Argentina 1 x 3 Brasil

Posted on 28 setembro 2009

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Ou do dia em que vi a Argentina ser sucrilhada no futebol estando eu rodeado de 20 argentinos


Era uma vez um brasileiro perdido em Buenos Aires.

Era uma vez um certo Magoo indo a um típico churrasco argentino, onde, além dos chorizos, bondiolitas y chinchulines, o prato principal seria zoar até não poder mais do pobre tupiniquim que tinha tido a audácia de ir assistir ao jogo da Argentina e Brasil na casa de um argentino doente com mais 20 outros argentinos fanáticos por fútbol.

Dias antes Camilo Pacotilla já os tinha atiçado por mail. O meliante começou no dia 3 de setembro disparando o seguinte para os amigos que eu viria a encontrar no churrasco:

no es para tanto chicos….
http://www.ole.clarin.com/notas/2009/09/03/seleccion/01991437.html
no se desesperen que es solo un partido.
total lo que vale, que es el mundial, no lo van a ganar ni en pedo!

igualmente, recuerdense:
a) si el sabado gana Brasil, algun telefono porteño va a sonar (a prop, Nena, gracias por el tuyo)
b) si pierde Brasil, tienen a Magoo allí. Disfrutenlo!
hahahahha

Em outras palavras, o filho da p… zoou com os hermanos e ainda me jogou na fogueira. No dia seguinte (4 de setembro), um dos argentinos respondeu com uma ameaça:

Vas a querer matarte mañana Magoo!!!
Y vos maricona te haces el banana desde lejos! En noviembre cobras! jaja
Abrazo!

Eu, já prevendo o pior, não me deixei diminuir e lancei:

Preparate, porque si ganamos me vas a tener que soportar! Si perdimos, estoy cagado.

Sabia que se perdéssemos eu seria quase linchado em praça pública.

Chega, pois, o dia do jogo. A partida era pelas 22h. Marquei de chegar à casa da Nena às 19h. Tomaríamos um mate, conversaríamos e veríamos como ir até o churrasco. Nena mora em Caballito e o Santi mora em Liniers. São quase 10km de distância.

Acudimos à casa do Santi cerca de 10 minutos antes do começo do jogo. Mal entrei na casa e já começaram a me zoar:

¡Brasileño de mierda! ¡Te vamos a cagar mal!

Hay que tener muchos cojones para venir acá, ¿eh?

A exemplo do Dunga nas entrevistas coletiva, me reservei o direito de não comentar nada e fiquei quieto.

O jogo começou, se me lembro bem, e o Messi já quase fez um gol num chutaço. Gritaria geral entre os argentinos. Eu, já no primeiro minuto do jogo, comecei a ver meu espírito zen indo pro beleléu.

A Argentina pressionou desde o primeiro minuto. Sufoco atrás de sufoco. Até que, aos 24 minutos, Luisão faz um golaço de cabeça. Confesso que esqueci que estava entre argentinos e gritei GOOOL! bem alto. Pulei da cadeira com os braços levantados, sorriso no rosto.

Minutos depois, tocou o celular do Pipi. Era o Camilo enchendo o saco!

Quando olhei para o lados, silêncio mortal na sala e inúmeros olhares cheios de ódio na minha direção! A cara de decepção e fúria era geral.

Tão pesado era o silêncio que se contrapunha à minha gritaria que me dei conta no ato do pecado mortal que tinha cometido. Fechei o bico, sentei novamente e olhei para a Nena, que me fez sinal de calmate o te van a pegar. É óbvio que não iam me bater, afinal de contas estávamos entre amigos e conhecidos, mas minha gritaria poderia gerar inimizades e mal-estares. Me contive e continuei assistindo ao jogo a gestos miúdos.

Seis minutos depois, em outra jogada aérea, Luis Fabiano pegou o rebote e marcou o segundo. Dessa vez, já prevenido, tão-somente levantei os braços e disse gol em voz baixa. Nem me levantei da cadeira. Embora todos estivessem me olhando com a mesma cara de silêncio de antes, não lhes dei motivo para nada.

Vem o intervalo e o clima deu uma melhorada. Vieram umas hamburguesas, comemos uns chorizitos e discutimos civilizadamente o jogo. Embora não saiba muito de futegol, lhes dizia: “Uma das jogadas do Brasil é bola aérea, porque temos muita gente que cabeceia bem. Outra coisa é marcar o Luis Fabiano, cuja marca principal é oportunismo e arremates de primeira”.

Começou o segundo tempo e todos os argentinos estavam esperançosos. A seleção celeste veio para cima desde o começo. Aos 20 minutos, Dátolo soltou um petardo e marcou um golaço.

Euforia total entre os hermanos. Foi um griterío de puta madre. Todos pularam sobre mim e começaram a me zoar:

!Vamos a ganar, hijo de puta!

¡Allí vamos!

¡Sostenete!

Quase não conseguia ouvir os meus próprios pensamentos de tanto barulho que aqueles infelizes estavam fazendo. Ouvi promessas, ameaças… Começaram, inclusive, a dançar samba para comemorar o gol (estranha maneira de fazê-lo).

Mas não deu outra. Meu vaticínio se consolidou um minuto depois, com um lançamento do Kaká e totó de cobertura de primeira do Luis Fabuloso. Se nos gols anteriores do Brasil tinha se feito um silêncio, dessa vez a ausência de sons, em contraste com a gritaria de um minuto antes, foi ensurdecedora. Eu não só conseguia de novo ouvir meus pensamentos como também as batidas do meu coração e a respiração de quem estava sentado do meu lado.

Comemorei, mais uma vez, com um leve levantar de braços e um resmungo de gol. Ninguém nem se dignou a olhar na minha cara. Sabiam que com aquele gol o jogo estava perdido e que a seleção argentina se meteria numa situação complicada.

O assunto simplesmente mudou de rumo. Ninguém mais falou do jogo, mal quiseram assistir ao final e começaram a se preocupar com a carne que iam comer. Eu, da minha parte, fiquei, dentro do possível, quieto mas com um sorriso brejeiro no rosto e feliz por ter sobrevivido ao jogo.

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