Aqui x lá – ou o Heródoto polonês

Posted on 22 abril 2009

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Sempre me preocupei com uma característica minha, que muitos sempre disseram ser daninha à minha pessoa: uma inquietude e uma sede pelo novo, pelo diferente.

 Durante muito tempo, atormentei-me e fui atormentado pelos outros por causa dessa característica, sempre presente em mim e reflexo de muitas atitudes “reprováveis” que tomei: larguei o curso de filosofia no 4º ano; me demiti do meu emprego na França antes do término do contrato; abandonei cinema em Buenos Aires; comecei inúmeros cursos; deixei-me levar pelo interesse pelas mais diferentes línguas (grego antigo, latim, sânscrito, hebraico, alemão, francês, italiano, espanhol, inglês, sueco, esperanto); me cansei de estudar isso e aquilo (voltando depois, muitas vezes, a estudar o mesmo assunto anos depois); mudei de vida, e de ares (Bons Ares) inúmeras vezes por cansar da que tinha ou por achar que não estava exatamente no meu caminho; etc.

 Perdi a conta das vezes em que tive “aquela conversa” com amigos, que insistiam que eu devia tentar me aquietar, que eu devia começar a me satisfazer com o que tinha. Minha vida virou (e de certa forma ainda é) uma grande questão filosófica sobre o instável x estável, a insatisfação x contentamento, o aqui x lá. De anos para cá, simplesmente parei de filosofar com os amigos a esse respeito. Não porque eles, muitas vezes, tentassem me fazer entender que essa minha característica podia ser daninha (papel fundamental dos amigos, que se preocupam com você, em tentar te ajudar naquilo que eles julgam necessário), mas porque me dei conta, mais que nada, que eles nunca poderiam entender o meu caminho e as razões que o perfazem. O que é de cada um só é compreensível por si mesmo. De lá para cá, mantive meus pensamentos sobre si dentro da minha cabeça.

 Tempos depois, levado por percalços da vida, me dei conta de algo importante: que essa minha característica não precisava ser necessariamente uma fraqueza, mas sim um apoio, uma ferramenta, um motor incansável. Minha função seria fazer tal característica, sempre presente em mim e cada vez mais intrínseca, jogar a meu favor, e não contra. Nesse momento, dei um passo a mais em direção ao autocontentamento, usando da insatisfação como degrau. Aproximei o lá do aqui e instabilizei o estável, assim como estabilizei o instável.

 Sempre achei que, embora fosse algo de que muitos padecessem, fosse algo quase incompartilhável. Nunca encontrara escrito nada que parecesse se encaixar perfeitamente naquilo que sou. Até ontem, quando li as páginas 297 e 298 de Minhas viagens com Heródoto, de Ryszard Kapuscinski. O livro já tinha me conquistado desde a primeira página, mas foi ao final, bem no final, que se deu a identificação total. Lendo-o, é como se estivesse divagando nos meus próprios pensamentos ou relendo algo que poderia ter escrito (não quero, com isso, me comparar a ele; pudera pudesse).

 Deixo-os, então, com o trecho.

 

[…]

 Na certa, ele [Heródoto] era aquele tipo de pessoa que adora falar em público, sempre à caça de ouvintes, sem os quais não consegue sobreviver. Mediadores incansáveis, em estado permanente de excitação, têm a necessidade, assim que vêem e ouvem alguma coisa, de transmitir isso aos outros – são incapazes de reter as novas para si, nem por um momento. Toda a energia, toda a sua paixão são investidas nisso que consideram sua missão. Viajar a pé, a cavalo, num navio, fazer descobertas e, imediatamente, trombeteá-las para o resto do mundo.

 No entanto, homens assim entusiasmados não nascem aos montes. Um homem mediano não está particularmente interessado no mundo. O simples fato de estar vivo já pesa bastante sobre ele, e quanto menos esforço tiver que fazer, tanto melhor. O ato de conhecer o mundo requer uma mobilização de forças, tanto físicas como intelectuais, que consomem o ser humano. A maioria das pessoas desenvolve competências inversas, notadamente aquele que consiste em olhar sem ver, em escutar sem ouvir. Portanto, o surgimento de alguém como Heródoto – um homem possuído por um desejo, até por uma obsessão de observar e ouvir e, ainda por cima, dotado de inteligência e aptidão para escrever – constitui um fato que passa imediatamente para a história do mundo!

 Indivíduos assim se caracterizam por uma capacidade de assimilação incrível, como se tudo pudessem absorver e, com a mesma facilidade, despojar-se daquilo que foi absorvido. Eles não mantêm para si as coisas por muito tempo, e, como a natureza não suporta o vácuo, precisam sempre se renovar, precisam incessantemente absorver, preencher, multiplicar, aumentar seu saber. A mente de Heródoto é incapaz de se deter num acontecimento ou país. Existe nela algo que o faz seguir em frente, apressando-o com a inquietação. A descoberta feita hoje já não o interessa mais amanhã; ele precisa viajar para outro lugar, para ainda mais longe.

 Indivíduos assim, tão úteis aos outros, são, no fundo, infelizes e solitários. Embora procurem o outro e cheguem mesmo a ter a impressão de que um determinado país abriga conhecidos seus, pessoas que lhe são próximas e que compreendem tudo a respeito, eles acordam um dia e descobrem que nada os liga a esses seres, que podem partir repentinamente, após sentir que há algo novo a chamar por sua atenção – outro país ou outros povos –, e que a sensação tão encantadora do dia anterior já empalideceu e perdeu o sentido.

 Não se prendem a ninguém, não aprofundam raízes. Sua empatia é sincera, mas superficial. Quando solicitados a indicar o país que acharam mais interessante, não sabem o que responder. Qual? De alguma foram, todos, pois em cada um há algo de interessante. A qual país gostariam de regressar? Novo embaraço – nunca se questionaram a esse respeito. De uma coisa eles têm certeza: gostariam de estar novamente na estrada. Estar novamente na estrada – eis o que eles sonham.

 

 

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