O Filho Eterno (Cristovão Tezza)

Posted on 13 novembro 2009

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Certo dia, conversando com uma então namorada, ela me disse que, se eu quisesse conhecê-la bem, eu devia ler um livro do Garcia Márquez intitulado Memórias de minhas putas tristes.

Desde então fiquei com isso na cabeça. Não especialmente com o livro e o trecho dela, mas com a ideia de que todo mundo teria um livro no qual se reconhecesse inteiramente. Procurei o meu por muito tempo, até que o encontrei: O Filho Eterno, de Cristovão Tezza.

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Embora atualmente professor da UFPR, nunca tive aula com ele. Também nunca tinha lido nada que tivesse escrito, nem me sentira atraído, confesso. Até que, de conversa em conversa, meus amigos que o liam iam comentando o livro, elogiando-o.

E fiquei com vontade de ler.

Quando comecei, uma surpresa tremenda. Achei-o muito bom já de cara. A história, a franqueza do narrador, a coragem em dizer o que diz. Mas mais que isso, fiquei surpreso, senão atônito, com o fato de que eu sou cópia escarrada do narrador, o personagem do “pai”. Inclusive nos detalhes. Enquanto lia, era como se me visse num espelho, ipsis imaginis. Simplesmente aterrador.

Mas ele formula uma reação; ou pelo menos verbaliza aquilo que, de fato, tentou guiar sua vida até ali: eu não estou condenado a nada – eu me recuso a me condenar a alguma coisa, qualquer que seja. Sempre consegui tomar outra direção, quando preciso.

Para além do exercício antropológico de reconhecer-se numa obra, no meu caso foi um exercício metafísico de reconhecimento de um sujeito num dado tempo, num dado lugar, numa dada cultura, num dado zeitgeist. Ver-se naquilo que o circunda, com seus limites e capacidades, é imobilizante. No entanto, vai de encontro com tudo o que sempre pensei e sempre me disse. É, mais que nada, uma atestação da minha&nossa limitada e determinada mortalidade, que às vezes esquecemos.