10 minutos de satisfação

Posted on 12 março 2009

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Acordo, tomo uma ducha morna (duchas quentes dão mais calor ainda) para tirar a borra do suor. Ponho água para esquentar e faço um cafezinho recém-coado. Preparo um sanduíche e como alguma fruta. Espremo umas laranjas para um suco natural e me sento para tomar café-da-manhã tranquilamente. Escovo os dentes, me visto e saio de casa. 

A partir daqui, tenho 10 minutos de satisfação quase diários.

Entro no carro, abaixo os vidros, ligo o som e saio da garagem. Tomo o caminho do trabalho. Vou por dentro, por caminhos pouco transitados, evitando o trâfego e procurando ruas sem muitos semáforos. Deixo o vento entrar pelos vidros e arejar o interior. Dirijo em paz. Penso por momentos que, apesar de tudo, tenho uma vida boa. A sensação de dirigir no calor com os vidros abertos e vento no rosto me dá isso. 

Não me incomodo com um ou outro motorista barbeiro. Eles estão aí para serem ignorados e, quando de mau humor, buzinados. Faço as curvas na terceira, mantendo o giro do motor baixo para ouvir o seu torque na retomada. Tudo vai bem. Vejo a temperatura da manhã e penso que às vezes o calor é bom. 

Sigo reto pelas rápidas a velocidade mediana, sempre com o vento no rosto.

Até que, vindo pela Visconde de Guarapuava, viro na Estevão Bayão para estacionar. A odisseia começa. Todo o meu estado de espírito desaparece quase que automaticamente. Sou tomado por um leve toque de mau humor e irritação. Ter que rodar todos os dias outros 10 minutos para encontrar uma vaga me faz pensar que há coisas mais importantes que isso na vida. Lembro que sou mais um preso ao trabalho e a tudo que advém dele. Que terei que passar 8 horas dentro de uma sala, com várias pessoas que mal conheço, imerso num ar condicionado, sentado na frente de um computador bloqueado e tendo que vender meu tempo hábil por uma soma de dinheiro que nunca é satisfatória. 

No exato instante em que viro na Estevão Bayão me vem tudo isso à cabeça e perco meu estado de espírito. Meus 10 minutos de satisfação diários terminam aí!

Como diz meu pai, que parodia um ditado popular: “Trabalho, ruim com ele e pior sem ele!”

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