Se a mulher da minha vida fosse a garota que conheci ontem…

Posted on 13 fevereiro 2010

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Eu a teria perdido. Porque, nesta mesma manhã, ambos seguimos caminhos diferentes. Eu para o norte, ela para o sul.

Destinos opostos, os quais, com pouca chance, cruzar-se-ão novamente.

Pudera que sim. Mas provável que não.

Resta a recordação de seus olhos, dos detalhes de sua mão, de seus seios fartos, suas pernas. Bem como de sua pinta no rosto e de inúmeros sorrisos a descobrir.

Houve outras “mulheres da minha vida”, hei de confessar. Esta, porém, foi a última, e por ser a mais recente, é a mais verdadeira.

A verdade nunca jaz no passado. Ela sempre espreita o presente, deixa marcas indeléveis que só podem ser lidas enquanto a brisa do tempo ainda não as apagou.

Estas palavras são o esforço para imortalizar as marcas de algo já ido. Cada minuto passado desde que ela partiu (eu nunca parto, pois sempre estou comigo mesmo) é o efeito da brisa do tempo sobre as marcas.

O tempo sabe que ganhará, porque ele sempre ganha. Mas eu, por tolice, faço um esforço quase vão em preservar o que nunca foi. A vontade de não perder a “mulher da minha vida” que já perdi faz com que a minha tolice seja maior que a certeza do inevitável.

As marcas vão sendo apagadas aos poucos. Já tenho dúvidas de como era exatamente o tom da sua voz, se seus olhos eram de uma única cor, se seus braços tinham cicatrizes ou não.

Os meus possuem uma só. No esquerdo, na altura do ombro.

Não sei nada sobre seu corpo. Infelizmente, não tive tempo de descobri-lo. As marcas da “mulher da minha vida” são para mim trechos de sua história pessoal. Embora não me afetem, fazem dela o que ela é, e por isso tornar-se-iam importantes para mim.

Quantos passos não terá dado ela até cruzar seu caminho com o meu? Quantos “eus” não terão composto seu caminho antes de mim, e quantos de mim não virão ainda a compor seu caminho?

Eu sou mais um passo em sua vida. Confesso que não sei se isso me alegra ou não. Minha mente diz que ser um passo no caminho da “mulher da minha vida” é um privilégio, ainda que ela não seja “minha”. Meu corpo, por outro lado, lamenta ser somente isso. Gostaria de ter sido, ao menos, um bom trecho do mesmo caminhar.

O coração não sabe o que pensa…

E por não saber, não pensa. Só sente. E o que sente é que, mais uma vez, deixou passar a “mulher da sua vida”.

A vida guarda segredos. Não revela se esta perda é definitiva ou não. Não revela se tudo isso é tão-só o primeiro capítulo de uma longa história ou se é somente uma nota necrológica de jornal com começo, meio e fim:

Ontem conheci e o “amor da minha vida”. Hoje a perdi para sempre.


Tilcara, 29 de janeiro de 2010.