Para os olhos lerem quando o coração esquecer

Posted on 16 fevereiro 2013

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Minha mãe morreu.

Ou melhor, descansou.

Descansar é o que ela queria.

Seu corpo já era uma prisão que não lhe dava respiro. Sufocava. Restringia. Trazia sofrimento.

Sentada no chão do banheiro, abraçada no vaso sanitário e agoniada de ânsia de vômito, lembro-me de ela falando: “Senhor, por que você não me leva logo? Isto não é mais vida.”

Não mais que um mês depois, seu coração parou de bater. Seu pulmão parou de ventilar. Seu corpo sucumbiu à falta de energia. O câncer já a havia tomado por inteiro.

Era uma segunda-feira, dia 14 de janeiro. 21h15.

 

De minha mãe, porém, já havia me despedido há dias. Pelo menos a mãe que eu conhecia e que faço questão de guardar na memória.

No meu bloco de notas, leio: “27 de dezembro de 2012. Hospital. A minha mãe está morrendo. Eu estou sentado em frente a ela à espera da sua morte.”

Tarde chuvosa e nublada. Cidade tranquila. Não se ouve o marulho do mar ao longe, mas pode-se vê-lo. No quarto, nenhum parente ao lado, nenhuma enfermeira entrando e saindo.

Somente o silêncio, ela e eu.

Um leito, uma moribunda e seu filho.

Tenho sua mão entre as minhas, mas meu olhar está longe. Lá no inalcançável do mar, onde espero que suas cinzas possam descansar depois de espargidas.

Costumava dizer que vinha me preparando para sua morte. Não estava, porém, preparado para minhas lágrimas. Naquela tarde, sentado em seu leito, chorei, assim como choro ao escrever isso agora.

Aquela foi minha despedida.

Ali lhe agradeci por tudo.

Ali eu lhe disse que a amava.

Às vezes abria os olhos, olhava-me fundo e imergia novamente em sua doença. Sua mão, que mantinha entre as minhas, movia um dedo e parava. É como se ela tivesse vontade de algo, mas não conseguisse. O mundo era mais forte que ela.

Seu olhar era de susto. Ela não estava preparada para morrer.

Antes de a levarmos ao hospital, em cujo leito então minhas lágrimas foram mais fortes que eu, sentei a seu lado, em seu quarto, e lhe disse: “Mãe, você está morrendo. Você sabe, não é? A gente precisava pensar nesse fim, em como você gostaria que as coisas fossem, numa maneira de que tudo fosse em paz”. Respondeu que não estava morrendo e que eu estava louco. Mas no fundo eu sabia que negar era seu jeito de dizer que tinha medo.

 

Minha mãe sempre se negou o inevitável: que seu câncer não tinha cura.

Nunca teve, desde o princípio. Todos os ciclos de quimioterapia que fez, todos os remédios que tomava, todas as vezes que foi internada por estar mal ou para se recuperar, tudo era um paliativo. Inevitavelmente, ela terminaria, mais hora ou menos hora, corroída pelo câncer, como terminou.

Na fase final, já com o pulmão comprometido, seu cérebro começou a ser afetado pela má oxigenação. Suas ideias variaram. Manias e trejeitos foram exacerbados, uma síndrome persecutória tomou lugar. O mais curioso, porém, foi a dinâmica que surgiu. Quanto melhor fisicamente, menos lúcida estava. Quanto pior seu corpo se encontrava, mais lucidez tinha.

Naquela tarde, naquele leito, aquele medo veio à tona. Sem subterfúgios, sem negações. O medo, puro e simples. Quando abria os olhos e os arregalava em minha direção, eu podia ver seu medo. Um medo do desconhecido, mas também um medo de abandonar.

Ela receava deixar-me sozinho neste mundo. “O que é um filho sem mãe?”, devia pensar ela. “Como posso deixá-lo aqui? E se ele precisar de mim?”

Agora, pois, você não pode fazer mais nada, mãe.

Eu lhe dizia isso. Mas como uma boa mãe, vivia se preocupando. É o que mães fazem, não é?

Naquela tarde, naquele leito, tive que lhe dizer, mais uma vez, que não se preocupasse, que eu ficaria bem. Ela provavelmente não me ouviu…

Minha tia me contou, após seu adeus, uma confissão sua: “Estou preocupada com o meu filho. Ele ainda não está preparado.”

Se eu estava?

Por isso eu achava que, no fundo, ela sabia que ia morrer. Talvez não fosse só medo da morte. Talvez fosse também medo de não me deixar sozinho.

Esse deve ser o motivo por que meu pai, quando estavam fechando o caixão e levando-a embora, me disse: “Não se preocupe, filho, você não está sozinho”.

 

Não ouvi o som oco e surdo da tampa sendo fechada. Provavelmente porque pensava que não veria minha mãe nunca mais.

E nunca é uma palavra que dura muito tempo.

As lembranças, essas só vieram depois, aos poucos. Com a papelada. Com os álbuns de foto. Com as cartas encontradas. Com as frases esparsas em sua agenda.

São muitas. Tristes, a maioria.

10 de fevereiro: “Passei um domingo muito triste em casa. Estou completamente desacorçoada.”

10 de março: “Fui no mercado e vim muito cansada.”

7 de julho: “Fiquei o dia todo em casa com dor.”

A partir de então, meses de páginas em branco. Em outubro, poucas anotações, que foram escasseando até não haver mais.

A que me chamou mais atenção, no entanto, data de 29 de abril: “São os piores dias pra mim. A saudade é grande demais da minha vida.”

Saudade da vida é o que mais a desacorçoava. Uma vida de movimento, mobilidade, projetos, perspectiva. Que se tornou um emaranhado de tudo que ela não era.

Na agenda, o mais recorrente eram seus apontamentos sobre médicos, consultas, exames a fazer, remédios a tomar. Muitas anotações do gênero “Passei o dia em casa”, “Não saí”. Raras as “Fui no patch e vi minhas amigas”.

Nenhuma que dissesse “Fui na praia”.

E minha mãe morava a meio quarteirão do mar.

Não ter molhado seus pés na água salgada e morna da praia me diz muito sobre seu estado de espírito na fase final.

Suas preocupações eram outras. Saúde, recuperação, fraqueza. Ao mesmo tempo, faz antever a realidade da doença. Um desdignificar o homem, um prostrá-lo ao mínimo, um reduzi-lo a suas funções vitais, um desacorçoá-lo da leveza.

Os meses finais eram passados ou na cama ou no sofá, a dormitar. É preciso repousar muito, eram as recomendações médicas.

Curar-se, recuperar-se ou tão-somente manter-se viva consumia-lhe muita energia. Cada vez mais, foi retornando ao mundo de suas lembranças, em seus sonhos.

Foi impressionante a desaceleração que sua vida sofreu. Da vida cuja saudade era grande demais, onde caminhava na praia todos os dias, pedalava na orla, saía com as amigas para um chope, namorava e dava aulas, até a vida em que era preciso repousar o máximo possível levou seis meses.

Durante o último ano, em poucas ocasiões esteve “totalmente” bem, a ponto de caminhar, sair ou saçaricar.

É de seu último aniversário que tenho a lembrança de seu melhor estado de saúde.

Já tinha o câncer há um ano, sofrera uma trombose na perna, caminhava com muletas, os cabelos caíram e voltaram. Mas nesse dia, na quinquagésima sexta comemoração de seu nascimento, seu maior presente foi poder estar de pé e receber os convidados, como ela gostava de fazer.

Sua mãe, seus irmãos, cunhadas, amigas mais próximas e eu, o filho único. Todos à mesa com café, cuque e torta salgada. Contavam-se causos. Minha mãe estava sorridente, feliz com a simplicidade que possuía e que a vida lhe ensinara ou lhe opusera com os anos. Um pouco de saúde, comida e um pouco das pessoas que importam. Contentemo-nos.

É motivo de comemoração. Não há dúvidas. Estar aguentando uma doença corrosiva como o câncer ao longo de meses, com dores, sofrimentos e, principalmente, sem perspectiva é admirável. Mérito.

Lembro de pensar, naquele aniversário, que seria seu último. Médicos dizem que sempre há uma melhora notável antes da queda derradeira.

Três meses depois, eram notados já os primeiros sinais de confusão mental típico em doentes terminais.

“Maikon, dá três voltas na chave, em cima e em baixo, porque eles não podem entrar aqui.”

“Filho, estão de olho em mim. Vendo tudo o que eu faço.”

“É verdade, mãe. Melhor ficar quietinha, então, sem tirar o oxigênio, para eles não virem aqui te pegar.”

E ela ficava sentada no sofá, praticamente imóvel, à espreita deles. Quem quer que fossem.

O mais importante era mantê-la no oxigênio, para que não sentisse falta de ar e a confusão não aumentasse.

Por volta do Natal do ano passado, uma tarde qualquer em que estávamos em casa, ela deitada ou sentada e eu só “estando” ao lado, tivemos uma tarde muito divertida.

Ela estava “bem”, e portanto nada lúcida. Variava das ideias. De câmeras escondidas pela casa a pessoas conversando no corredor.

Eu não me importava mais. Rir era o melhor remédio.

E das câmeras ocultas por detrás dos enfeites ou da árvore de Natal, fui tecendo com ela uma realidade. A realidade do que foi sua vida.

Os personagens misturavam-se. Pai falecido, mãe viva, irmãos, ex-marido, amigos de juventude imiscuíam-se uns aos outros, assuntavam a mesma conversa.

A nova e última Rose rememorava a passada, a da vida que dava saudade demais. A das fotos antigas que tenho e que naquele então voltavam-lhe à mente.

Desfile dos alunos do colégio. Não mais que 18 anos.

Com cinco amigas, em formação de “time de futebol”. As de pé fazem chifrinho nas sentadas.

Festa de formatura de outrem, todos deitados na grama. Baile do Bolinha. Dos Milicos. Dançando com meu tio.

Uma mãe que nem conheci mas que permanecia viva naquela que eu observava ir embora.

A mãe que lembro é outra. Dona de casa, dedicada a marido e filho. Duas vidas alheias de que ela se apropriava como se fossem dela.

Não se pode recriminá-la por seu zelo. Cuidar é o que lhe dava prazer.

O irônico, somente, é que pouco cuidou de si mesma durante a vida. Fumou por três décadas, sendo que seu pai já havia falecido de câncer no pulmão.

 

Espera igual a ansiedade. Ansiedade igual a cigarro.

Uma carteira, duas carteiras por dia às vezes.

Resultado: a mais nova dos irmãos morre da mesma doença e quase do mesmo jeito que o pai.

A vida se repete.

E a vida certamente vai continuar a se repetir.

Meu avó morreu, e minha mãe, de alguma forma, lhe prestou uma homenagem.

Minha mãe morreu, e eu aqui lhe presto minha homenagem.

Um dia morrerei eu, e quem sabe um filho meu preste sua homenagem.

O que vai ficando são os intervalos, os silêncios e as ausências.

O que vai ficando são os que ainda não foram, porque a vida precisa continuar se repetindo.

 

Ainda o som oco e surdo.

Ainda aquele momento final.

Fechamento.

Encerramento.

Eu havia preparado uma fala para a ocasião, mas de minha boca não saiu palavra. Só choro. Achei que não convinha, que o melhor seria abraçar meu pai e deixar a dor ir embora em silêncio e com o silêncio.

Que vem me acompanhando desde então.

E o qual tenho escutado.

Na minha fala, diria, entre tantas outras coisas, que minha mãe queria ser cremada e que suas cinzas deveriam ser jogadas no mar.

Não titubeei.

 

Dias depois, madrugada, fui à praia. Estava sozinho. A noite e as cinzas de minha mãe vinham a meu lado.

Caminhava sem pressa. Meus pés iam sentindo a tibieza da água. Cada passo uma lembrança, e cada lembrança uma despedida. Lembrava e lembrava.

Por algum motivo, vieram-me à mente duas fotos suas que tenho sob a mesa do escritório. Uma: ela jovem, não mais que 25 anos. Meio desfocada, entre flores, blusa listrada. Cabelos pretos e sorriso. Outra: recente, nós dois abraçados. Cabelos brancos e olhos fundos. Não se sabe se se vê cansaço, dor ou o quê.

A partir de então, suas fotos eram o que me restou. E as lembranças, mas essas sei que aos poucos vão se borrando, se apagando e sendo esquecidas…

Devagar, me permiti o mar. Até a cintura. Sem ondas, as solas de meus pés sentiam a aspereza da areia. Areia à qual se juntariam as cinzas.

Mais uma vez agradeci.

Mais uma vez chorei.

E pela primeira vez eu lhe disse: “Descanse em paz, mãe.”

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