Back to the France – o episódio de Clermont-Boquerrand

Posted on 19 fevereiro 2009

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Esta é uma história que escrevi no final de 2004, mas que nunca publiquei. Morava na França, dava aulas para crianças e não tinha blog. Aliás, nem sabia o que era isso. De qualquer forma, escrevi e guardei. Lembrei que ela existia quando estava redigindo o UYtrip – dia 10. Fui ao meu mail da época, cuja senha inacreditavelmente ainda sabia, e procurei-a entre os possíveis remetentes. Por fim, encontrei-a e aqui os deixo com ela. Não preciso nem dizer que alterei os nomes, por respeito aos protagonistas. 

 

Hoje quero lhes contar um episódio da minha casa que se passou agora a pouco. Estou dando risada até agora, porque me diverti muito. Alguns poderão dizer que fui um tanto quanto malvado por ter feito, mas outros, como o meu querido amigo Piper, me dirão que fiz bem.

Na noite de ontem, sexta-feira, todos queriam sair para festar um pouco, mas somente o Patrick saiu, como de praxe. A Larissa estava meio doente, ainda está na verdade, eu estava com vontade de ficar um pouco tranqüilo e ouvir um pouco de música. Sendo assim, o Patrick saiu sozinho para beber, fazer presepadas e voltar para casa bêbado, como ele sempre faz. Larissa foi dormir, e eu fiquei deitado em cima do yoga pet (espécie de isolante térmico) com o saco de dormir da Larissa ouvindo Sigur Rós e outras cositas más.

Às 5h da madrugrada, Patrick entra completamente bêbado em casa, tropeçando em tudo, com aquela cara de breaco que só ele faz. Eu, por outro lado, estava acordadaço ouvindo as minhas músicas, sempre deitado sobre o yoga pet. Patrick entra, começa a tirar a roupa, não diz nada, fica só de cueca e entra no banheiro. Tranca a porta, inclusive. A Larissa não ouviu nada disso e eu fiquei na minha. Deixa o bêbado fazer o que quiser. Fiquei ali, ouvindo música e esperando só para ver o que ia acontecer. Dez minutos se passaram, quinze minutos se passaram, vinte minutos se passaram, meia hora se passou, quarenta e cinco minutos se passaram e eu, que já estava cansado, resolvi me deitar, pois eu já estava ouvindo música desde a meia-noite. Troquei de roupa, fui para o meu colchão inflável (matelas gonflable), me enfiei dentro do saco de dormir, coloquei uma coberta sobre mim (estava um frio desgraçado nessa noite) e tentei dormir, mas não consegui.

 

O meu era igualzinho a este!

O meu era igualzinho a este!

 

De repente, a Larissa meio que acorda e quer ir ao banheiro. Para que ela não se assustasse, lhe digo que o Patrick estava lá há mais de uma hora dormindo e, detalhe importante, roncando. Digo isso enquanto rio. Ela não entende direito, porque estava ainda mais dormindo que acordada. Ela vai até o banheiro, vê que a porta está fechada, olha para mim e começa a rir. Nós dois, então, caímos na gargalhada. Isso às 5h15 da manhã mais ou menos.

O ronco, por sua vez, está cada vez mais alto. A Larissa, preocupada com o Patrick (marinheira de primeira viagem que ela é), tenta acordá-lo batendo na porta, mas nada de o Patrick dar sinal de vida. Ela bate mais, lhe pergunta se ele está dormindo e ele lhe responde que não, é óbvio. Vocês já viram alguém dormir no banheiro e confessar que fez isso? Eu nunca vi. Ela volta para a cama, espera mais um pouco e volta a bater na porta. Óbvio que o Patrick não respondeu. A Larissa voltou mais uma vez para a cama, esperou mais um pouco e reiterou a bater na porta. Desta vez ele meio que respondeu algo em italiano, qualquer coisa como a’ capokkia (cabecinha do pau).  Ela volta de novo para a cama e depois de alguns instantes sai o Patrick, só de cuequinha, do banheiro, põe o seu pijama (dormir de pijama é coisa que velho) e se deita em cima do yoga pet, onde eu estava, fingindo que ia escutar música.

É claro que não deu dois minutos e ele começou a dormir. Pior até: começou de volta a roncar, e mais alto ainda. Ronco para lá, ronco para cá, e eu conseguindo dormir que é bom, nada. Depois de um tempo assim, a Larissa e eu rindo dele, ela se levanta e o faz vir para a cama (eles dormem juntos sempre, mesmo sem terem “nada”). E todos conseguem dormir, um pouco que seja.

Algumas três horas depois, lá pelas 8h da manhã, eu não conseguindo dormir mais, resolvo que ia ficar parado na cama, deitado no quentinho, pensando na vida, pois tinha recebido muitas notícias na sexta das pessoas do Brasil e estava chocado com duas delas [não me lembro mais quais notícias eram]. E o que acontece de repente? Começo a ouvir um certo barulhinho estranho, porém familiar. Me pergunto: o que é isso? Que barulho estranho é esse? Era uma espécie de barulho às vezes rápido e curto, e outras mais lento e mais longo, misturado a um barulho que me dava a sensação de humidade. Pensei comigo mesmo, com os meus botões: “Ei, o que é isso? Eu reconheço esse barulho de algum lugar.”

Viro a cabeça e o que vejo? Vejo o edredon deles alto, como se houvesse algo debaixo deles. Continuo prestando atenção e me dou conta, por conta dos barulhos e do movimento para cima e para baixo que eu estava vendo (cima, abaixo), que algo que eu conheço bem, que todos conhecemos bem, estava acontecendo. Presto mais atenção e descubro, não precisa ser muito inteligente para isso, que um boquetinho estava acontecendo.

Eu conheço esse barulho...

Eu conheço esse barulho...

Que lindo! Hehe! Confesso a vocês que eu tive que me segurar para não cair na risada. Fiquei contemplando o edredon indo para cima e para baixo e ouvindo aquele barulho familiar (não conseguia ver nada das vias de fato) e fiquei dando risada sozinho. E pensei comigo: “Ei, eu posso fazer três coisas agora, frente à essa situação: primeira, posso ficar aqui parado ouvindo isso, o que depois de um tempo vai ficar chato; segunda, posso bater umas fotos, que seria legal mas deixaria a Larissa puta da cara comigo durante muito tempo e a nossa vida dentro desses 25 metros quadrados seria insuportável durante um bom tempo; terceiro e último, eu poderia tirar proveito disso e me divertir um pouco.”

É óbvio que eu decidi pela terceira opção. Permaneci ainda deitado queito sem me mover durante uns cinco minutos para deixar os dois pombinhos curtirem um pouco e de repente, do nada, fazendo barulho de propósito, comecei a me levantar, pois sabia que isso ia atrapalhá-los. Me levantei, rindo mas não os deixando ver isso, e fui para a cozinha comer algo porque eu estava com fome. Mas de filha da puta que eu sou eu preparei o meu sucrilhos e vim comer na sala, só para incomodar um pouco mais os dois.

Fiquei lá na sala, comendo bem devagar, prolongando ao máximo o meu café-da-manhã. De vez em quando olhava para eles e podia ver que estavam fingindo dormir e que às vezes faziam algo, se mexiam de um jeito específico que para mim ficava claro que eles estavam ansiosos para poderem continuar. Bobinhos os dois pensando que eu ia deixá-los terminar aquilo assim tão facilmente. Depois que comi, voltei à cozinha, deixei a cumbuca na pia, fazendo sempre um pouco mais de barulho que o necessário e entrei no banheiro, fingindo dessa vez que ia escovar os dentes. Fiquei lá sentado um pouco mais, só dissimulando, esperando que tudo recomeçasse.

 

Quase isso...

Quase isso...

 

Quando, depois de uns dois minutos lá, quieto, recomeço a ouvir uns barulhos, mas dessa vez não barulhos de boquetinho, e sim uns gemidos femininos, o que só podia significar que os dois estavam dando umazinha. Ao notar que a Larissa estava se deixando empolgar, abri a porta com tudo, fazendo máximo de barulho possível, e voltei à sala. Ao abrir a porta, só vejo o Patrick pulando para o lado da cama dele (ele estava em cima dela), fechando os olhos e fingindo que estava dormindo. Eu, do meu lado, finjo que não vi nada, olho para eles. A Larissa está toda descabelada e um pouco vermelha no rosto. Seguro o riso e finjo procurar um livro. Pego o primeiro que vejo, depois de ter procurado uns dois minutos e entro de novo no banheiro.

Fico um pouco lá, dando-lhes um pouco de tempo para recomeçarem e terem que parar bem quando está começando a ficar gostoso, e saio de volta. Me visto, pego as coisas para ir ao mercado, fazendo sempre o máximo de barulho para desconcentrar o Patrick e sua capocchia, e saio para o mercado. Óbvio que ia não ia deixar aquilo tudo tão barato. Quando saí, deixei de propósito o meu celular em cima da mesa, dando assim a desculpa para voltar falando sozinho e dizendo que tinha esquecido o aparelho: “Mince, j’ai oublié mon portable à nouveau. Putain, je fais ça tous les jours!” Desci, esperei uns três minutos e voltei para casa, dizendo essa frase acima, meio que para mim e para eles. Só que quando saí tinha meio que deixado a porta aberta, dando-me assim a oportunidade de poder entrar em casa bem rápido e lhes dar um grande susto.

Quando abri a porta, só foi o Patrick pulando para o lado de novo e fingindo que estava dormindo, enquanto a Larissa cobria a cabeça com o edredon.

Ops!

Ops!

Os dois estavam rindo baixinho, e eu dentro de mim. Saí de volta e fui ao mercado, me dizendo que ia lhes dar uns vinte minutinhos de paz e tranqüilidade para dar aquelazinha. Quando voltei, fiz barulho, só para atrapalhar. Todavia, como no fundo no fundo sou um bom menino, decidi que ia deixar os dois em paz de verdade, peguei algumas coisas e vim aqui para a casa da Tiffany escrever essa história para vocês do laptop dela.

 


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