Buenos Aires mudou

Posted on 31 agosto 2009

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Se tivesse que dizer alguma coisa sobre meus primeiros dias na Argentina, eu diria que Buenos Aires mudou. 

Continuam existindo os cafés típicos, continuam existindo três ou quatro maxikioscos em cada quadra, continuam falando “dale, boludo, qué hacé?” pela rua.

Mas também ocorreram inúmeras mudanças. Inúmeras. A crise do fim do ano repercutiu muito aqui. Argentina no anda bien, che!

As mudanças se fazem ver nas ruas, nas esquinas.

O primeiro que notei foi a sujeira. Por todos os lados, Buenos Aires ficou mais suja. Já tinha o seu quê de sujo há dois anos, mas esse nível aumentou muito. Talvez não tão aparentemente nos bairros mais chetos (e mesmo assim, para mim, é visível), mas muito na província, na grande Buenos Aires, para onde as pessoas têm ido para fugir dos altos preços da capital.

A segunda mudança que notei são as bicicletas. Muitas delas dividindo as ruas com os carros e ônibus. Todos, é claro, enlouquecidos. Não estão lá porque a cidade se pôs mais saudável e mais consciente dos problemas de transporte. As pessoas estão pedalando, isso me dizem os próprios argentinos, porque os preços subiram e para muitos já não vale mais a pena pegar ônibus ou metrô. Este, que estava 0,70 centavos, agora está 1,10. O ônibus subiu de 0,80 para 1,20. O trem de 0,70 para 1,10.

A terceira foi a quantidade de carros que tem nas ruas. Engarrafamentos e mais engarrafamentos em todos os lugares. As rodovias (autopistas) que circundam Buenos Aires se transformaram em um caos digno de São Paulo. Indo de Ezeiza para Martin Coronado (línea Urquiza), onde estou hospedado, vi engarrafamentos quilométricos. Parecia que os carros saíam pela culatra… Somente as motos eram capazes de andar em uma velocidade baixa constante. Pelo que me contaram, aconteceu na Argentina o mesmo que no Brasil. Para conter a crise nas indústrias de base, criaram incentivos fiscais de compra de automóveis, e todos estão comprando carros (usados e novos).

A última mudança, e a que me deixou mais triste, foi encontrar muitos mendigos na rua. Nos bairros em que já havia (como Constitución) agora tem muito mais. Em muitos bairros residenciais, onde nunca havia visto sequer um mendigo ou criança de rua, se instalaram nas esquinas, nos cantos de calcadas e ali dormem. Em Palermo, para os lados da Av. Corrientes, chegam a se amontoar uns ao lado dos outros. Reflexo contundente da crise, da qual a Argentina não parece ter se recuperado ainda. E não só mendigos, mas também muitos pedintes. Cada vez mais os hermanos estão ficando parecidos com o Brasil.

Buenos Aires mudou, e muito.