Traição

Posted on 20 janeiro 2011

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Confesso que traí. Traição grande, quem sabe até imperdoável. O sentimento de culpa anda me corroendo. Fico imaginando o que pensará quando descobrir, como reagirá, que me dirá.

Seu rosto. Primeiramente demonstrará reprovação, depois raiva. Se deixará explodir contra mim?

Eu direi que foi só um momento de fraqueza, que não pretendia. Um deslize. Que fiquei tentado.

Mas não sei se compreenderá. Não sei se eu mesmo compreenderia. Vislumbro um fim iminente. Talvez nunca mais queira falar comigo ou me ver.

Nossa relação vem de tempos. Não sabe quanto, não sei quanto. Ninguém sabe quanto.

Trair é difícil. Já traí, já fui traído. Acho que ser traído é bem pior. A consciência com culpa não supera as caraminholas populando na cabeça por conta da traição alheia. A quantidade de coisas que se fica pensando. Por que me traiu? Com quem? Quantas vezes? Terá gostado?

Aconteceu assim: eu já vinha descontente há tempos. Tudo andava fora do lugar, comigo mais incomodado que insatisfeito. Pensava em como era e não em como estava sendo.

O meu cabelo estava grande demais, estranho demais, eu demais desgostoso com ele. Vinha crescendo sem medidas, com formato incontrolável. Ao mesmo tempo, todo dia eu passava em frente daquele outro cabeleireiro, perto de casa, com um anúncio quase irresistível de “10 pila” o corte masculino. Eu pensava “mas o meu cabeleireiro sabe fazer o corte sem nem explicar, só preciso sentar na frente do espelho”. Mas o salão dele é longe, e esse “10 pila” é do lado de casa…

A preguiça falou mais alto. Que me perdoe meu cabeleireiro, mas tive que traí-lo com o tiozinho de “10 pila” da esquina.

E o pior é que não ficou ruim.

(risos)

 

 

 

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