Presente de grego

Posted on 16 março 2009

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Kos 

 

Kos

 

Era a minha terceira viagem para a Grécia e a primeira vez no arquipélago do Dodecaneso. A Ilha de Kos, ilhota maravilhosa, me recebe de braços abertos. Já que a minha breve estadia aqui será logo somente uma lembrança gostosa, aproveito para curtir os últimos dias de verão. Setembro está perto. Depois virão as ventanias violentas e tempestades marcando com agressividade o equinócio de outono. O Mar Cárpato, que hoje banha docemente a ilha com suas águas límpidas, poderia nos surpreender de uma maneira bem desagradável durante uma travessia pelo Paxos.

Bar em Kos

Bar em Kos

Agora, no entanto, preciso encontrar ipso facto um teto para esta noite. E, digamos, pequeno detalhe: a eterna placa de “Completo” está pendurada por todos os lados. Daria para dizer que todo mundo teve a mesma idéia, e que eles chegaram antes.

É claro que tudo termina por se ajeitar. Eu acabo caindo por acaso em um bar cujo sótão está livre. Perfeito e ainda perto do porto.

Porto de Kos

Porto de Kos

Amanhã, terei então tempo de passear antes de embarcar de noite para Gaios (Paxos). Me instalo feliz. Nesta noite, durmo o sono dos deuses.

De manhã, saio do quarto, deixo as minhas coisas no bar e pé na estrada. Em um cantinho florido descubro uma pracinha bem charmosa em que se encontra o enorme Plátano, teoricamente de Hipócrates (hoje em dia tendo como apoio um aquecedor metálico).

Plátano de Hipócrates

Plátano de Hipócrates

É um dos pontos fortes da ilha. Uma bela homenagem ao pai da medicina, que nasceu em Kos por volta de 460 a.C. Mais tarde esse mesmo lugar será uma ágora, uma casa romana e lugar de muitos museus. Como sobremesa, uma longa caminhada heróica para visitar o santuário consagrado ao médico/curandeiro/deus Asclépio, filho de Apolo*.

Uma vez terminado o tour, me encontro destroçada, faminta e sedenta. Volto ao bar para pegar as minhas coisas à espera do embarque. As notícias, porém, chegam a mim como uma bomba: o porto está fechado, os embarques foram cancelados por conta de uma tempestade.

Tempestado em Kos

Tempestade em Kos

Só amanhã agora. Sem problema. Durmo e amanhã vou. Mas não. Meu quartinho no sótão não está mais disponível. O barman, amável e se compadecendo de mim, mexe seus pauzinhos para encontrar um lugar para eu dormir. Mesmo tendo ligado para deus e o mundo, o fracasso se avizinha. Eis-me novamente sem um teto sob o qual dormir.

O tempo passa, o bar se faz barulhento e lota. Chega um cara, um grego simpático que troca com o barman umas frases misteriosas, com leve tom de conspiração. Por fim entendo que eles falavam de mim. Parece-me que eles estavam procurando uma solução para o meu problema. Agora sim ok, diz o barman, consegui um lugar para você ficar. Siga-o. S’imbora. Kali nichta!!! Os meus instintos dizem que seria melhor seguir o homem. Fazer turismo é cansativo e eu estava desesperada por dormir.

Uma vez combinado o preço, fomos.

Kos de noite

Kos de noite

Qual em fila indiana, caminhamos pela noite, atravessando ruazinhas desertas e escuras como um túnel. Finalmente me vejo diante de uma grade de um pequeno bangalô solitário, escondido no fundo de um jardim. Meu guia abre a porta com uma chave. Sem luz.

A essa altura eu já estava me dizendo que o meu espírito devia ficar calmo, que não havia espaço para nenhum receio ou desconfiança. Pode ser porque os momentos vividos na casa dos gregos foram uma experiência humana magnífica. Pode acontecer de encontrar um grupinho conversando, gesticulado, gritando. Aquele ar de tragédia grega. Será que eles estão ao ponto de se pegaram na porrada? A tiros? Não… Trata-se só de uma discussão amigável a respeito do tempo.

Voltemos, pois, ao meu bangalozinho. Meu guia sorridente abre a porta e não há ninguém dentro. A decoração parece recente, bizarra, até um pouco kitsch. Charmoso! Damos uma voltinha à procura do interruptor. Com a chave na mão, peço ao guia para me acordar às 7h (em qual idioma fiz isso eu não sei mais). Foi embora. Alguns minutos depois estou roncando com toda a tranquilidade.

Uma série de batidas na minha janela me acordam. É 7h em ponto. Estando pronta, abro a porta. Espantoso. O meu anfitrião está de pé com seu rosto completamente escondido um buquê de flores enorme, magnífica e colorido, cujas flores tinham sido colhidas no seu próprio jardim. Sem uma única palavra, ele me deseja boa viagem. Que presente de grego, alegre e inesperado.

Flores gregas

Flores gregas

* Um urra aos guias turísticos/internet, que trouxeram um alívio à minha memória já meio esquecida.

Autora: Linda Wallander (aka A. T.)

 

 

 

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