Khadji-Murát, de Leon Tolstói

Posted on 11 novembro 2009

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Segundo o crítico literário norte-americano Harold Bloom, Khadji-Murát é a melhor novela jamais escrita. Cheguei a ela por caminhos sinuosos.

Harold Bloom

Estava eu conversando, sobre literatura, com meu grande amigo e filósofo João Arthur quando ele começou a discorrer sobre o Harold Bloom. Crítico venenoso, cheio de inimigos, nutre profundo ódio pela academia, da qual faz parte. Já leu de tudo e defende a teoria do gênio (atualmente não muito benquista por antropólogos e sociólogos). Independente de gostar ou não dele, achei sua história, a do Harold Bloom, interessante e comecei a lê-lo.

À medida que lia e descobria sua profunda admiração por Shakespeare e Tolstói, minha vontade de ler Khadji-Murát foi crescendo, até o ponto de eu me ver obrigado a ir à biblioteca e emprestar o livro.

Li-o em dois dias. São 130 páginas de fácil leitura numa narrativa primorosa, que mescla momentos descritivos bucólicos, reflexões e cenas de aventura.

Não sei dizer se é de fato a melhor novela jamais escrita. Não tenho tanta leitura assim para bradar isso aos quatro ventos. Nem sei se ia querer.

Mas o livro, como dizem as boas e más línguas, é impressionante do ponto de vista da literatura. Deixo aqui um trecho inicial do livro, que me impactou:

O pequeno tufo consistia em três plantas. Uma delas fora cortada, e o resto de um ramo aparecia como um braço decepado. Em cada uma das outras duas havia uma flor. Essas flores tinham sido vermelhas, mas agora estavam negras. Uma haste fora quebrada, e a sua metade, com uma flor suja na ponta, pendia para baixo; a outra, apesar de coberta de lama negra, ainda se mantinha erguida. Via-se que todo o tufo tinha sido pisado por uma roda, e que se erguera mais tarde, ficando inclinado para um lado, mas sempre se mantendo de pé — como se lhe tivessem arrancado um pedaço do corpo, revolvendo-lhe as entranhas, e lhe decepassem um braço e furassem os olhos, mas ele sempre se mantivesse firme, sem se entregar ao homem, que destruíra todos os seus irmãos ao redor.

— “Que energia!” — pensei. —”O homem venceu tudo, destruiu milhões de ervas, mas esta não se rende.”

Tolstói alistado no Cáucaso, em 1856

Substitua a “erva” pelo personagem histórico Khadji-Murát, guerreiro checheno que se aliou aos russos para salvar sua família, e entenderás o fascínio de Tolstói. Substitua agora “erva” por “homem” e obtenha alguma sabedoria de vida e de como viver a vida. Não é à toa que Tolstói foi quem foi.