Gabriel Buchmann perdido na África

Posted on 29 julho 2009

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Eu não sou de copiar conteúdo dos outros, mas essa história precisa ser contada e lida:

(abaixo reproduzo inteiramente o conteúdo do post Um email de um brasileiro perdido na África, de autoria de Fábio Zanini, do Pé na África, bem como o mail de Gabriel Buchmann)

Alguns de vocês devem ter lido a respeito do desaparecimento do brasileiro Gabriel Buchmann no Maláui, no último dia 17. Ele fazia uma trilha pelo monte Mulanje, um dos principais pontos turísticos do pequeno país do sul da África.

Mundo pequeno esse. Eu não conheço Gabriel, mas ele estudou com a mulher de um amigo meu, e ontem recebi um email enviado por ele à sua família em 1º de junho. O título: “This is Africa”, esta é a África, que reproduzo abaixo. Mas antes é preciso entender quem é Gabriel o que está acontecendo (aí está ele, numa foto que tirou na África).

Os viajantes do mundo precisam da solidariedade alheia

Os viajantes do mundo precisam da solidariedade alheia

O cara tem 28 anos e, como você pode perceber em seu email, é daqueles interessados na pobreza não apenas de ler o Twitter de algum intelectual de esquerda, como costuma acontecer. Decidiu ir lá e conferir de perto. Antes de se perder no Maláui, já estava viajando por cerca de um ano. Passou por Ásia, Oriente Médio e África. Economista de formação, quis ver situações de extrema pobreza de perto, antes de iniciar um doutorado em Economia da Pobreza, na Universidade da Califórnia. O Maláui é a última parada em seu tour antes da chegada ao Brasil.

Na última quinta-feira, um helicóptero começou a sobrevoar a região atrás de alguma pista. A família está obviamente muito preocupada e quer que o Itamaraty peça às autoridades locais para que não encerrem as buscas na região onde Gabriel se perdeu.

Pelo que pude perceber, Gabriel é escolado em viajar com mochila nas costas. O parque do monte Mulanje é uma atração muito visitada e figurinha fácil nos guias de turismo.

Gabriel Buchmann 2

Região do Maláui onde Gabriel está perdido

Meu guia “Lonely Planet Africa” o descreve como tendo “acesso fácil, trilhas claras e cabanas bem-mantidas”. O único obstáculo é o “tempo notoriamente imprevisível”, mas isso você encontra em dez em cada dez trilhas montanhosas. O Maláui, além disso, é um dos países mais pacatos da África, e costuma aparecer em destaque em roteiros de agências. Não por acaso, é chamado de “África para iniciantes”. É cedo, portanto, para encerras as buscas, até porque há casos de pessoas que passaram semanas perdidas na região e foram encontradas com vida.

Leia agora seu email, enviado à família desde Uganda, aonde ele chegou após passar pelo Quênia. Um texto cheio de idealismo de mais um brasileiro atraído irresistivelmente pela África.

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“Caríssimas mamãe, namorada e João, meus grandes parceiros de mochilagem desta fantástica trip, e querida irmãzinha,

depois de mais de uma semana mergulhado de cabeça no coração da África, encontrei este cyber café aqui em Jinja, interior de Uganda e em frente à foz do rio Nilo…e vos escrevo pra dizer que estou maravilhosamente bem…

meus dias aqui na África estão sendo absolutamente fantásticos ! ! ! … depois de passar uns dias na casa de um refugiado congolês nos subúrbios pobres de Nairóbi, fui parar nem sei direito como na remota tribo dos massais no kenya, onde passei dias correndo atrás de girafas, zebras e antílopes, com lanças e espadas e vivendo a vida tribal dos caras, dormindo em ocas, etc…e entre outras aventuras pelo kenya, terminei em grande estilo, fazendo um safári de bike com um amigo meu massai num parque nacional lindíssimo…

tô muito roots, andando há uma semana enrolado em cangas coloridas e carregando um cajado e uma espada de aço…e só sei que desde que cheguei na África, não vi NENHUM muzumgo (white man) além de mim…

ah, e hoje no meio de tudo coloquei uma criança na escola…É uma longa estória, mas, resumidamente, depois de passar o dia passeando por um vilarejo aqui de Uganda com um menino que, entre outras coisas me apresentou a sua família paupérrima, e de por acaso visitar uma escola publica e falar com o diretor, acabei que paguei pela matriculas, mensalidades e todas as despesas do menino ate o fim do ano, e me comprometi a, se ele me mandar o boletim dele, continuar pagando pelos próximos anos…

mas o melhor de tudo é que aqui na África to conseguindo por em pratica a viagem que sempre idealizei…hoje ficarei em hostel pela segunda vez desde que pisei no continente, todos os outros dias dormi e comi na casa de locais,  gastando uns 2-3 dólares por dia, o que me permitiu a cada dia distribuir meu daily budget entre as pessoas que me hospedaram, alimentaram, etc…to muito feliz com isso, de conseguir estar vivendo grandes aventuras e realizando uma viagem de profunda imersão no continente africano, absolutamente não turística, e de forma totalmente sustentável, transferindo 80% dos meus gastos pra africanos pobres… e aqui com quase nada vc faz uma substancial diferença na vida das pessoas…esse amigo meu congolês, por exemplo, com 12 dólares paguei o aluguel mensal da casa da família dele, esse menino com 40 dólares garanti um ano escolar pra ele numa escola super legal, hoje dei 2 dólares pra uma mulher que me convidou pra conhecer a casa dela e ela se ajoelhou e quase chorou…

podia escrever horas sobre essa minha primeira semana aqui na áfrica, to realmente muito contente por tudo aqui estar superando minhas melhores expectativas…mas to escrevendo mesmo pra dar um sinal de vida, pois essa noite passei fazendo 4 baldeações pra atravessar do kenia pra Uganda durante a madrugada e andei o dia inteiro visitando dezenas de casas de agricultores, missões, escolas, etc., numa vila aleatória aqui no interior de Uganda…

tenho encontrado pessoas incríveis e fascinantes a cada dia que me apresentam a outras e de conexão em conexão vou penetrando aos poucos na alma da África… tenho arranjado contatos incríveis e, semana que vem, depois de prestar minhas homenagens às vitimas do genocídio de Ruanda e de sei-la-o-que-me-espera no Burundi,  vou visitar um garimpo de diamantes e os pigmeus nas selvas do congo com o irmão de um amigo, um campo de refugiados na Tanzânia onde mora o tio de outro amigo que fiz aqui, tentar arrumar uma forma afordable de subir o kilimanjaro e então espero minha linda cris chegar em Dar Es Salaam pra mais uma lua-de-mel em grande estilo…

ta bom, um parágrafo sobre os dois melhores amigos que fiz no Kenya…

Alex Alembe. Tava no ultimo ano de engenharia em Uvira, sua cidade no Congo. Certa noite uma milícia invadiu sua casa. Mataram sua mãe e sua irmã mais nova, mas ele conseguiu fugir pela janela. Foi parar num campo de refugiados na Tanzânia, onde ficou por 4 anos, se casou com uma tanzaniana e teve 3 filhos. Se mudou pra um subúrbio de Nairóbi e passou os últimos anos trazendo ouro e diamantes de garimpos no Congo e revendo em outros países da East Africa. Conseguiu construir uma casa confortável, e nela alojar sua família e vários órfãos. Voltando de uma de suas viagens, assaltaram o ônibus onde estava e levaram suas maletas com tudo seu, dinheiro, diamantes e passaporte. Perdeu tudo. Se mudou com toda a família pra um casebre de 12m2. Mesmo assim, continua levando a cabo 3 projetos sociais, dando café da manha pra 20 crianças, amparando viúvas de vitimas de Aids  e organizando um futebol todas as tardes. Ta juntando tudo o que pode pra se candidatar pra deputado provincial no congo nas próximas eleições. TIA. This is Africa.

Leonard. Massai cuja mãe me hospedou em sua casa em Iwatso Ogindong. Tava no ultimo ano de administração na universidade de Nairóbi. Depois de 3 anos de seca na terra dos massais, teve que largar a faculdade pra levar o gado que sobrou de sua família pra melhores pastagens. Andou 8 dias por 500 km levando 100 cabeças atravessando cidades, inclusive passando pelo aeroporto de Nairóbi. Luta pra preservação da cultura massai e sonha em casar com uma americana, de preferência gorda. Me batizou com um nome massai, Lemaya. Seu irmão, Brain, tem 20 anos e é respeitado na tribo. Aos 14 matou um leão e assim atingiu a maturidade. Aos 15 se casou com uma menina de 12 e outra de 13, que seus pais escolheram. Me deu sua espada de presente. TIA. This is Africa.

Fui.

Mamãe, desculpa não te ligar ha tanto tempo, farei o máximo pra fazê-lo amanha de Kampala, capital do pais…
Cris, te escrevo em seguida…

Johnny, boa Rússia pra ti, irmão! Russia Haracho! Russia Kracivaia!

beijos,
Gabriel”


Quem quiser ter notícias atualizadas sobre Gabriel pode acompanhar o blog http://ajudegabrielbuchmann.blogspot.com.

Ou ainda se cadastrar no email ajudegb@hotmail.com.

No Twitter, o nome é ajudegabriel.

Escrito por Fábio Zanini às 16h55

Para ler o post do Fábio Zanini em seu blog, clique aqui ou vá lá: http://penaafrica.folha.blog.uol.com.br/

Posted in: Causo