Conurbano bonairense

Posted on 16 setembro 2009

2


Sobrevoar Buenos Aires é chocar-se com o seu tamanho. A cidade em si não é tão grande, mas o conurbano é enorme.

É óbvio que não chega às dimensões colossais de São Paulo, mas tampouco está muito longe.

A cidade em si (Capital Federal) deve ter hoje em dia uns 5 milhões de habitantes, ao passo que a Gran Buenos Aires chega já quase a 18 milhões. Metade da população de um país em uma única urbe.

A primeira vez que visitei a cidade, momento no qual me disse que um dia ainda voltaria para morar, foi em 2004. Lembro que já tinha a impressão, para alguém saído de Curitiba, que a extensão da capital portenha era já maior do que eu podia abarcar.

Em 2006, quando me mudei para lá, Buenos Aires já estava maior. Durante o ano e meio em que vivia diariamente a cidade, construí minha vida em Caballito e nos bairros da zona norte. É preciso, nas cidades grandes, restringir a mobilidade a áreas. Ter a cidade inteira como limite é loucura.

Tirando Ramos Mejía, Olivos e idas esparsas a Hurlingham, minha vida se deu sobretudo em Caballito e zona norte, minha área de abrangência.

Nesta última viagem, extendi minha área de abrangência ao conurbano bonairense por ter me hospedado em Martín Coronado na casa da Ari e do Príncipe Pooh.

Para falar a verdade, transladei meus limites. Ao invés de ficar passeando por Barrio Norte, Palermo e Belgrano, conheci uma parte do imenso conurbano bonairense, que é ainda mais caótico que a capital.

No melhor estilo argentino, é claro.

Levado pela Ari como copiloto, fomos por Coronado, Hurlingham, Ciudad Jardín, Palomar, Pilar, Bella Vista, Villa Bosch, Caseros, Haedo, Ciudadela, Morón, Tres de Febrero, Munro, Vicente López, etc.

Continuei ainda pela zona norte, mas agora conurbano adentro. Descobri outra Buenos Aires. Descobri também um argentino diferente, o bonairense.

Se o portenho é conhecedor da sua cidade (como de fato são), o bonairense é mais, porque conhece a capital e os arredores. Se o portenho se acha malandro na sua portenhice, o bonairense é muito mais, pois lida diariamente com tudo que vem de Buenos Aires e ainda dá conta de toda a malandragem (mais malandra ainda) do conurbano.

É nos arredores da capital que se pode ver a latinidade mais visivelmente. Em cada kiosco, locutorio e vagões de trem se ouve cumbia e reggaeton. É a América Latina transbordando nas conversações, nos rostos, nos cheiros, nos sabores.

Ter a oportunidade de conhecer um pouco do conurbano foi uma surpresa para mim. Leva-se outra vida lá, mais difícil, mais barulhenta, mais suja e mais batalhadora. A grande maioria das pessoas que vivem no conurbano se deslocam diariamente a Buenos Aires para trabalhar. Passam meio hora nos trens e mais uma hora nos ônibus. Saem cedo de casa e voltam bem de noite.

Se Buenos Aires é a cidade da fúria, o conurbano é da fúria quase desmedida e enlouquecida. Tomar o trem nos horários de pico é sentir isso na pele.

Em geral, o bonairense, se pode, tenta evitar de ir a Buenos Aires. Procura, assim como eu quando vivia em Caballito, a restringir sua vida pelos seus arredores. Entre tomar o trem, pegar um ônibus e se preocupar com a hora da volta, acaba preferindo tomar uma cerveza em Hurlingham, em alguns dos simpáticos bares de estilo inglês (Hurlingham é “cidade” de muita imigração inglesa, cheia de Mc, O’ e sobrenomes do gênero), para decir algo.

Depois que passei alguns dias vivendo a vida do bonairense, deixei cair por terra o mito do conurbano como uma zona necessariamente perigosa. Há, é claro, regiões onde não se aconselha nem passar perto, mas há outras lindas, quase que como saídas de um filme.

O conurbano é uma imensidão de facetas. Coronado tem a sua.

Martín Coronado en el cruce del tren

Martín Coronado en el cruce del tren (passei 15 dias a duas quadras daí)