Minhas impressões sobre Buenos Aires

Posted on 16 outubro 2009

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Paty Duim está passando suas férias em Buenos Aires e me mandou este texto com suas impressões sobre a cidade. Com seu aval, publico quase ipsis litteris seus pensamentos:

Viajar sempre é precioso e estou curtindo muito essa cidade em minha fantástica companhia, mais do que eu imaginava, podem ter certeza! Aliás, mal sabia eu que outubro talvez seja um dos melhores períodos para estar por aqui, afinal, com poucas excessões, os dias foram de sol e friozinho gostoso, com a primavera começando a mostrar a cara. Perfeito para andar nas ruas da cidade sem pressa, ou parar num desses tantos cafés que existem por aí. Estou em Buenos Aires há um pouco mais de uma semana e passarei mais alguns dias. Minhas andanças me dão condições suficientes, creio eu, para escrever algumas observações sobre as impressões que tive da cidade.

Mi Buenos Aires querida...

Mi Buenos Aires querida...

Buenos Aires é linda, convidativa e charmosa, é verdade. É uma cidade viva, de gente animada que me lembra um pouco do cosmopolitismo de São Paulo, mas com doses da imensidão visual de Brasília e do verde encantador de Curitiba. Aluguei um apartamento que me permite fazer a maioria das coisas a pé ou de metrô, o que ao meu ver é um previlégio (pela simples privação que tenho dessas coisas no meu dia-a-dia em Brasília). Mas, ao mesmo tempo, o apartamento em que estou me permite ver de camarote muita tristeza, pobreza  e desesperança. Estou muito perto do cruzamento de vários viadutos, no final (ou começo) da 9 de Julho. Viadutos estes que abrigam grupos de sem-teto, que parecem estar aumentando criticamente por aqui, pelo que entendi. Houve uma noite, em particular, que choveu muito, mas muito mesmo. Toró fortissimo, com direito a ventos fortes e trovões. Assisti calada e de camarote a desgraça dos sem-teto da varanda do segundo andar. Eles tentavam se esconder de tudo, do vento, da chuva, do frio, da fome. A pobreza é algo explícito nas ruas de Buenos Aires, principalmente para aqueles que, como eu, tem a possibilidade de percorrê-la a pé. Esses dias tentei contar o número de mendigos que vi, em uma hora de caminhada pelas ruas do centro. Desisti. São dezenas que vivem no centro da cidade, muitos deles idosos. Nos finais de semana e feriados, quando as ruas estão vazias de pessoas, é mais fácil perceber que a coisa por aqui não anda das melhores.

A maioria dos meus dias foram de muitas caminhadas silenciosas por todos os cantos da cidade, em busca de endereços para as entrevistas da minha pesquisa ou simplesmente de andanças a toa mesmo. Houve dias que andei 6 horas direto, só parando para tomar um café con leche y três medias lunas, por favor. Uma delícia! Fazia tempo que eu não sentia gosto em cruzar com as pessoas na rua, no metrô, no café. Gosto de me sentir parte da cidade, como uma observadora atenta. Me dá prazer o simples fato de olhar os traços de cada um, de perceber os detalhes que nos fazem diferentes ou próximos, escutar conversas e tentar entendê-las pelas poucas palavras em tons mais altos que aparecem nesse jeito tão particular de falar dos porteños. Eis aí uma das vantagens de viajar sozinha: a percepção fica mais aguçada e teus passos te levam a qualquer lugar. Pra conhecer Buenos Aires basta ganas de andar e se perder na beleza arquitetônica da cidade, das lindas avenidas, com surpresas a cada esquina, do Cemitério da Recoleta ou das chiquitas calles da charmosa San Telmo, com suas varandas cheias de flores.

Viejito porteño

Viejito porteño

Pois aqui há também uma beleza gastronômica especial. Principalmente para os carnívoros. Minha maior insatisfação de almoçar ou jantar sozinha não é o simples fato de estar só, mas o fato de que que é impossível dar conta sozinha de uma refeição porteña. Um bife pequeno de chorizo é impossível pra mim. IM-POS-SÍ-VEL. O maior bife de chorizo que comi era um que constava no cardápio como “mini-bife”. Una pequeñita porción, falou a garçonete. Pois imaginem os outros. Bom, talvez o exageiro da Família Faraco-Benthien tenha origens porteñas, quizás. Además, tudo é uma delícia. Até cheguei a pedir empanadas por telefone. Arrisquei llamar por teléfono a um delivery perto de onde estou. Entregaram bonitinho em meia hora, pela bagatela de 10 reais. Que delícia! Nhami-nhami! Aliás, Duínzinho porteño de mi corazõn tiene razón, os helados são deliciosos. Muito mais gostosos que os brasileiros! Dificil explicar porquê.

Além de Buenos Aires, fiz um passeio inesquecível por uma cidadezinha chamada Tigre. A cidade fica a aproximadamente uma hora de trem de Buenos Aires. Fica na beira de um rio, onde é possível fazer um passeio de barco pelo Delta do Tigre. O lugar tem uma formação bem particular, onde há várias pequenas ilhotas que abringam casas de final de semana e veraneio. Juro que foi facinho-facinho me ver em uma daquelas casas de madeira (em especial de uma chamada “Utopia”), na beira do rio, lá com meus 80 anos em uma cadeira de balanço. O que há mais que se querer nessa vida…

Aposentadoria em Tigre

Aposentadoria em Tigre