O nome delas

Posted on 8 junho 2009

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Sim, eu sei, isso é ridículo.
Eu aqui, de novo,
dando “google” no seu nome.

Para saber o que você tem feito,
por onde tem andado,
como anda o seu trabalho,
se continua casado
e se ela está grávida
(ou será que já nasceu?
passaram nove meses?
eu sinto que vai ser menina
e por isso tenho mais inveja ainda).

Acho que estou ficando doente,
obcecada, obsessiva,
remoendo dia e noite
essa história,
fingindo que o quase nada que tivemos
– aquele fiapo de relacionamento –
era bom,
me fazia bem.

Quando eu te mandei embora
eu joguei tudo fora,
dei até aquela blusinha nova
que você me deu na última vez.


Outro dia,
enquanto eu dormia,
senti o peso do seu corpo
sobre meu braço adormecido.

Escuto a sua voz
dizendo bobagens,
discutindo comigo
as coisas mais triviais.

Morro de saudades
até das noites ruins.

(Analu Andrigueti)


Lendo esse poema n’A matadora de orquídeas, fiquei pensando em quantas vezes eu não pus o nome de algum ex-amor ou ex-affaire no Google à procura de notícias suas. Uma. Duas. Algumas…

Sim, reconheço, digitei os nomes delas para saber algo de suas vidas, se tinham casado, onde estavam morando, o que andavam fazendo, com quem estavam. Exatamente como nos versos. Em menos de um segundo o Google listava mais de uma dezena de links relacionados. E mais de uma vez cheguei até a encontrar fotos. Descobri que uma tinha se mudado para fazer mestrado. Que outra tinha casado, tido um filho e que ele era bochechudo. Que outra tinha ido para o exterior. Que outra tinha ido a trabalho para tal e tal lugar. Que outra tinha juntado tralhas com um cara, etc. Fuçando (e eu, por algum motivo que desconheço, sou bom nisso sem fazer esforço), pode-se descobrir desde o novo número de telefone, endereço para correspondência ou até o nome namorado/fiancé/marido. É claro que nunca lhes telefonei nem mandei cartas…

Quanta coisa já não descobri assim?! Me pergunto, porém: para quê eu ficava procurando notícias suas, ao invés de lhes escrever e perguntar pessoalmente. Porque, em muitos casos, pelo menos com a maioria delas, a questão não era querer falar com elas, mas alimentar as boas lembranças do que foi, e não do que poderia ser. Quando eu googleava o nome de uma delas, não é porque ainda estava gostando dela, estava com saudades ou tinha mantido um sentimento de posse. Não. Eu procurava o nome delas porque queria reviver de uma maneira atual as lembranças que elas tinham deixado no passado. É como se as visse na rua: vejo-as caminhando, sei que já nos curtimos um monte, mas não é o caso de cruzar a rua para dar oi. Prefiro simplesmente saber que estão bem, porque estando vivas, mesmo que já não mais comigo, elas conseguem manter minhas lembranças. Se por acaso não estivessem mais aí, é como se as recordações se anuviassem e perdessem forma.

Elas e eu podemos ter nos traído, nos machucado ou nos amaldiçoado, mas o que elas me deixaram de melhor é o que eu consegui guardar de bom, e eventualmente procurá-las no Google é uma maneira de manter vivas algumas lembranças que prezo, ainda que eu procure não viver do passado…

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