Impasse ético: os flanelinhas

Posted on 5 outubro 2009

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Na semana passada saí com uns amigos. Fomos a um showzinho de música cubana. Embora esteja usando muito pouco o meu carro, pois estou numa fase de diminuir o uso com o objetivo de chegar à utilização zero, fui com ele para ter mais comodidade para voltar (o show ficava no Rebouças e isso seria sinônimo de uma senhora caminhada) e porque estava uma friaca de congelar.

Estacionei meu carro na Rockefeller, rua perpendicular à Engenheiro Rebouças. Logo que saí do carro uma senhora guardadora de carros veio até mim e perguntou:

— Quer que eu fique de olho no seu carro?

— E quanto seria para ficar de olho no meu carro?, respondi.

— R$5,00.

— R$5,00?

— R$5,00. É o preço.

— Como assim é o preço?

— Sim, é o preço que eu cobro para ficar de olho no seu carro.

— Bom, eu confesso que estou achando R$5,00 meio caro. Acho que a gente podia conversar sobre isso depois.

Deixei a negociação para depois e entrei ver o show.

Flanelinha
Quer que cuide, tio?

Quando saio, lá pelas 2h, está lá ela de pé, no meio da rua deserta, com seu colete de “guardadora de carros”. Aproximando-me do meu carro, lembro que tinha que lhe dar alguma coisa. Vasculho os bolsos e só encontro uma nota de R$20,00, que não penso lhe dar como gorjeta, sobretudo porque gastei na noite inteira, contando entrada e bebida, os mesmos R$20,00. Pergunto a meus amigos se eles tinham algum trocado. Camilo tinha R$1,00 em moeda, que gentilmente entregou à senhora. Ela, não satisfeita com as moedinhas, soltou:

— Não foi isso que nós combinamos. Eu tinha dito R$5,00.

Pôs-se do lado da minha janela e ficou falando comigo em tom vexatório.

Não gostei da atitude e disse:

— R$1,00 é tudo o que temos. Lamento.

— Mas nós não combinamos isso.

— A senhora não quer entrar no mérito dessa discussão, quer?

— $%#, resmungou ela alguma coisa.

— Nós não acordamos nada. Eu disse à senhora que depois conversávamos e que, de antemão, achava seu preço muito alto.

— Mas o meu preço é R$5,00.

— Se a senhora insiste na discussão, vamos lá: para começo de conversa, a rua é pública e eu tenho o direito de estacionar onde não houver faixa amarela. Depois, a senhora veio me exigindo um preço fixo por algo que, em tese, deveria ser gratuito.

— Mas eu fiquei aqui no frio cuidando do seu carro.

— Desculpe-me dizer isso à senhora, mas eu não lhe pedi que ficasse aqui nem disse que cuidasse do meu carro. É a senhora que está me forçando a aceitar os seus “serviços”.

— É, mas ninguém mexeu no seu carro por eu estar aqui.

— Mais ou menos. Ninguém pode garantir que não mexeriam no meu carro porque a senhora está aqui.

— Eu posso garantir.

— De certa forma, porque, se mexessem no meu carro, quem pagaria o prejuízo sou eu, não a senhora. Então garantia mesmo a senhora não pode me dar.

— Mas ninguém mexeu no seu carro.

— Por sorte, porque se mexessem eu levaria o prejuízo.

— Você diz isso porque não foi você que ficou aqui no frio.

— De fato não fiquei aqui no frio, mas isso não me obriga a lhe dar mais do que já lhe dei.

— A consciência é sua!, arrematou ela.

A famosa garça
A famosa garça

Aqui é necessário começar a esmiuçar a questão. Não me incomodaria em dar R$5,00 à senhora, se eu os tivesse. O problema é que eu só tinha uma nota de R$20,00, e eu não podia dar uma nota de 20 e pedir 15 de troco. Seria, a meu ver, desconexo. Cuidar de carros na rua é uma mistura de trabalho informal com mendicância, por mais dura que possa soar essa palavra. Ninguém, em tese, é obrigado a pagar nada. É quase um contrato social de “ajuda ao próximo” consolidado socialmente, que todos, quando dá e têm moedinhas à mão, procuram respeitar por altruísmo (ou medo). Se eu já for dar algo, não posso pedir troco, não é?

É justamente o caso da senhora. Consolidou-se socialmente que pessoas em situação econômica desfavorável podem recorrer a essa profissão informal para tentar conseguir o ganha-pão diário, da mesma forma que as pessoas que têm carro (que “logicamente” seriam, por terem os meios econômicos para adquirir um bem de consumo fora do alcance das classes menos favorecidas) e se encontram em situação mais favorável costumam dar alguma moeda em troca de um “serviço de vigilância”. A senhorinha seria a pessoa em situação econômica desfavóravel e eu, por possuir um carro, seria o indivíduo em situação favorável. Cria-se uma relação eticossocioeconômica de certa tensão. Segundo o contrato social consolidado, ela é a pessoa a ser ajudada e eu sou a pessoa que tem que ajudar. Detalhe: “tem que” ajudar.

Como disse acima, não me incomodaria nem um pouco em dar os R$5,00 à senhora. A única questão é que eu não os tinha. Aqueles que me conhecem sabem como sou nesse aspecto. Não sou de dar dinheiro a pedintes, crianças de rua ou bêbados. Varia conforme a situação, minha disponibilidade econômica e se acredito ou não no que a pessoa está me dizendo.

Por exemplo, sexta passada dei um pulo no Torto para tomar uma cerveja. Fiquei de pé na esquina tranquilo e calmo conversando com os amigos. Até que se aproxima um senhor, morador de rua e trêbado de cachaça, com um hálito pior que o da onça de jacupira. Ele nos pede um trocadinho para comprar uma pinguinha. Eu lhe dei R$2,00. Por que lhe dei sem nem titubear? Primeiro, porque sabia que tinha R$2,00 à mão (não é aconselhável ficar revirando carteira na rua dando sopa para malandro); segundo porque gosto de pessoas que são sinceras e francas. Ele não disse que queria dinheiro para o filho paraplégico que está morrendo de fome na esquina, ele pediu dinheiro única e exclusivamente para a cachaça. Como era nítido que ele, com aquele trocado que lhe dei, ia continuar sua bebedeira, dei de bom grado. Isso não quer dizer, porém, que ele não tenha um filho paraplégico morrendo de fome, mas não usou disso para conseguir dinheiro.

Noutro dia fui abordado por um rapaz que me pediu uns trocados para poder voltar para casa, pois tinha sido roubado. Outra história comumente usada por pedintes e malandros. Normalmente, como disse, não sou de dar, mas tendo a me compadecer de viajantes e por isso cogitei em lhe dar algo (de novo, porque sabia que tinha por acaso R$2,00 no bolso da calça). Perguntei de que cidade ele era. Respondeu-me que era de Urussanga. Para ver se não tinha dito qualquer coisa para conseguir o dinheiro, perguntei, a título de curiosidade, onde ficava Urussanga. Embora saiba onde é e conheça a cidade, me fiz de desentendido para ver o que ele ia responder. Ele respondeu que ficava perto de Tubarão, Jaguaruna e Cocal do Sul. Foi ao ter dito Cocal do Sul que me convenci (ainda que possa ter sido enganado) que ele estava dizendo a verdade. Não lhe dei só R$2,00, mas sim uma nota de 10 da minha carteira pelo simples motivo que acreditei estar ajudando alguém que precisa.

O bom samaritano, em tese, deve ajudar ao próximo
O bom samaritano, em tese, deve ajudar ao próximo

Voltemos, pois, à senhora. Ela precisava dos meus R$5,00? Sim, e com certeza mais do que eu. Me faria falta, por acaso, os R$20,00 se eu lhe desse? Não. Por que não dei então? Pela atitude dela. Por ela ter instituído e insistido em um preço fixo por um serviço não obrigatório em local público. Por ela ter desrespeitado a convenção social de ajuda mútua, através da qual ela tem sobrevivido e à qual eu teria acudido e ajudado sem maiores problemas.

No entanto, sei que digo isso do alto da minha situação econômica pequeno burguesa de quem sabe que com certeza terá um prato de comida hoje na mesa. Nunca estive na situação dela e não sei direito como é nem como me comportaria. Ver-se sem trabalho, sem recursos econômicos e na obrigação de manter uma família muda o pensamento das pessoas.

Por outro lado, imagino que possivelmente ela não esteve na minha situação.

O que fazer então? Por que não lhe dar os R$20,00? Nesse momento, entramos na velha questão ética de sempre: quanto se dá?; ou, se é para dar, por que não se dá tudo?

Uma vez eu estava em Porto Alegre com minha ex-namorada e um casal de amigos autóctonos. Fomos ao cine Guion assistir a Paris, je t’aime. Quando saímos, compramos uns pães de queijo na padoca do lado e fomos caminhando até a cantina italiana onde íamos jantar. Caminhando pela rua, cruzamos com um menino de rua que me pediu o pão de queijo que eu levava à boca. Não lhe dei justamente porque era meu último e o estava levando à boca, o que não deixa de ser um pouco egoísta da minha parte. Minha namorada se indignou comigo e demos início a uma discussão que estragou nossa noite. Ela me dizia que não entendia como alguém podia ser tão egoísta a ponto de negar comida a outra pessoa. Lá pelas tantas, quadras para frente, soltei a seguinte frase, que acabou com a discussão: “E me diz uma coisa, se eu sou tão egoísta (o que já reconheci) e você um ser humano tão melhor que eu, por que você não deu os teus pães  de queijo para ele ou então voltou lá e lhe comprou algo de comer?”

Caímos mais uma vez na velha questão ética. O que dar, quanto dar e por que não abrir nossa casa ao próximo? O ideal é dar o que se pode e quando se pode ou então ceder tudo que é nosso para ajudar os outros? Se o mais certo é a primeira opção, de certo modo eu não agi errado, pois só posso dar o que posso dar, de forma que dar a comida que estou levando à boca ou os R$20,00 à senhora excedia, para mim naquele momento, o conceito do “eu posso quando posso”. Se, por outro lado, o eticamente correto é dar de tudo, eu agi muito errado. Entretanto, não só agi errado naqueles momentos como também agi errado em todos os da minha vida, assim como minha ex-namorada e quase todas as pessoas que conheço, pois nenhum de nós abriu sua casa para sete desconhecidos a título de ajuda ao próximo, como teria feito Madre Teresa de Calcutá.

Madre Teresa
Madre Teresa

Ou seja, qual é o limite para se ajudar ao próximo?

Fiquei pensando nisso. Fiquei pensando naquilo que a senhora disse: “A consciência é sua!”.

Embora eu não ache que esteja errado, tampouco acho que estou certo. O que fazer num caso desses?

Texto de apoio: Os sentidos dos guardadores de carros