16h45

Posted on 13 maio 2009

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A princípio e à primeira vista, o horário 16h45 não tem nada de especial nem se difere de 16h44, 17h22 ou 22h01. Em sua essência, 16h45 tem o mesmo valor que qualquer outro horário.

Não para mim.

É às 16h45 que eu faço o meu intervalo diário da tarde. Separo algumas moedinhas para comprar uma barra de cereal e algo de beber, bloqueio o meu computador, pego o meu cartão magnético e desço. Cumprimento as mocinhas da recepção do prédio, atravesso a rua, me dirijo até o mercadinho ou a padaria da esquina e compro meu lanche. Sem a preocupação do que os moradores chiques do bairro possam pensar, sento-me em um degrau de entrada de uma casa, recosto-me na grade e estico as pernas, qual um viajante descansando à sombra de uma árvore em um país desconhecido. 

Enquanto abro a minha barra de cereais e tomo o que comprei, costumo dedicar alguns momentos ao mundo, para falar de uma maneira mais filosófica. Não aos carros, caminhões e motos ou aos pensamentos que povoam minha cabeça, mas sim às coisas que normalmente uma pessoa que passa o dia dentro de um escritório não escuta e não vê. Ouço os funcionários do mercadinho levando o carrinho para cima e para baixo, escuto uma conversa na rua, vejo alguém na sacada, um porteiro recebendo as correspondências, etc. Como se tudo fosse sumamente inusitado.

Esses 10 minutos que me dou no meio da tarde, durante o expediente vespertino, não são só um momento para descansar a vista, o corpo e a mente, mas também para espairecer o espírito, que atrofia depois de muito tempo fechado em um ambiente fechado (o meu, pelo menos, enrijece). É por isso, imagino eu imerso na minha ignorância profunda, que as pessoas que trabalham em ambientes abertos ou em casa (que representa a maior de todas as liberdades) sejam mais leves. Quem trabalha em casa só tem a necessidade de trabalhar. Quem vai a um escritório precisa atuar. 

Durando ou não 10 minutos (às vezes me prolongo e dou uma volta na quadra, às vezes antecipo porque tenho coisas para fazer), o fato é que mantenho esse hábito e acredito que ele me faz bem, ainda mais porque é durante ele que eu me permito ficar sem pensar, avaliar e analisar, momentos os quais justamente costumo ter muitas ideias…  como a de escrever este post.

 

 

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