Colônia Cecília, uma colônia anarquista experimental

Posted on 26 outubro 2009

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Como havia dito na sexta-feira passada, um dos motivos por que estive longe do blog foi um freela bem diferente que fiz no fim de semana retrasado. Dei uma de guia-cicerone para uma jornalista italiana que veio a Curitiba para dar seguimento à sua pesquisa sobre a Colônia Cecília.

Partindo de alguns dados, fomos complementando sua pesquisa com entrevistas, idas a museus, bibliotecas e visita à região onde um dia foi se estabeleceu a colônia.

Muitos podem não saber o que foi ela. Aliás, eu diria que a maioria nem deve fazer ideia, já que é um episódio pontual da história do Paraná. Resumamos, pois, em linhas gerais, o que seria.

Giovanni Rossi e outros companheiros na Cittadella

Giovanni Rossi e outros companheiros na Cittadella

Em 1890 chegaram ao Brasil um grupo de italiano libertários, liderados pelo engenheiro agrônomo, veterinário, escritor e pensador anarquista Giovanni Rossi “Cardias”, com o intuito de fundar uma colônia experimental que fosse regida por ideiais socialistas, igualitários e do amor livre (não confundi-lo com promiscuidade).

Giovanni Rossi

Giovanni Rossi

Depois de uma longa viagem de Gênova, na Itália, acabaram desembarcando no porto de Paranaguá, de onde subiram de trem para Curitiba. Por influência de um tal dr. Grillo, vieram conhecer a região de Palmeira-PR e escolheram a localidade de Santa Bárbara de Cima para concretizar seu sonho.

Documentos históricos dos imigrantes italianos

Documentos históricos dos imigrantes italianos

A colônia durou quatro anos, era composta de artesãos e lavradores e chegou a ter, no seu auge, 250 integrantes. Quando de sua dissolução, a sua grandessíssima maioria foi embora e se dispersou. Restaram no local somente 3 famílias: os Agottani, os Mezzadri e os Artuzi.

Imigrantes italianos em Palmeira

Imigrantes italianos em Palmeira

Os primeiros criaram raízes em Santa Bárbara de Baixo e se dedicaram à lavroura e ao cultivo de uvas para a fabricação de vinho colonial. Dos segundos pouco sei. Os terceiros, os Artuzi, permaneceram em Santa Bárbara de Cima e, com o passar do tempo, foram adquirindo aos poucos terrenos na região e dedicando-se ao gado.

Dentre os que foram embora, estava a família Gattai, mesmo sobrenome da escritora memorialista brasileira Zélia Gattai, ex-esposa do falecido Jorge Amado.

Zélia Gattai

Zélia Gattai

São, pois, os Gattai o elo entre a Colônia Cecília e eu. Explico-me. A jornalista italiana que ciceronei é estudiosa de Zélia Gattai. No seu livro Anarquistas, graças a Deus, Zélia dedica uma dezena de páginas à Colônia Cecília devido às memórias de seus parentes. Interessada pelo trecho, a jornalista começa a pesquisar sobre e, com o decorrer dos anos, acaba se aprofundando no assunto. Tanto que decide vir visitar a região onde um dia foi a colônia.

E como uma jornalista italiana de uma enorme rede de TV de lá chegou até mim? Por contato! Ela é amiga de um amigo meu italiano, que fez o meio de campo e nos pôs em contato.

Caminhos da Cecília

Caminhos da Cecília

Parênteses à parte, ei-nos em Palmeira com o intuito de conhecer o que fosse possível da região. Depois de cinco dias com chuva intermitente, demos sorte de ela parar bem no dia que tínhamos reservado para desbravar de carro Santa Bárbara. Digo desbravar porque percorrer seria um verbo muito ameno para descrever o que meu carro teve que enfrentar. Buracos, lama e atoleiros era o que compunha a estrada de terra. Os 8km que separavam a BR de Santa Bárbara demandaram pelo menos meia hora de esforço, suadeira e preocupação de não atolar.

Essa divisão entre a Santa Bárbara de Cima e a de Baixo só fomos saber, na verdade, depois que encontramos nosso guia local, que nos levou pelas estradinhas vicinais e nos apresentou a região.

Antiga casa dos Mezzadri

Antiga casa dos Mezzadri

Conhecemos onde hoje moram os Agottani, os Mezzadri remanescentes, o antigo cemitério polonês (que durante anos proibiu os italianos de serem enterrados lá), a cruz e a região de Cima, onde de 1890-94 existiu a Colônia Cecília. Levados por nosso guia, passamos de carro pela estradinha que hoje corta uma parte da ex-colônia. As terras propriamente ditas dos “cecilianos” e o local exato onde eles se alojaram não pudemos conhecer, pois se encontram dentro de uma propriedade privada. Pudemos, sim, vislumbrar o lugar onde um grupo de italianos libertários tentou levar a cabo o sonho de viver sem as amarras da sociedade e em liberdade, longe do capitalismo então nascente. Em um determinado momento, por detrás de uma série de árvores que perfaziam um muro verde, pudemos entrever algumas casas antigas de madeira.

— Uma pena não podermos entrar. Lá, justamente onde estão hoje aquelas casas, foi onde moraram os integrantes da colônia — disse-nos nosso guia. Atualmente não há nenhum resquício do que foi outrora.

Quando partimos, o sol já ameaçava se pôr. Correr o risco de se perder em um emaranhado de estradinhas de terra à noite, com risco de tomar chuva e atolar, não me pareceu uma boa ideia, de forma que tivemos que deixar uma mesa cheia de iguarias coloniais (que tristeza deixar aquele queijo trançado pela metade!) e enfrentar novamente a estradinha rumo à BR. Isso não quer dizer, porém, que tenha deixado para trás a história da Colônia Cecília. Aos poucos, um patchwork anarquista tem se formado ao meu redor. Qual rumo tem tomado? Confesso que não sei…

Cenas para capítulos vindouros.

Seria o anarquimos uma utopia?

Seria o anarquimos uma utopia?

Posted in: Causo, Curitiba, Palmeira