UYtrip – dia 4

Posted on 14 janeiro 2009

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Como não poderia ser diferente, vou abrir o relato do quarto dia de viagem falando de comida. 

Nosso primeiro café-da-manhã uruguaio foi típico e já deu a entender desde o princípio o que nos esperava nas próximas duas semanas: café ruim, leite quente, pão e doce de leite. Por ser ainda o primeiro dia, confesso que me acabei no último, que sempre é bom naquele mardito país. 

Enquanto Camilonga de la Croix foi buscar o carro, fiz checkout. Seguindo o conselho do recepcionista e meio a contragosto do Camilo, fomos conhecer o tal do Balneario Iporá, nas aforas de Tacuarembó. 

Caminho para Iporá (não notem que a foto ficou super mal enquadrada)

Caminho para Iporá

Trata-se de um parque construído ao redor de um lago artificial (coisa comum no Uruguai). Chamam de “balneário” porque há muita gente que tem casa lá e usa o espaço quase como uma praia. Embora pareça estranha a idéia, o resultado foi positivo. Iporá ficou mesmo com aquele ar de prainha (tenho minhas desconfianças que isso se deva ao cheiro do protetor solar). 

Lago artificial

Lago artificial

Com o Gonza tinindo de tão saltitante, nos embrenhamos por entre as casas e árvores para conhecer melhor o “complexo balneário”. Conseguimos achar o caminho, o que não era nem um pouco difícil, para chegar ao topo do cerro que está no parque. Do platô, mais uma vez encontramos paisagens de rótulo de doce de leite. Com vaca e tudo.

Paisagem de rótulo de doce de leite

Paisagem de rótulo de doce de leite

Celebramos com um autêntico mate argenturuguaio (cuia, erva e bomba argentinas; gostinho uruguaio), vendo as vacas pastar, porque pessoas é o que menos tem no Uruguai. 

Preparando o mate (a porcaria do pára-sol saiu em muitas fotos)

Preparando o mate (a porcaria do pára-sol saiu em muitas fotos)

Na dúvida se alguém já tinha conquistado ou não aquele cerro, registramos nossa passagem à la Cristóvão Colombo.

Magoo Colombo

Magoo Colombo

O próximo lugar de interesse turístico (parodiando as placas de Wittmarsum) foi o Cerro Cementerio, na BR (UY na verdade). Camilo, alegando reumatismo, dor na vesícula ou tão-somente preguiça, ficou no carro enquanto eu subi o morro. Como o próprio nome já diz, o Cerro Cementerio não é nada mais, nada menos que um morro e cemitério ao mesmo tempo.

Cerro Cementerio

Cerro Cementerio

As sepultura cavadas no cerro

As sepulturas cavadas no cerro

Algumas pessoas cavaram nas encostas e sepultaram seus mortos lá. No topo, uma cruz branca e uma vista privilegiada do presepeiro do Camilo, que de arte só faz isso: 

Shakotilla de pé tomando mate em cima do Gonza

Shakotilla de pé tomando mate em cima do Gonza

Na verdade, é preciso dizer, Camilo não subiu no morro comigo por dois motivos: o primeiro porque estava mesmo com preguiça; o segundo porque ficou no carro tentando e tentando e tentando arrumar o rádio, que tinha começado a ficar temperamental desde a nossa entrada no Uruguai (e isso não é brincadeira). Desde o momento em que pisamos no Uruguai o dito cujo resolveu não tocar mais as músicas, pular toda hora e funcionar só quando bem entendesse, isto é, nunca. A manhã do Cerro Cementerio foi quando o Camilo não quis se dar conta de que estávamos fodidos: estaríamos as próximas duas semanas de viagem sem rádio, eu obrigado a ouvir as cantorias demoníacas e pagodeiras da pacotilla com quem fui viajar. Paguei todos os meus pecados nessa viagem. Aliás, até estou com crédito com Deus depois dela. 

Mas o fato é que subi, desci e continuamos rumo ao Museo Testimonial Carlos Gardel, que é uma tentativa suspeita dos uruguaios de provarem que o Gardel nasceu em Tacuarembó. 

Museo Testimonial Carlos Gardel

Museo Testimonial Carlos Gardel

O museu estava bem conservado e guardada algumas boas fotos do cantor de tango.

Corpo de Gardel carbonizado no acidente aéreo que o matou

Corpo de Gardel carbonizado no acidente aéreo que o matou

Também expunha o que eles disseram ser documentos definitivos certificando que Gardel nascera em Tacuarembó. Vai saber. Piper, meu querido teimosinho, diz que ele é francês, e acredito nele.

A prova dos uruguaios

A prova dos uruguaios

Do Valle Edén, em que se situa o tal do museu definitivo, mandamos bala para Paysandú, onde queríamos almoçar antes de continuar nossa viagem até Colonia. Nessa mesma noite tínhamos uma reunião da cumbre secreta de adoradores do escritor sueco Henning Mankell. 

De Tacuarembó a Paysandú são mais ou menos uns 230km, os quais foram os mais inóspitos de toda a viagem. Sob chuva, o Gonza se comportou comme il faut, fazendo as curvas e não derrapando nenhuma vez, à exceção de uma vez em que o Camilo esqueceu de freiar para entrar na rotatória, mas isso também não foi culpa do Gonza. No caminho, nada além de plantações de vacas e rebanhos de eucaliptos. Se nesses 230km passamos por 10 casas, é muito. Por outro lado, já vacas… Milhares. Vossa gaboquice quer saber o que tem no Uruguai? Respondo-vos: vacas! Uruguaios é só um detalhezinho menor.

No meio do caminho, já com o tanque pela metade, passamos um susto. Há quilômetros vínhamos sem ver nenhum sinal de civilização, ao mesmo tempo em que o ponteiro da gasosa ia baixando aos poucos. Ficamos preocupados. Caralho, será que vamos ficar sem gasosa aqui no meio do nada? E o pior é que se ficarmos na mão aqui, vamos ter que caminhar muito, mas muito para encontrar um posto. Isso sem contar que esqueça as caronas. Nem carro passava por nós. Se Ushuaia é o fim do mundo, o noroeste uruguaio é uma sede internacional. 

Até que vimos uma placa de posto e parador. Nos entreolhamos e dissemos: Ufa! Diminuímos a velocidade e entramos no posto.

Parador

Parador

E não é que não era posto não. As bombas estavam lá, mas nada de frentista, atendimento nem nada. Acho que aquilo foi desativado no milênio passado!

Posto do milênio passado

Posto do milênio passado

Mesmo não tendo gasolina, o parador ao lado, teoricamente com comida, parecia estar funcionando. Entramos e fomos recebidos pelas moscas. Cheguei a pensar que também não ir ter ninguém lá, mas logo vi uma família num cantinho e uma atendente escondida atrás da caixa registradora. Com moscas ou não, resolvemos pedir umas empanadas, já que a perspectiva de comida não crua (vacas) era ínfima. Quando a moça nos trouxe na mesa as empas, perguntamos a ela a quanto estávamos do próximo posto. Ela nos olhou meio incrédula, fez uma cara de leve maldade e respondeu: “Olha, pra lá são uns 90km. Pra lá uns 140km!” Ah, legal. Muito obrigado. O pensamento foi em uníssono: que a porra do tanque não acabe antes.

Com o Gonza já rodando mais devagar e aproveitando o embalo nas poucas descidas que encontramos, fomos susse que nem musse até Paysandú. Chegamos com o Gonza já estava pela boa. O bichinho aceitou a gasosa como se fosse um pinguço com a cachaça. Aproveitamos o ensejo e demos uma olhada no óleo, que já tinha baixado de novo até o mínimo. Preocupação. Que porra é essa de o Gonza ficar perdendo tanto óleo em só 200km? 

Rodamos toda a porcaria da cidade atrás do óleo que o Gonza usa (tão achando que ele é pouca bosta? ele é muita bosta! só usa um tipo de óleo, o metido) e só fomos encontrar em um posto fora da cidade. Quando resolvemos ir comer, já era 15h e todos os uruguaios de Paysandú já estavam em suas respectivas casas tirando suas siestas. Onde comer então? Restaurantes, pancherías e kioscos todos fechados! A fome e o mau humor do Camilo aumentando (ele é que nem o Piper; quanto mais de mau humor, mais mala fica), eu tendo que pôr algum razão naquela cabeça grande e oca. Dá para acreditar que ele cogitou seriamente almoçar em uma sorveteria? Vê se eu posso com isso. 

Por sorte, no entanto, encontramos um mercado aberto. Ainda com as minhas funções racionais em perfeito estado (já tive minhas experiências com o Piper), pedi umas empanadas, uns bizcochos de sobremesa e uma Paso de los Toros para tomarmos. Na hora de pagar, tchanã! Nosso galã global saiu novamente do armário e foi reconhecido. A caixa do supermercado cismou que o Camilo era o Thiago Rodrigues (como também não confundi-los, não?) e nos perguntou se ele era mesmo o ator. O Camilo respondeu que não, mas eu, escondido dele e pelas suas costas, disse que sim. A menina entrou em delírio. Se levantou, chamou as outras caixas. Foi feita a festa. Um alvoroço se criou entre as atendentes, que ficaram perguntando ao Camilo se ele era mesmo ou não o TR. Obviamente ele disse que não, enquanto eu, sempre querendo pôr lenha na fogueira, ia acenando com a cabeça escondido que sim. Até tirei o meu RG para provar que éramos brasileiros e que ele era o galã de novela. Ao Camilo não lhe restou muita outra coisa que pagar, sair apressado e xingar até a minha quinta geração. Eu, da minha parte, me caguei de tanto rir. 

Com a fome saciada, o mau humor do galã se dissipou. Entramos no carro e partimos para Colonia.

Passamos por Mercedes, uma cidadezinha a que não dávamos nada, mas que nos surpreendeu. Tem uma beira-rio lá bem charmosa.

Beira-rio em Mercedes

Beira-rio em Mercedes

Convite para outro mate. 

Servido?

Servido?

Acabamos chegando em Colonia  um pouco antes de anoitecer.

Magoo na boléia rumo a Colonia

Magoo na boléia rumo a Colonia

A Abuelita já tinha ido ao nosso hostel nos procurar. Nos instalamos, abrimos uma cervejinha para relaxar e cada um foi tomar seu banho. Nisso, chegou nossa querida Bubu, toda sorridente. O festerê se fez. Do hostel, saímos para aumentar uma vez mais a barriga e botar a conversa em dia. Eu, pelo menos, embora troque e-mails com ela semanalmente, não a via há um ano. 

E isso tudo no dia 23. No dia seguinte, Natal com a Abuelita.

 

 

Posted in: Uruguai