Os letrólogos?

Posted on 27 abril 2009

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Fato nº 1: sou formado em Letras.

Pergunta nº 1: em tese, qual é a área de trabalho de um graduado em Letras?

Resposta nº 1: teoricamente, educação (aulas de literatura e língua) e área de textos em geral.

Realidade única: ou você dá aulas de português e do idioma que estudou ou você é revisor. Ponto final. Com muita sorte, fará traduções, mas não é especialmente habilitado para isso, já que saber o idioma não é fator determinante. Conhecer a área de conhecimento o é tanto quanto.

Muitos vão querer me execrar por dizer isso, mas mesmo assim direi: o curso de Letras não serve para nada. Está certo que, frente à grande massa brasileira de não privilegiados que não têm estudo superior, o título de graduado em Letras me dá algumas vantagens durante julgamento de crimes (oxalá não sucedam), mas nenhuma se for julgado culpado. Uma pessoa graduada, depois de julgada, perde as questionáveis vantagens que tinha (que, a meu ver, não deveria ter).

No entanto, o fato de uma grande parte da população brasileira não ter estudo superior não me obriga a me sentir ingrato por falar mal de algo que possuo. Fosse assim, ninguém poderia reclamar da situação em que está por sempre haver alguém pior. Sem reclamação, não há análise nem revolta. Sem revolta e análise, não há melhoria, etc.

Dou-me, pois, o direito de refletir sobre o fantástico diploma de Letras que tenho à minha frente. 

O meu é bem bonito e todo colorido. Se as vantagens que ele me traz fossem diretamente proporcionais à quantidade de cores e qualidade do papel, eu estarei feito. Mas não são. Aliás, parece que até são inversamente proporcionais. 

A resposta nº 1, acima, diz, pelo menos é o que consta em todos os manuais de profissão das universidades do Brasil afora, que egressados em Letras terão chances como professores de idiomas (inclusive o português) e oportunidades na área editorial. A resposta única, a qual me sinto habilitado a dar por estar inserido no mercado de trabalho há tempos, corrobora mais ou menos a primeira parte dos manuais (professores de língua), mas desatesta a segunda (área editorial). Questionemo-nos e pensemos.

Quantos de vocês já viram ou ouviram falar de professores de português do ensino médio e fundamental que não eram formados em Letras, mas sim em História, Geografia ou até em Matemática? Resposta: inúmeros.

Quantos professores de inglês, espanhol, francês, alemão ou qualquer outro puta idioma deste mundo vocês conhecem? E quantos deles têm formação em Letras? Resposta: quase nenhum. Aliás, pré-requisito básico em escolas de idiomas é que você tenha vivência no exterior. Ou seja, qualquer um que tenha morado nos Estados Unidos e saiba falar inglês pode dar aulas de inglês.

Quantos de vocês já viram jornalistas, publicitários, sociólogos ou qualquer outra pessoa de Humanas ocupando cargos de revisores? Talvez muitos de vocês não conheçam muitos revisores, mas eu sim. Logo, a resposta é: muitos.

Continuando a pensação…

Se pessoas formadas em História, Geografia, Matemática, Jornalismo, Ciências Sociais e afins ou qualquer outro caboclo que saiba um idioma pode trabalhar nas áreas em tese destinadas aos egressados de Letras, por que cargas d’água os estudantes de Letras não podem trabalhar como professores de História, Geografia, ou como jornalistas, sociólogos ou o que for? Resposta: cri-cri-cri… (silêncios dos inocentes)

Realidade na qual os formados em Letras vivem: o seu curso não serve para nada, já que ele não te habilita, exclusivamente, a fazer nenhuma coisa especializada. Reflexão: o curso de Letras, mais que nada, é um curso de conhecimentos gerais um pouco mais específicos, os quais qualquer pessoa com um pouco de leitura pode adquirir sem maiores problemas. 

E por que é que não me disseram isso antes? Vai saber!

De qualquer forma, dos males o menor: descobri isso relativamente cedo, e sozinho, o que me dá um bônus de autodidata.

Contexto da realidade: algumas profissões, como os jornalistas e sociólogos, têm sindicatos fortes, que conseguiram se fazer presentes legalmente no Brasil. Isto é, só pessoas formadas em jornalismo podem ser jornalistas, assim como só pessoas formadas em Ciências Sociais podem ser sociólogas e afins. Ou, em exemplos mais de peso, só as pessoas com OAB podem advogar. Eu, se quiser, não posso. Até são capazes de me prender por tamanho crime. Injúria, calúnia, desacato!

E, me pergunto, o que tem de exclusivo e secreto no curso deles que eu não possa ter aprendido estudando? Por que os quatro anos de estudo deles são mais importantes que os meus quatro anos de estudo por outras vias que não a faculdade? Resposta: porque ou 1) estudaram coisas específicas e de certa forma herméticas, não conhecimento geral facilmente acessível em banquinhas de revista; ou 2) conseguiram dar respaldo politicamente para a profissão; 3) por conta dos dois motivos anteriores.

Minha solução para esses problemas? Resposta: que nas profissões não técnicas (as técnicas seriam: os da área de saúde, os da área de engenharia, os advogados – por terem sido competentes para dominar o mundo e criar um retórica tão hermética que só eles conseguem entender -, etc.) valesse o conhecimento, pouco importando como ele foi adquirido. Oras, se alguém domina tudo de computadores e os faz sonhar, por que se importar se aprendeu tudo sozinho com um 486 ou se fez uma puta faculdade de Ciência da Computação? Se sei escrever bem e aprendi o métier de um jornalista só lendo jornais, por que não posso ser jornalista? Afinal de contas, se não pode se aprender o que eles fazem com o que escrevem (que é, em suma, o que fazem), a única conclusão a que posso chegar é que eles não fazem bem o seu serviço. 

Não quero dizer, porém, que devem ser fechadas as faculdades. Muito pelo contrário. Deve abrir mais. Milhões. Todo mundo tem que ter direito de estudar, e de graça. O que quero dizer, por outro lado, é que o mercado não deveria se fechar a títulos. Um papel, em última análise, não diz nada. Só significa que uma árvore foi morta.

Aonde quero chegar com tudo isso? 1. Expressar a minha indignação. 2. Arranjar um trampo que me pague para escrever, que é o que gosto de fazer. 3. Dar algo de ler para meus vorazes e inúmeros 10 leitores! 

 

 

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