Fantasmas e salsichas

Posted on 25 fevereiro 2009

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San Carlos de Bariloche, Patagônia argentina, uma cidade dos sonhos a 1640km de Buenos Aires. População ao redor de 90.000. No verão, com suas suntuosas paisagens lacustres, montanhas e florestas. As mais bonitas do mundo, dizem por aí. No inverno, é a capital dos esportes para os fãs de esqui.

San Carlos de Bariloche

Uns amigos alemães se instalaram lá como produtores de especialidades regionais, de rotisseria, salsichas e presunto, entre outros. Sendo as salsichas caseiras a meninas dos olhos, conforme receita familiar. O último domicílio deles, um bangalô situado numa colina a alguns quilômetros do centro, foi adaptado para receber essa atividade ultrassecreta.

Eu preservarei vocês das complicações da minha chegada sem aviso prévio: hotéis e albergues abarrotados por conta de uma convenção de astrônomos e dos turistas habituais. Com os meus amigos produtores não podendo me hospedar de imediato, propõem-me como saída provisória um quartinho dentro da fabriqueta de salsichas, cujos trabalhos foram suspendidos durante o fim de semana. No dia seguinte, em tese, eu seria bem-vinda na casa deles.

Bariloche

Bariloche

Aceito com o maior prazer. Oportunidade para gozar de um belo passeio de mais ou menos 3km. Encarando a subida, rodeada por uma paisagem verde e magnífica, pude ir vendo ao longe as águas do lago Nahuel Huapi em todo o seu esplendor.

Lago Nahuel Huapi

Lago Nahuel Huapi

A subida é doce e avanço sem esforço, apreciando um superpôr-do-sol. Cada vez mais há menos casas e mais terrenos baldios. Nada de carros ou ônibus. Mmmm… Desencorajada, sinto-me tentada a retroceder. Acabo continuando porque o bangalô salsicheiro está pertinho. Uma velha cerca depredada é o que sobrou do jardim. Um clima de abandono, e ao fundo o bangalô, mais depredado que a cerca.

O bangalô estava mais abandonado que a cerca

O bangalô estava mais abandonado que a cerca

Para seguir adiante, é necessário atravessar uns cômodos escuros iluminando o de adiante e apagando a luz do de atrás, e assim de novo e de novo… Vou passando de cômodo em cômodo com um pouco de apreensão. As máquinas de fazer salsicha mudas dão um ar ainda mais ameaçador. Finalmente, chego aos fundos. Silêncio absoluto.

A luz do corredor ilumina um pátio enorme, um recinto rodeado por grandes portas de madeira fechadas com cadeado. Formam um semicírculo. Talvez um espaço usado como garagem para os caminhões (que entrariam como?). O chão é feito de madeira, com um estrado (não o da cama) elevado alguns centímetros. Atravessando o pátio, uma portinha esconde um banheiro rústico. A atmosfera é onírica. Volto para vasculhar um quartinho de bagunça, onde encontro todo tipo de ferramentas, uma pilha de móveis destruídos e empoeirados. Fora, isolada e marginalizada, um outro recinto de madeira que dá para o pátio. É o meu quarto cinco estrelas. Cama antiga de ferros e uma cadeira. Uma luminária. Um trilho de madeira sem cortinas. Os três quilômetros de caminhada fizeram efeito. Deito-me debaixo dos lençóis (para minha surpresa limpos) e durmo, exausta.

Um grande barulho me faz dar um pulo. A minha cama é sacudida por um ruído metálico ensurdecedor. Acendo a luz. Os tremilhões param, e eu me levanto rapidamente para dar uma olhada lá fora. Ninguém. Deito novamente com o coração na garganta. Mesmo assim, acabo conseguindo dormir. Os barulhos e as sacudidelas recomeçam. Dessa vez acompanhados pelo trilho, que cai ruidosamente no chão. Que sorte a minha eu estar longe da janela.

Quartinho da bagunça

Quartinho da bagunça

Com a paciência já no limite, sem dizer que estava branca de medo, vesti-me, peguei minhas coisas e saí do quarto apressada. Mas aonde ir, já que estava de noite? Não podia ir embora nem chamar um táxi (eu tinha esquecido o meu celular na casa dos meus amigos). O quartinho de bagunça! Tinha uma cama lá em algum lugar, coberta de tudo quanto é tipo de breguete. E é sobre essa cama poeirenta que encontro refúgio, tentando reconciliar o sono, mesmo que levando susto atrás de susto madrugada adentro.

Vocês vão dizer “Hahaha, que imaginação que você tem! Fantasmas não existem!”. Pois eu juro que a minha história é absolutamente verdadeira. Da mesma forma, juro que nunca mais ponho os meus pés naquela fabriqueta de salsichas.

 

 

Linda Wallander (aka A.T.)

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