradonenho. E era. Camilonga do Cabuletê pediu um asado de tira, que mais parecia ter saído diretamente de uma costela de vaca! 

Asado de tira

Asado de tira

Comemos que nem rei e, mesmo nos empanturrando, não conseguimos dar conta nem da metade do que tinham nos trazido. No Uruguai, as porções são super-hiper-ultra-megaservidas. Dá para um esfomeado como o Camilo se saciar, sobra para mim e se bobear ainda para alguma senhorita que coma como um passarinho. 

Quando pedimos a conta, o garçom nos olhou desconfiado. Perguntou se não tínhamos gostado, já que deixamos quase tudo no prato. Tentamos lhe explicar que não, que tínhamos gostado mas que era muito. Ela não quis entender. Franziu o cenho, fechou a cara e não quis mais conversar. Trouxe a conta resmungando. 

Do restaurante, não pudemos fazer outra coisa que nos arrastar até o hotel e cair nocauteados pela comilança.

Mais um dia rumo à grande pança.

 

 

Posted in: Uruguai