Da arte de comer sozinho

Posted on 25 março 2009

4


Ao contrário do que muitos dizem, eu não acho chato comer sozinho. Aliás, gosto. Não porque eu possa ficar pensando em minhas coisas com tranquilidade, não porque possa chegar e ir embora sem ter que dar satisfações ou esperar, não porque possa comer rápido ou muito devagar sem que reclamem, mas sim porque é por estar sozinho que me passam coisas diferentes. 

Como já sou assíduo do V., chego, cumprimento, me sento e pronto. Depois, na hora de ir embora, só deixo ali os tickets restaurante e vou embora, caso haja fila para pagar. Tenho, inclusive, conta com eles. Poderia fazer fiado às vezes se quisesse, mas não faço porque “Fiado só amanhã”. Minha filosofia-mor pessoal.

Geralmente chego para almoçar às 12h15. É o tempo de sair da agência, cruzar o Batel, sempre com trânsito, e chegar no restaurante, onde estaciono (para aqueles que não sabem, o V. fica do lado da minha ex-casa, na mesma rua e mesma quadra). Fico por lá até umas 12h40, 12h50. É o tempo de fazer meu prato, comer sobremesa, tomar suco. Sempre chego em casa, onde fico descansando até a hora de voltar ao trabalho, com o Globo Esporte começando (também para aqueles que não sabem, na minha casa só pega Globo!).

São, porém, nesses 30 minutos que fico no restaurante que acabam acontecendo comigo coisas inusitadas, e justamente por sempre comer sozinho e já “ser de casa”. Quando tem muita gente comendo ou esperando, os donos me pedem ou para receber na mesa pessoas que estão de pé ou para me sentar na “mesa dos sozinhos”, na qual volta e meia se junta um grupinho de comensais solitários. É quando acabo conhecendo os habitués: o casal do CRM, ela alta e morena, ele alto e de cabelos curtos; o amigo deles, aparentemente médico; outro casal, ele alto e meio louro, ela alta, morena e maravilhosa; a japonesa que sempre chega de carro e fica falando ao telefone enquanto come; o vegan estudante de Educação Física; o marido da cozinheira; a D., que trabalha com o meu housemate O. e que de vez em quando vai comer com o filho e a mãe; o casal religioso com cara de “nós pagamos o nosso dízimo, e você?”. Eu não pago não, algum problema?

Em outras palavras, eu, que tenho tendido a comer sozinho para depois poder descansar em casa, acabo, como diria minha santa vozinha, fazendo coleguinhas…

 

 

Posted in: Mercês