UYtrip – dia 14

Posted on 6 fevereiro 2009

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Penúltimo dia de viagem. Chegamos ao ponto culminante: Cabo Polonio. O lugar a que mais queria ir na viagem. E não só desde os preparativos.

Há pelo menos dois anos, quando ainda morava em Buenos Aires, saí uma noite com o Camilo para tomarmos uma cervejinha no Gibraltar, um pub típico de San Telmo cheio de gringos.

Gibra

Gibra

Lá, conheci uma holandesa que já tinha viajado o mundo inteiro. Nascida em Amsterdam, cresceu na Tailândia. Morou na África e veio para o sul da América Latina com uns 20 e poucos. Só isso já é ensejo para conversar durante uma noite inteira. Lá pelas tantas, sentados no balcão ainda tomando cerveja, perguntei-lhe: “Me diga uma coisa: você, que teve oportunidade de conhecer o mundo inteiro, tem especial preferência por um lugar? Algum que tenha te marcado mais que outros?”. Para minha surpresa, ela respondeu de primeira, sem nem hesitar: “Cabo Polonio”, no Uruguai. Tendo ela já viajado por tudo, achei inusitado escolher um lugar justamente no Uruguai. Por si só já é inspirador, ainda mais porque é um país vizinho. Pedi que ela me contasse mais. Desde então, tinha muita vontade de voltar.

Com tudo isso em mente, acordei de manhã animado. Ia ser um dia massa. Camilón e eu levamos as coisas para o carro e fomos tomar café-da-manhã (pão, doce de leite e café ruim). Na mesa-refeitório do hostel, nos sentamos ao lado de duas garotas argentinas. Demos bom-dia e, como mal responderam, ficamos por isso. 

As tais

As tais

De repente, uma delas olha bem para mim, estica o braço, aponta para o pão e faz um gesto de abrir e fechar a mão. Sequer usou um “pán” ou “por favor”. Pressumi que ela gostaria que lhe passasse o pão e pensei: “Puta mina mal-educada, caralho”.

Quero!

Quero!

Essa mesma garota, no noite anterior, tinha feito algo similar com o Camilo. Estávamos os dois sentados na mesma mesa comendo empanadas e tomando cerveja com o pessoal do hostel. Ela, que daqui para frente será chamada de Gloria (obviamente é o seu nome verdadeiro), lhe passou uma cerveja, olhou para o Camilo, com o mesmo olhar que lançou sobre mim, e disse: “Abrila“. Mais uma vez nada de “por favor”. O Camilo olhou para mim e fez aquela cara de desgosto e “Qualé dessa mina?” que ele sempre faz. Eu lhe disse: “Abra e foda-se. Deixa quieto”. Aberta a cerveja, ele a devolveu para a mademoiselle educação, que nem agradeceu. 

Voltando ao café-da-manhã, flashback. A mademoiselle educação Gloria aponta para o pão e mexe a mão, dando a entender que queria que lhe passasse a cesta. Dou risada e lhe passo. Foda-se. 

Enquanto comíamos, Camilo e eu ficamos conversando sobre Cabo Polonio e pensando na trip. Gloria, que devia estar escutando nossa conversa, inacreditavelmente formula uma frase completa, com sujeito, verbo e predicado, sem nenhuma ordem no meio: “Vocês dois estão indo para o Cabo? Nós também. Podemos pegar uma carona?”. Enquanto eu e o Camilo nos entreolhamos, os dois com aquela cara de “Você, depois de toda falta de educação, ainda tem a pachorra de pedir carona?”, Patricia, a amiga da Gloria, que estava na mesa esse tempo todo, tentou se esconder para não morrer de vergonha. 

Me dá uma carona?

Me dá uma carona?

Meu incauto companheiro de viagens e eu nos entreolhamos de volta com o mesmo pensamento na cabeça (esse é o bom de conhecer uma pessoa há tempos; você sabe o que ela está pensando): “Por que não? Vamos ver qualé dessas duas loucas. Se tretarem muito, damos a carona e depois nos separamos em Cabo”. Eu ainda pensei: “Isso aí é que nem cavalo chucro, depois de domado fica mansinho, mansinho”. 

Depois de domado, fica mansinho, mansinho...

Depois de domado, fica mansinho, mansinho...

Pois bora lá.

Demos uma organizada no Gonza para que todos entrassem com conforto e partimos. No caminho, Patricia foi puxando conversa. Respondíamos com reciprocidade. Gloria, a mademoiselle educação, foi entrando na conversa, participando mais e dando risada das nossas besteiras. Pela metade da viagem (não mais de 40km), já estávamos com uma impressão de que elas eram gente fina, inclusive Gloria. Apesar do humor ácido (que despertou em mim um interesse de desafio de ver qualé daquela mina), Gloria foi se mostrando simpática depois das primeiras abordagens. Patricia, bem mais dócil, gente boníssima. 

Chegamos na “entrada” para Cabo Polonio e estacionamos. Pelo que tinham nos dito, era impossível chegar a Cabo de carro. O caminho para lá, no meio das dunas, só permite que jipes, bugues ou caminhões especialmente adaptados acedam. 

Caminhões adaptados que dão acesso ao Cabo

Caminhões adaptados que dão acesso ao Cabo

Já nos fazendo amigos, compramos nossas passagens para um desses caminhões, subimos na carroceria e mandamos ver. Me sentei em cima da cabine, ao lado de dois hippongas muito loucos (que vivem pela vida há 10 anos), que foram me falando de Cabo e de outras praias dos arredores. 

Mal pegamos o caminho me dei conta de que era verdade que carros comuns não conseguem chegar. No meio daquelas dunas, íamos ficar completamente atolados na areia. O Gonza sofreria.

Se ele não aguentou, imagine o Gonza...

Se ele não aguentou, imagine o Gonza...

Eu, que já estava impressionado com a beleza das dunas, fiquei mais de cara ainda quando o caminhão chegou à praia, ainda longe de Cabo. Era, sem sombra de dúvidas, o lugar mais bonito da viagem.

Chegando à praia, com vista para Cabo Polonio ao fundo

Chegando à praia, com vista para Cabo Polonio ao fundo

Roots style

Roots style

Sempre pela areia, andamos ainda uns 10 minutos de caminhão até chegar à vila de Cabo. Sem energia elétrica e bem rústica, localiza-se ao lado do farol e de uma encosta de pedras. De estilo meio hipponga, as casas acabam perfazendo um lugar muito pitoresco.

Descemos da caçamba do caminhão e, levados pelo impulso de conhecer a reserva de lobos-marinhos, fomos para o lado do farol.

Camilonga em direção ao farol

Camilonga em direção ao farol

Mademoiselle Educação (depois simpática) e Paty

Mademoiselle Educação (depois simpática) e Paty

Rumo ao farol

Rumo ao farol

Dizem que Cabo é um dos poucos lugares no mundo em que há uma reserva de lobos-marinhos ao lado de uma aglomeração humana. E quando digo uma reserva, falo de uns 300, 400 lobos-marinhos juntos berrando e fazendo o que lobos-marinhos fazem, que, pelo que vi, não vai muito além de dormir e lagartear no sol.

Bando de vadio

Bando de vadio. Não é à toa que se parecem com o Camilo.

De lá voltamos para os lados da vilinha e continuamos em direção às dunas.

Camilo, Gloria e Magoo voltando do farol

Camilo, Gloria e Magoo voltando do farol

No meio do caminho, paramos e deitamos na areia. Estávamos os quatro (eu, Camilo, Patricia e Gloria) já ficando amigos, de forma que não estranhávamos mais as esquisitices da Gloria. Aliás, tanto ela quanto a Paty já estavam nos caindo bem. 

Almoçamos deitados na praia e ficamos conversando.

Paty (a bronzeada) e Camilo (o gordo)

Paty (a bronzeada) e Camilo (o gordo)

Pelas tantas, incentivados pelo meu espírito aventureiro, desbravamos as dunas. 

Magoo, também gordo, em cima da duna

Magoo, também gordo, em cima da duna

E lá de cima descemos rolando. Terminamos à milanesa. 

À milanesa

À milanesa

Inspirados pela presepada e loucos para tirar o caráter à milanesa de nossas pessoas, entramos no mar quase sem titubear…

Que ideia idiota que eu fui ter!

Que ideia idiota que eu fui ter!

… mesmo a água sendo muito fria.

Será mesmo?

Será mesmo?

E não é que tive uma ótima surpresa? Ao lado de Praia de Ponta Negra, nos pés do Morro do Careca, em Natal-RN, Cabo Polonio se mostrou como uma das melhores praias para pegar jacaré a que já fui. Só eu peguei 4 jacarés perfeitos. Camilo, sempre atrás, diz que logrou 2. 

Pegou n~

Pegou não, seu mentiroso!

Não aguentando mais a temperatura gélida da água, saímos e fomos nos esquentar no sol, sobre as dunas.

Torra, fio da mãe, torra!

Torra, fio da mãe, torra!

Foi esse esquentar-se o responsável pelo meu torrão. Queimei até as canelas! Detalhe: torrão, tratado a muito amaciante de pele, virou um bronze bem-vindo, o qual, infelizmente, já deu seu adeus. Ficamos lá tomando sol pelo menos uma hora presepando.

Ninja Gloglo x Maguinja

Ninja Gloglo x Maguinja

Cabo visto do alto das dunas

Cabo visto do alto das dunas

Camilo Pacotilla y su sombrerito de chancho

Camilo Pacotilla y su sombrerito de chancho

Paty Mayonesa

Paty Mayonesa

Gloglo, la educada

Gloglo, la educada

Magoo, el buen chico

Magoo, el buen chico

Quando já estávamos com sede e com fome, voltamos à vilinha e tentamos tomar um cerveja gelada, coisa difícil de conseguir em Cabo. E isso sempre com nossas amigas argentinas.

Bora lá tomar uma berinha!

Bora lá tomar uma berinha!

Pelas tantas, pegamos o caminhão para voltar.

Magoo e Paty

Magoo e Paty

Gloglo e Camilonga

Gloglo e Camilonga

Na “entrada” de Cabo, cebamos um mate e nos despedimos das nossas amigas de humor inconstante, mas mesmo assim gente boníssimas. E, como eu tinha imagino, cavalo chucro realmente amansa depois de ser domado… Até disseram que se divertiram conosco. Nos despedimos com esperança de podermos nos reencontrar no meio do ano. Estou planejando passar 20 dias em Buenos Aires.

Despedidas à parte, tocamos para Valizas, onde tínhamos a esperança de dormir. Tudo cheio. Os argentinos tinham tomado toda a região. Fomos a Castillo e o único hotel que encontramos também estava cheio. Decidimos que íamos percorrer as praias em sentido norte (Brasil) uma a uma até acharmos um lugar para dormir. Às 20h30 conseguimos um lugar para pôr a barraca em um dos dois hostels (o outro estava completamente cheio) em Punta del Diablo, justamente onde pretendíamos visitar na manhã seguinte, antes de tocar o dia inteiro até Curitiba. Dessa forma, aumentamos o nosso leque de tipos de lugares em que nos hospedamos durante a viagem: hotel, hostel, casa de amigos, casa de praia. E barraca. Por sorte tínhamos uma no carro, por precaução, porque não havia nenhuma no hostel para alugar. 

A nossa não era assim tão tecnológica

A nossa não era assim tão tecnológica

Montamos a barraca, duvidamos pelo conforto que teríamos e o Camilo se meteu na mesa de pingue-pongue, desafiando todos, enquanto eu fiquei conversando com um pintor de casas argentino cuja profissão real é sommelier (que merda!). 

No dia seguinte, último de viagem, voltaríamos para o Brasil…

 

 

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