Quando a sua vida se resume a um papel… ou não!

Posted on 29 junho 2009

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Nesses dias fiz um levantamento de quantos currículos eu mandei desde que voltei de Buenos Aires. O número é assustador: cerca de 1000. Desses, 900 foram para lugares fora do país, cuja lista inclui, sem exceção, todos os países das três Américas, Europa, alguns países da África (os lusófonos, os francófonos e África do Sul, Tanzânia, Etiópia), China e Japão.

De todas essas 1000 tentativas, umas 20 surtiram algum efeito, de modo que fui entrevistado por Skype pelos respectivos responsáveis. Na China, país cujas empresas mais me responderam, me ofereceram trabalho de tradutor, redator de manuais e classificador de spams (não estou mentindo). Eram trabalhos em Pequim, Shangai e Dalian.

No Japão, também de tradutor em Tóquio.

Na África, recebi resposta e fiz uma entrevista escrita por mail somente para a Argélia.

Nas Américas, por incrível que pareça, o país que mais respondeu às minhas tentativas foram os Estados Unidos. Pleiteei uma vaga de tradutor de francês numa gigante dos jogos. Em outra, como testador de videogame.

Na Europa, por fim, fiz entrevista, sempre por Skype, com empresas tchecas, polonesas e sobretudo irlandesas. Os cargos iam de atendente multilíngue a telemarketing.

Em quase todas consegui conquistar meu entrevistador, inculcando em sua cabeça que eu era uma boa escolha para o emprego. No entanto, como é fácil de ver por eu não estar morando em nenhum desses países, não fui contratado, e o motivo foi, em 100% dos casos, o fato de não ter o visto de trabalho. Ou seja, se eu já morasse no país e tivesse o visto de trabalho outorgado, teriam me dado qualquer um desses empregos. Mas como não tenho, fiquei a ver navios em todos os casos.

E por que eu fiquei procurando emprego fora do Brasil? Não foi pelo dinheiro. Não foi pela qualidade de vida do país-alvo. No começo desse ano eu pleiteei algumas vagas de professor em países completamente desconhecidos. Um deles, por exemplo, é o Benin, e a qualidade de vida lá não é superior à do Brasil. Tentei em todos esses países única e simplesmente porque tenho a certeza e convicção de que de que é preciso fazer algo da vida enquanto se está vivo, e esse algo, para mim, inclui lançar-me ao desconhecido e conhecer o mundo. Sempre me lembro desses versos do Eliot quando falo disso:

Porque sei que o tempo é sempre o tempo
E que o espaço é sempre o espaço apenas
E que o real somente o é dentro de um tempo
E apenas para o espaço que o contém
Alegro-me de serem as coisas o que são
E renuncio à face abençoada
E renuncio à voz
Porque esperar não posso mais
E assim me alegro, por ter de alguma coisa edificar
De que me possa depois rejubilar.

É pensando neles que baseio muito da minha vida. Será que um CV consegue carregar isso mundo afora?

Posted in: Pensação